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A partir de 5 de março, nos cinemas, é possível pegar duas obras-primas italianas sem as quais o cinema como arte não seria o que conhecemos. Junto com "A Aventura" de Michelangelo Antonioni, "A Doce Vida" de Federico Fellini foi relançada. Sobre por...

O popular jornalista Marcello (Marcello Mastroianni) já se adaptou há muito ao ornamento falso-dourado da brilhante elite italiana do final dos anos 50. Ele conhece de vista todas as pessoas importantes — de editores a garçons. Seu alimento é o escândalo da vida glamorosa, que ele derrama para o mundo assim que a cabeça para de zumbir de ressaca. O trabalho de Marcello não é separado do lazer: sono diurno, perambulações noturnas pela cidade, casos amorosos emoldurados pelo ritmo da dança caótica e incessante de outros repórteres. Ele tem muitas mulheres, muitos amigos, muito dinheiro, champanhe, o brilho da noite romana, os arabescos barrocos da vida social, uma festa eterna, férias, descanso. Só falta a alma.

«Сладкая жизнь»
Cena do filme "A Doce Vida"

Durante três horas e um número infinito de festas noturnas loucas, ele encontra muitas pessoas: a paródia vazia, mas bonita, da femme fatale na pessoa da estrela de cinema Sylvia (Anita Ekberg); o intelectual Steiner (Alain Cuny), preso na moldura de um pai de família exemplar; o predador Paparazzo (Walter Santesso), que nunca larga a câmera em sua caça animal por um furo; a menina angelical Paola (Valeria Ciangottini), que se destaca do brilho gorduroso da vida social. Marcello é um observador, é passivo e suas ações não têm consequências. Federico Fellini quebra a estrutura do personagem, tornando-o um condutor estático para o mundo das figuras de cera da elite.

O jogo irônico com os heróis do filme também é perceptível na figura de Maddalena (Anouk Aimée). A semelhança de seu nome com a portadora de mirra bíblica é enganosa: a garota parece sincera e capaz de amar até mesmo uma pessoa tão vazia quanto Marcello. Mas essa inocência também acaba sendo uma máscara que, fora do campo de visão do jornalista, ela pode tirar e colocar de volta. Em uma das festas, ela se oferece para se casar com ele, rindo nos braços de outro.

«Сладкая жизнь»
Cena do filme "A Doce Vida"

O catálogo de tipos e imagens da alta sociedade, entorpecidos pelo dinheiro e pela ociosidade, substitui a história. "A Doce Vida" costuma ser dividida em sete capítulos, mas esse resquício do estruturalismo não pode ser aplicado a uma peregrinação estética sem enredo pela Roma noturna.

Após o lançamento e a vitória em Cannes, muitos espectadores e críticos se dividiram em dois campos: os moralistas, que criticavam o filme pela degradação moral da pessoa até a embriaguez e jogos sujos, e o grupo liderado por Pasolini, que viu em "A Doce Vida" uma ode ao catolicismo. Mas hoje, sabendo o quanto o filme revolucionou a compreensão do enredo, do herói, da problemática, só podemos ver nele uma obra-prima do formalismo, que divide épocas. O sentido não existe — não é necessário.

«Сладкая жизнь»
Cena do filme "A Doce Vida"

"A Doce Vida" foi lançada em 1960 — auge do "milagre econômico italiano". O afeto do pós-guerra desapareceu, e com ele o neorrealismo que predominava no cinema da época (Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti) — a escassez de equipamentos técnicos, multiplicada pela precisão documental como principal recurso estético. A nova vida doce e saciada gerou problemas ainda piores. O modernismo dos anos 60.

Quando a comida e o abrigo deixaram de ser o problema principal, os autores começaram a se interessar pelas sombras rendadas do existencialismo. Por isso, "A Doce Vida" disseca a falta de alma, transformando-se em um caleidoscópio de degradação moral. Na terceira hora, começa a dar náusea do champanhe eterno, das festas loucas e dos crimes terríveis que os heróis cometem, encurralados na moldura do lazer bêbado, sem saber o que fazer de si mesmos. A degradação também é perceptível no Virgílio vicioso — no final do filme, Marcello já não oscila entre o jornalismo e a literatura. Tendo rejeitado o impulso para qualquer arte, ele se dedica à publicidade.

O formalismo aliado à busca espiritual gerou toda uma onda que influenciou todo o cinema posterior. Depois de "A Doce Vida", viria a "trilogia do estranhamento" de Michelangelo Antonioni, explorando a decadência moral e a impossibilidade de intimidade na odisseia noturna urbana. Dez anos depois, o mundo veria uma versão hiperbolizada da decadência da elite — "A Grande Comilança" de Marco Ferreri e "O Discreto Charme da Burguesia" de Luis Buñuel. A série de encontros noturnos é reconhecível na comédia "Depois de Horas" de Martin Scorsese e no drama hipnótico "De Olhos Bem Fechados" de Stanley Kubrick. O glamour por fora e o vazio por dentro seriam levados às telas por Paolo Sorrentino, Luca Guadagnino e Baz Luhrmann.

A estrutura episódica e a visualidade barroca são facilmente reconhecíveis no herdeiro direto, quase consanguíneo, de "A Doce Vida" — "A Grande Beleza" de Paolo Sorrentino. Mesmo cinquenta anos depois, a Roma eterna e bela não mudou — nos cenários da arte, a elite ainda se afoga em festas e autodegradação. E a sátira social ainda perde para a forma.

«Сладкая жизнь»
Cena do filme "A Doce Vida"

"A Doce Vida" é uma dança doce e contínua do novo tempo, na qual não há lugar para o material, e o espiritual e o estético vêm à tona. O ritmo característico do carnaval e das revelações noturnas define o ritmo e o humor de todo o cinema de estranhamento posterior. Seja o moralista entediado Travis Bickle ou o observador-intelectual Jep Gambardella.