




Damian McCarthy é um diretor irlandês que, sem alarde e sem grandes orçamentos, está montando uma das filmografias de terror mais interessantes da década. Primeiro Caveat, depois Oddity (não, não vou escrever aquele título ridículo em português), e agora Hokum: seu primeiro filme para o estúdio Neon — praticamente os novos A24.
A estrela de "Severance", Adam Scott, interpreta aqui Omar Bauman — um escritor de mau caráter e parentesco evidente, se não com Stephen King, pelo menos com o legião de seus alter egos nos romances. Bauman (quase Bachman — dá like se sacou a referência) chega a um hotel isolado na Irlanda para espalhar as cinzas dos pais e cai sob o encanto de uma lenda local sobre uma bruxa antiga que supostamente habita a suíte nupcial. Depois disso: visões, desaparecimentos e uma lenta descida aos cantos mais sombrios de sua própria mente. Nem mais uma palavra sobre o enredo: quanto menos você souber, melhor funciona.
Vamos falar melhor sobre Adam Scott, porque ele merece. Após a segunda temporada de "Severance", ele corria o risco de ganhar a reputação de "ator de uma expressão só" — mas aqui Scott vai além de seu alcance habitual. Bauman é um personagem trágico completo; um tipo desprezível, amargo e arrogante que você despreza, mas não consegue deixar de ter empatia. Ele é multifacetado como uma cebola, e também faz as pessoas chorarem.
O filme em si é estruturado de forma semelhante: começa como um drama gótico, muta para folk horror, daí para thriller psicológico, e depois muda de estado agregado várias vezes. Isso lembra "Barbarian", e não por acaso: o mesmo estúdio Spooky Pictures nos créditos. Mas se "Barbarian" se expandia principalmente horizontalmente — através da mudança de perspectivas, personagens e camadas temporais — "Hokum" funciona verticalmente. E aqui há reverências diretas a Hitchcock, onde os andares do motel Bates eram um mapa literal da psique humana (longa explicação, Žižek te ajuda). McCarthy carrega suas locações com o mesmo peso metafórico: cada andar do hotel é uma camada distinta de memória, culpa e repressão.
Mas meu gatilho pessoal disparou em uma cena específica: quando a câmera mostrou em close um mapa do andar com a marca "Você está aqui", instantaneamente materializou Silent Hill 2 na minha cabeça. E não me soltou até o final. Porque "Hokum", em sua mecânica interna, é literalmente um survival horror transportado para o cinema. O mesmo hotel não apenas como refúgio de fantasmas, mas como uma máquina de culpa que gradualmente tritura o protagonista. A mesma instabilidade da realidade, onde você não entende se está acontecendo lá fora ou apenas na cabeça de Bauman. E até os mesmos recursos de jogo: gravações de áudio como pistas, quartos trancados, chaves, quebra-cabeças. Não sei se é uma referência consciente ou se McCarthy apenas respira o mesmo ar, mas o acerto é cem por cento.
Vamos encerrar por aqui. A adaptação "oficial" de SH2 foi uma porcaria definitiva — a forma estava lá, o conteúdo se perdeu em algum lugar na névoa. Bem, aqui está a não oficial. Um terror excelente e exemplar que não tenta "elevar o gênero" com técnicas artísticas da moda, mas simplesmente conta uma história muito assustadora de forma muito legal. Como à noite ao redor de uma fogueira — só que não se sabe quem acendeu a fogueira, e as sombras caem em direções completamente erradas.
Até agora, o melhor terror do ano. Faça o check-in.
#assisti_um_filme
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