
"O Estranho" de Ozon é um filme que faz você ficar sentado no escuro por um bom tempo, olhando para o nada. Mais ou menos como o próprio Meursault. Selecionamos 8 filmes que acertam no mesmo ponto: absurdo existencial, "anestesia" emocional e heróis...
"O Estranho" estreou nos cinemas russos em 5 de março — e imediatamente se destacou como um evento que não se discute perto do bebedouro. A adaptação em preto e branco, deliberadamente fria, de Albert Camus por François Ozon é um filme que faz você ficar sentado no escuro da sala por um bom tempo, olhando para o nada. Mais ou menos como o próprio Meursault. Benjamin Voisin no papel de um homem que parece não se importar com absolutamente nada — incluindo a própria vida — cria uma imagem tão hermética e atraente que dá vontade de mergulhar imediatamente em águas semelhantes.
O problema é apenas um: essas águas não são tantas assim. O cinema existencial é um território onde um em cada dois diretores acha que está filmando "algo profundo", mas na verdade apenas estica a duração com silêncio e panorâmicas lentas. Selecionamos oito filmes que não são apenas tematicamente semelhantes, mas que realmente ressoam com o que Ozon fez. Camus e suas ideias estão em cada quadro — mesmo que seu nome não seja mencionado em lugar nenhum.
"O Homem Que Não Estava Lá" (The Man Who Wasn't There, 2001)
Ed Crane (Billy Bob Thornton) trabalha como barbeiro em uma pequena cidade da Califórnia. Ele quase não fala, quase não sente e quase não existe. Depois comete um assassinato — e começa um julgamento que o julga não pelo que ele fez.
Este é, provavelmente, a rima cinematográfica mais precisa com "O Estranho" de Camus — só que filmada pelos irmãos Coen e transportada para a América do pós-guerra. Roger Deakins filmou em um preto e branco impecável — quase como o de Ozon — e criou uma atmosfera de torpor físico. Ed Crane é como um primo de Meursault: igualmente impenetrável, igualmente condenado por um sistema que busca motivos onde eles não existem. Se "O Estranho" te afetou, este filme vai te finalizar de vez.
"O Estrangeiro" (Lo Straniero, 1967)
A primeira e por muito tempo única adaptação da novela de Camus. Luchino Visconti convidou Marcello Mastroianni — e isso por si só é paradoxal: um dos atores mais carismáticos de sua geração no papel de um homem desprovido de carisma por definição.
Comparar a versão de 1967 com o filme de Ozon é um prazer à parte. Visconti filmou em cores e a encheu com o calor mediterrâneo que você quase sente na pele. Mastroianni interpreta Meursault mais como um hedonista cansado; Voisin, como um homem que parece não existir. Dois olhares, duas épocas, uma filosofia. Assistir depois de Ozon é obrigatório.
"O Conformista" (Il Conformista, 1970)
Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant) é um funcionário fascista dos anos 1930, enviado para matar seu antigo professor em Paris. Ele concorda — não por convicção, mas precisamente porque não tem convicções. Ele quer ser como todo mundo.
Onde "O Estranho" explora um homem que não se importa, "O Conformista" explora um homem que finge que se importa. A diferença é sutil, mas perceptível. O diretor de fotografia Vittorio Storaro filmou isso em sombras vertiginosas e composições geométricas — uma beleza quase dolorosa. A Itália fascista e a Argélia colonial de Camus são cenários diferentes, sem dúvida, mas em ambos os filmes está a mesma história sobre como o sistema molda monstros a partir de pessoas comuns.
"Paranoid Park" (Paranoid Park, 2007)
Um skatista de dezesseis anos de Portland (Gabe Nevins) mata acidentalmente um guarda de segurança. Ele não foge, não confessa — apenas continua vivendo. Vai para a escola, conversa com a namorada, anda de skate.
