
Passei a noite no estúdio onde filmam 'Wonder Man'. Ouvi Simon e Trevor ensaiando Shakespeare às 3 da manhã. Descobri sobre a Cláusula do Porteiro e Josh Gad preso numa dimensão paralela.
Dia um. Saguão. 6:47 da manhã.
Acordo num sofá duro no saguão de um albergue na Vine Street, que cheira a esperanças não realizadas de atores e café barato de máquina. Na parede, um pôster desbotado de "Crepúsculo dos Deuses"; ao lado, um headshot com a inscrição "Simon Williams, ator". O cara no sofá ao lado ronca de boca aberta, apertando um currículo contra o peito. Espio: o conjunto padrão: "Método Stanislavski, esgrima, capacidade de gerar energia iônica". O último está riscado com marcador vermelho.
"A Cláusula do Porteiro", murmura ele sonhando.
Não faço ideia do que isso significa.

Saio na rua. O sol da manhã bate nos olhos, e a cidade já acordou — alguém empurra um carrinho com equipamento, alguém fuma na entrada do estúdio, alguém desliza freneticamente o celular, verificando se chegou um e-mail do agente. Não chegou. Nunca chega.
10:30. Corredor do estúdio.
Perto do almoço, já estou sentado no corredor onde estão acontecendo as audições para o remake de um antigo filme de super-herói. O diretor é o lendário Vaughn Kovak, cujo nome é pronunciado com reverência e um leve medo. A garota à minha direita folheia nervosamente o roteiro. O cara à esquerda ensaia um monólogo, mexendo os lábios sem som.
Perto de mim, dois caras que claramente não se encaixam no cenário geral.
O primeiro é jovem, sério ao ponto da dor. É o tal Simon Williams do albergue. Ele rabisca algo no papel — parece uma biografia do personagem com duas falas, três páginas e algumas anotações. Parece que ele está se esforçando demais. Provavelmente acha que esse é o papel da vida dele.

O segundo é um britânico de uns sessenta anos, com modos de ator shakespeariano e olhos cansados de alguém que já viu demais. No crachá, vejo o nome: Trevor Slattery. Ele explica algo a Simon perto do bebedouro: "Atuação é uma vocação, querido, a coisa mais importante que se pode fazer na vida". Soa ao mesmo tempo engraçado e triste, porque parece que ele realmente pensa assim.
Observo o britânico. O rosto é familiar.
"Você é aquele ator", não resisto, "que trabalhou para o Killian? O Mandarim?"

Trevor se vira lentamente. Sorri cansado. "Cumpri pena por isso, jovem. Cumpri e saí. Agora atuo em peças de Shakespeare, às vezes consigo papéis em séries".
Simon olha para ele com algo como reverência. "Nos encontramos numa exibição de 'Perdidos na Noite'", ele me diz baixinho.
"O único filme classificado como X a ganhar o Oscar", aceno.
"Duas pessoas tentando sobreviver numa cidade que as mastiga", acrescenta Trevor, ao nos ouvir, e bebe um gole de água de um copo plástico. Leva Simon para um diálogo particular.
Em algum lugar atrás da porta, um assistente de direção grita. Alguém chora no banheiro. Um dia comum em audições em Hollywood.
15:00. Bar ao lado. Bebida com o editor.
Vou almoçar no bar ao lado, onde editores e outros profissionais do cinema engolem hambúrgueres baratos e reclamam da vida. Um deles — Mike, um cara cansado com entradas e manchas de café na camiseta — concorda em conversar por uma cerveja.
"Sabe o que é mais estranho nesse projeto?" — ele morde o hambúrguer, mastiga, olha para o vazio. "Editei os três primeiros episódios e pensei: eles estão arrastando de propósito? Cada episódio tem vinte e cinco minutos, e é como cortar um filme em pedaços, entende? Sem ritmo. Sem ar".
"E depois?"
"Depois o quarto episódio. Sobre o Porteiro".
Ele fica em silêncio. Termina a cerveja. Pede outra.
"Filmamos em preto e branco. Um filme separado dentro do projeto. A história de um segurança de boate — DeMarr Davis. O cara ganha a habilidade de se transformar num portal vivo. As pessoas podem passar através dele como se fosse uma porta".
"Isso é... estranho".
"É uma p***a estranho", concorda Mike. "Ele salva os frequentadores da boate durante uma confusão. Entre eles, Josh Gad. Sim, aquele que dubla desenhos. Gad vira seu empresário, o promove, e DeMarr instantaneamente se torna uma estrela".
"Mas?"
"Mas DeMarr não queria isso. Ele estava satisfeito com a vida dele. Gostava de trabalhar como segurança. E aí — câmeras, filmagens, contratos. E o final..." — Mike ri, mas é uma risada nervosa. — "O final é simplesmente louco. Eles estão gravando uma acrobacia para um novo filme. Algo dá errado. Gad fica preso dentro de DeMarr. Literalmente. Numa dimensão de bolso, sem saída".

