
No dia 22 de janeiro, chega às telonas o icônico terror japonês "Teste de Elenco", que se assemelha mais a um thriller psicológico com um toque de romance. Sobre por que as relações amorosas lembram um filme de terror em sua essência e o que é j-horr...
Viúvo há alguns anos, Shigeharu (Ryo Ishibashi) aprendeu a viver sozinho. Cada dia é igual ao anterior: trabalho indefinido em um computador ridículo dos anos 90 em um escritório sombrio com persianas, jantar em casa com o filho, o cachorro e a garrafa de uísque de sempre, adultério com uma colega. Dias monótonos, amarelados-acinzentados, essencialmente desinteressantes, mas tranquilos, são interrompidos por seu filho já crescido, que um dia chama o pai de velho e pede que ele se case urgentemente. O confuso pai de família pede ajuda a um amigo, que organiza um pseudo-teste de elenco para encontrar uma esposa para Shigeharu. O teste de elenco se desenrola como sangue no último minuto de um filme, quando o homem conhece Asami (Eihi Shiina) — uma femme fatale em cenários japoneses.

As primeiras uma hora e meia de duas se arrastam como um chiclete melódico e lento. Apenas ocasionalmente, sob a história romântica, embora estranha, surgem lampejos de terror: a futura esposa não agrada ao amigo do herói, e a plasticidade angular, a modéstia excessiva e a densa fumaça de segredos criam uma tensão que ainda assim não impede Shigeharu de dar o passo errado. A mistura de gêneros incute cuidadosamente o horror no cotidiano, e só se pode fechar os olhos nos últimos vinte minutos do filme.
Esse ritmo hipnótico não é apenas uma característica de "Teste de Elenco", mas também uma marca do gênero j-horror, filmes focados na tortura psicológica do espectador, e não no pesadelo que salta de trás da esquina. Os representantes mais populares do gênero ("O Chamado" de Hideo Nakata, "O Grito" de Takashi Shimizu) foram lançados quase ao mesmo tempo que o filme de Takashi Miike, formando uma onda de terror japonês. "Teste de Elenco" é o menos assustador deles, mas o mais original: após a exibição, um gosto azedo e um tremor ao ver agulhas permanecem por muito tempo.

Para revisar toda a filmografia de Takashi Miike, é preciso muita paciência: ao longo de sua carreira, o diretor criou mais de cem filmes. Em alguns, o amor em meio ao crime; em outros, body horror em meio ao amor. Mas a obsessão dos personagens uns pelos outros com um toque de escuridão pode ser percebida na própria compreensão desse sentimento pelo diretor: "O próprio desejo de ‘possuir outra pessoa’ é um ato violento. Suponha que uma pessoa se apaixone. Isso significa que ela deseja outra pessoa, quer um sentimento recíproco, e ‘desejar’ e ‘querer’ não beiram a violência, mesmo que em sentido figurado?"

Asami aparece e desaparece o tempo todo, mas com um único objetivo: dominar Shigeharu e realizar uma vingança elegante, porque "vocês são todos iguais". Ela deseja amor de forma neurótica e fica furiosa quando percebe que o herói ama não apenas a ela, mas também ao seu filho.
Shigeharu também pratica violência contra a personalidade, que transparece já na formulação da pergunta: ele precisa de uma esposa entre vinte e trinta anos, educada e que saiba tocar piano. Para mantê-la em casa. Ele escolhe uma companheira de vida como uísque no supermercado, e o sentimento sincero repentino o pega de surpresa.
Essa obsessão coloca em dúvida a integridade da personalidade de ambos os personagens, mas se Asami tem um passado sombrio que explica seu desejo neurótico-compulsivo de amor, Shigeharu não tem argumentos.

O j-horror geralmente usa o misticismo para criar mais tensão, mas "Teste de Elenco" não recorre a esse recurso. O mais terrível já está no ser humano, então o suspense nasce nas memórias de Asami, pelas quais o herói vagueia livremente de vez em quando, apagando a fronteira entre realidade, sonho e visão.
Ao não recorrer ao sobrenatural, Miike quebra a realidade interna do filme. O sinal mais sinistro é a intuição — todos ao redor sentem internamente a escuridão que se aproxima, mas fazem isso durante o almoço, durante uma partida de tênis e em outras situações falsamente inofensivas. A vida cotidiana é permeada pela expectativa de violência, então quando ela finalmente chega, é sentida com um certo gosto adocicado de alívio.

Para Shigeharu, também chega a catarse. Asami avisa que a dor mostrará seu verdadeiro rosto, e na tela aparece um caleidoscópio de mulheres: desde sua ex-esposa até a jovem amiga de seu filho. Os cantos mais sinistros e sombrios da consciência são expostos sob a ação das agulhas. Se o herói sonhou com essa terrível vingança, se está enlouquecendo, se inventou os detalhes assustadores da biografia de Asami — não importa. Sua imagem e percepção do mundo se distorceram, liberando fantasias dolorosas que estavam escondidas sob a fantasia de um bem-sucedido funcionário de escritório e pai de família exemplar.

"Teste de Elenco" mistura suavemente dois gêneros, conduzindo o herói através do sentimentalismo do melodrama para terminar em um body horror cruel. O romantismo, nesse contexto, é algo terrível e distorcido por natureza, pois tanto o viúvo idoso quanto a jovem desconhecida querem possuir um ao outro. Esse desejo doloroso acaba intimamente ligado à violência, obsessão, dor, agulhas, infância, incompletude, neurose de solidão. Portanto, amar já é, de certa forma, um horror.
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