
Em 16 de março, o filme brasileiro 'O Agente Secreto' concorrerá nas principais categorias do Oscar 2026, e já em 26 de março será lançado oficialmente nos cinemas russos. Contamos sobre a transformação da experiência europeia no ambiente latino-amer...
O cinema de 2025 é como uma máquina do tempo que não apenas leva o espectador uma década atrás, mas também permite saltar várias épocas e depois retornar sem obstáculos ao turbulento, mas familiar, século XXI. Tal é a pura duração do filme 'O Som da Queda' de Masha Shilinski sobre a continuidade histórica e as Mädchen pensativas, igualmente estranhas e silenciosas nos anos 1910, 1940 e 2020. Tal é também 'Ressurreição' de Bi Gan, que conseguiu condensar 100 anos de história chinesa em uma novela não linear de duas horas na linguagem do cinema de arte europeu. Semelhante a eles é 'O Agente Secreto' de Kleber Mendonça Filho, embora ele tenha se contentado com apenas duas camadas temporais.
Nos dias de hoje, a estudante de história Flávia (Laura Lufesi) pesquisa arquivos da resistência clandestina brasileira contra a ditadura militar do final dos anos 70 e descobre numerosos recortes de jornal e gravações de áudio que a fascinam. A principal fonte de encanto é a voz do viúvo professor Armando Solimões (Wagner Moura), mas principalmente dissidente e vítima de múltiplas tentativas de assassinato. É sobre ele que Kleber Mendonça narra lentamente, igualando em direitos o espectador e a curiosa e insinuante Flávia.

Em família não falta...
'O Agente Secreto' não é um quadro ou uma tela, mas uma teia de relações humanas onde o bem e o mal nascem nos bastidores, em negócios de família, conhecimentos casuais, grupos marginais; em outras palavras, ninguém nunca anda sozinho. Até o mais vil dos canalhas, como o funcionário Henrique Gerotti (Luciano Chirolli), que contratou assassinos para matar Armando, pode confiar plenamente na banalidade estúpida do mal – seu filho Salvatore (Gregório Graziosi). Até os assassinos Bobby (Gabriel Leone) e Augusto (Roni Villela) são, primeiro, parentes entre si e, segundo, encontram uma pessoa ainda mais terrível para delegar suas 'funções'.
A equipe do bem é forte (o filme é inequívoco na distribuição dos papéis) – a guerrilha anarquista Dona Sebastiana (Tânia Maria), que abriga a oposição brasileira, incluindo nosso professor Armando e refugiados de Angola, mas os corruptos, mentirosos e assassinos não são menos unidos, portanto a derrota e o desespero são os leitmotivs de 'O Agente Secreto'.

'Aqui termina a lei, e começo eu'
Sobre a vida do espírito brasileiro da época, muito informa o principal feriado nacional, o famoso carnaval brasileiro, ou melhor, sua ausência na tela. O fantasma da energia vital é substituído pela crônica policial dos jornais: o país não se veste de penas, mas conta o número de vítimas, equilibra vida e morte. Por isso, a trilha sonora de Tomás Alves soa melancólica e zombeteira, com pitadas de bossa nova lenta e calorosa. Desse calor, desse êxtase ardente, não restou nada, exceto seres humanoides zumbificados pela celebração, usando máscaras, e a polícia embriagada.
O carnaval no filme é uma manobra de distração para encobrir crimes de estado e sangue, ou uma operação militar da qual nem mesmo seus participantes diretos são informados. Nisso, 'O Agente Secreto' lembra os filmes de Gillo Pontecorvo, sua 'Batalha de Argel' e, em menor grau, 'Operação Monstro' – filmes paranoicos sobre o inimigo nas costas, sobre a instabilidade da sociedade.
No entanto, até Gillo Pontecorvo é muito pouco e impreciso. É preciso pensar mais amplamente: 'O Agente Secreto' é uma reprodução dos aspectos éticos e estéticos dos anos de chumbo italianos dos anos 70, onde a violência política se tornou cotidiana. A diferença é apenas que a Itália teve a oportunidade de falar sobre isso, enquanto o Brasil a teve relativamente recentemente. Não é por acaso que o filme de Kleber Mendonça é em grande parte um filme de gênero, como eram 'O Dia do Cobra' de Enzo Castellari ou 'Cadáveres Ilustres' de Francesco Rosi.

Pernas e mandíbulas
A estrela da era italiana de segunda linha era orgulhosamente Gian Maria Volontè, que incorporava com sucesso todos os tipos de obsessão: desde o representante do povo Enrico Mattei até o policial corrupto Dottore. Um talento de calibre não menor estava na mira da lente de Mendonça; refiro-me, claro, a Wagner Moura. Seu estilo não é abrir os dedos e encher os olhos de sangue, não suar e lançar raios, como fazia Volontè. Moura é ponderado e, portanto, reage com moderação aos estímulos, mesmo quando precisa interpretar Pablo Escobar ('Narcos'). Ele parece expressar a ideia de um Deus que se manifesta em tudo e, portanto, permite-se alcançar mais com menos esforço.
Um artista tão central, sua força de monotonia, é necessária para a equipe 'underground' de 'O Agente Secreto'. A maioria desses nomes ouvimos pela primeira e última vez, mas há exceções – Udo Kier e Evgenia Alexandrova. Para Udo, 'O Agente Secreto' foi seu último filme na vida, no qual o alemão novamente apareceu em terceiro plano, e novamente todos o notaram e reconheceram. Já para Evgenia, espera-se que o trabalho com Kleber Mendonça tenha aberto novas oportunidades após as andanças libanesas e as produções francesas baratas. Sua escolha por uma lente anamórfica, esses reflexos ovais, a suavidade geral do quadro, explosões de paleta saturada e distorções cromáticas – ela fez muito para que o espectador visse um retrô cruel, absurdo, mas encantador.
Um retrô onde as crianças não colocam os dentes debaixo do travesseiro, mas assistem 'Tubarão', onde uma perna arrancada ganha vida para impedir o amor homossexual (é melhor ver do que explicar), onde o hospital da cidade cresce no lugar de um cinema, e o carnaval não merece tempo de antena. Tal é a beleza sutil e rude da criação de Kleber Mendonça Filho, seu melhor filme até agora.
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