Gus Van Sant filmou isso em um tom semelhante de "anestesia" emocional que Ozon. O herói não é um monstro nem uma vítima — ele é apenas um adolescente cujo cérebro se recusa a processar o que aconteceu. Imagens desfocadas, estrutura não linear, música que soa como uma lembrança — tudo isso cria uma sensação que é impossível descrever em palavras, apenas vivenciar. Um dos melhores filmes sobre alienação feitos no século XXI.
"O Processo" (Le Procès, 1962)
Josef K. (Anthony Perkins) acorda uma manhã e descobre que foi preso. Por quê — ninguém explica. O julgamento começa, a lógica desaparece.
Franz Kafka e Albert Camus são os dois polos do mesmo horror existencial, apenas com ênfases diferentes. Orson Welles filmou "O Processo" em uma geometria preto e branca desorientadora — estações de trem abandonadas, corredores infinitos, milhares de pastas idênticas. O sistema que julga Meursault por não ter chorado no funeral da mãe e o sistema que persegue K. sem explicações são, essencialmente, o mesmo mecanismo. Absurdo, apenas com máscaras diferentes.
"Frantz" (Frantz, 2016)
Alemanha, 1919. Uma jovem (Paula Beer) descobre que seu noivo falecido tinha um amigo francês (Pierre Niney) — que agora vem e coloca flores em seu túmulo.
Se você quer mais Ozon depois de "O Estranho" — esta é a primeira escolha. "Frantz" também é filmado em preto e branco, também explora temas de culpa e identidade nacional, também equilibra entre verdade e mentira como formas de sobreviver. Aqui Ozon é muito mais suave e romântico do que em "O Estranho" — mas o mesmo intelecto frio está no lugar. O filme ganhou o César de Melhor Fotografia.
"Uma Vida Oculta" (A Hidden Life, 2019)
O fazendeiro austríaco Franz Jägerstätter (August Diehl) se recusa a fazer o juramento a Hitler — e isso em 1943, quando toda a sua pequena cidade montanhosa, incluindo o padre, o convence a reconsiderar. Ele não será compreendido, será julgado, será fuzilado. Ele ainda assim se recusará.
Este é o reflexo espelhado de "O Estranho" — só que invertido. Meursault vai para a execução porque não se importa; Franz, porque se importa absolutamente. Mas ambos chegam ao mesmo ponto: a sociedade julga não pelo ato, mas pelo desvio da norma. Terrence Malick filmou isso em seu estilo característico — câmera na mão dos prados alpinos, vozes em off, tempo que se arrasta como resina. Três horas, após as quais você quer ficar em silêncio. No Festival de Cannes de 2019, o filme recebeu o Prêmio do Júri Ecumênico e o Prêmio François Chalais.
"Zona de Interesse" (The Zone of Interest, 2023)
O comandante de Auschwitz, Rudolf Höss (Christian Friedel), vive com sua família em uma casa aconchegante logo atrás do muro do campo. As crianças brincam no jardim. A esposa planta flores. Do outro lado da cerca, ouvem-se sons sobre os quais ninguém fala. Todos fingem que eles não existem.
"Zona de Interesse" é, provavelmente, o filme mais radical dos últimos anos sobre distanciamento emocional. Glazer filmou o apogeu da banalidade do mal: a família Höss não são monstros no sentido usual — são pessoas comuns que simplesmente não reagem. Nem horror, nem dúvida, nem arrependimento — apenas cotidiano, carreira e café da tarde. É o mesmo vazio emocional de Meursault, só que levado ao limite lógico e colocado no contexto do horror histórico absoluto. Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Grande Prêmio de Cannes e uma sensação de frio que não passa por vários dias após a exibição — inclusos.
Oito filmes — isso não é, claro, uma resposta exaustiva à pergunta "o que é cinema sobre o absurdo da vida", mas é suficiente para passar algumas noites na companhia de pessoas que, assim como Meursault, não encontram uma resposta simples para a pergunta "por quê". Se depois de tudo isso você quiser reler Camus — considere que o cinema funcionou como deveria.
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