Fico em silêncio. Não sei o que dizer.
"Hollywood entra em pânico. Aprovam uma lei — a 'Cláusula do Porteiro'. Superpoderes nos sets são proibidos. Ponto final. Carreiras desabam da noite para o dia".
Então é por isso que aquele cara riscou 'energia iônica' no currículo.
"E o Gad?"
Mike dá de ombros. "Ele ainda está lá. Lá dentro. Em alguma dimensão paralela. A equipe de filmagem diz que no episódio toca um remix de clube de 'In Summer' — sim, aquela música do desenho do boneco de neve. Gad cercado por seguranças. Absurdo. Mas funciona. Ainda mais porque é baseado em fatos reais".
Ele termina a cerveja e se levanta. "Olha, não conta a ninguém que eu te contei isso, ok? O estúdio não gosta quando a gente fala sobre futuras estreias".
Ele vai embora. Fico sentado, olhando para o copo vazio e pensando que nesta cidade superpoderes não são um dom. São uma marca. Engraçado, com os Vingadores ainda vivos por aí.
Dia dois. Noite no estúdio. 3:20.
Passo a noite no próprio estúdio — o segurança fecha os olhos por vinte dólares e a promessa de não mexer nos adereços. Acordo às três da manhã com sons — alguém ensaia na sala ao lado. Saio no corredor. Simon e Trevor estão sentados no chão, encostados na parede, com cópias do roteiro nas mãos.
"Técnica sem emoção é mecânica, querido", diz Trevor.
"Mas emoção sem técnica é caos", retruca Simon.
Eles ficam em silêncio. Depois riem. Depois recomeçam do início — um monólogo de "Amadeus". Simon tropeça. Trevor corrige — suavemente, quase paternalmente.
Fico na sombra e escuto. Nesse momento, entendo que todo o resto — dinheiro, fama, papéis grandes — é secundário. O principal é isto: duas pessoas que desesperadamente querem ser vistas, ensaiando às três da manhã porque não têm mais nada para fazer.
Dia dois. Manhã. Fumódromo na esquina.
De manhã, encontro o mesmo editor no fumódromo. Ele puxa nervosamente a fumaça e me olha com desconfiança. "Ainda aqui?"
"Passei a noite".
"Entendi. Olha, ontem não contei tudo". Ele olha em volta. "O projeto — é como se estivesse cru, entende? Os primeiros episódios se arrastam. Depois o tal quarto — bum, cinema preto e branco, todo mundo adora. E depois... não se sabe o quê. Como se tivessem medo de levar até o fim".
"Medo de quê?"
"De que não é sobre super-heróis. Que é só sobre dois atores tentando sobreviver. O estúdio não gosta dessas histórias. Eles querem batalhas, explosões. Mas aqui..." — ele acena com a mão. — "Aqui o cara brilha quando fica nervoso, e essa é toda a superpotência dele. A batalha final existe, claro. O diretor filmou sem entusiasmo, como se fosse obrigado por contrato".

"E a linha de espionagem, você mencionou algo?"
"Cortada. Um dos heróis trabalha para o Departamento, espiona o companheiro, mas essa trama se perde em diálogos intermináveis. O irmão do protagonista aparece por alguns episódios e depois desaparece, como se tivesse sido cortado na edição. O que, de fato, aconteceu".
Ele termina o cigarro e vai embora. Fico parado junto à parede onde estão pendurados pôsteres de antigos blockbusters. Todos esses mundos, todas essas histórias — e no final, o mais difícil é simplesmente entrar no quadro.
Dia três. Estacionamento. 18:45.
Saio para o estacionamento ao pôr do sol. Simon e Trevor estão sentados no carro. Janelas abertas. Ouço fragmentos: Shakespeare, de novo, infinitamente. Simon tropeça numa fala. Trevor corrige.
Eles riem. Ficam em silêncio. Recomeçam.
Aproximo-me. "Posso fazer uma pergunta?"
Simon se vira. "Você de novo, o cara que vive nos corredores".
"Jornalista".
"Então, observador", ironiza Trevor. "O que quer saber?"
"Por que vocês fazem isso? Ensaiam às três da manhã, ficam no carro até escurecer. Por quê?"
Simon fica em silêncio. Trevor olha para o pôr do sol. "Porque, jovem, é a única coisa que temos. Não salvamos o mundo. Só queremos ser vistos. E isso, ao que parece, é muito mais difícil".
Simon acena. "Nesta cidade, superpoderes não são uma vantagem. São um obstáculo. Você brilha — é demitido. Se esforça demais — dizem que está exagerando. Não se esforça o suficiente — dizem que é sem emoção. Um círculo vicioso".
"Mas vocês continuam".
"O que mais fazer?" — Trevor sorri aquele sorriso cansado de alguém que viu demais, mas não desaprendeu a esperar.
Eles recomeçam a ensaiar. Eu vou embora.
Dia três. Saída. Meia-noite.
Ando pela Vine Street de volta ao metrô. A cidade à noite parece quase bonita — letreiros de neon, carros raros, silhuetas de palmeiras contra o céu escuro.
Entro no albergue. Um cara novato com um headshot dorme no sofá. Amanhã ele tem uma audição. Não sabe que não vão ligar de volta. Mas mesmo assim, ele virá.
Como Simon. Como Trevor. Como todas essas pessoas nos corredores que acreditam que, se se esforçarem o suficiente, o mundo as notará.
Idiotas ingênuos.
Mas talvez a coragem esteja em ser um idiota ingênuo que continua ensaiando às três da manhã, sabendo que as chances são quase nulas.
Saio na rua. Acendo um cigarro. Olho para as colinas onde cintilam as luzes das mansões — daqueles que tiveram sorte, que conseguiram.
E em algum lugar numa dimensão paralela, Josh Gad ainda está sentado, preso dentro do Porteiro, ouvindo um remix de clube de 'In Summer' em repeat.
Hollywood, baby. A cidade onde passar numa audição é realmente mais difícil do que derrotar um vilão.
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