
«Cavaleiro dos Sete Reinos» é a primeira série de Martin que não tem medo de rir de si mesma. Meta-humor, Baratheon carismático e um Westeros onde se quer ficar.
Você se lembra da última vez que «Game of Thrones» fez você rir? Não, não do roteiro da temporada final, mas rir junto com os personagens, de situações cômicas e heróis limitados. Na HBO, aparentemente, também — então decidiram corrigir a situação com a série «Cavaleiro dos Sete Reinos» (A Knight of the Seven Kingdoms), que estreou em 18 de janeiro e imediatamente se apresentou como o retorno mais inesperado ao mundo de George Martin.
Do que se trata

Esqueça dragões, intrigas palacianas e intermináveis reivindicações ao Trono de Ferro. A ação se passa cem anos antes dos eventos da saga original, quando os Targaryen ainda detêm o poder firmemente e o mundo não mergulhou no caos total. O protagonista é sor Duncan, o Alto, apelidado de Dunk (Peter Claffey), ou vice-versa. É um sujeito desajeitado de dois metros de altura que tenta desesperadamente se tornar um verdadeiro cavaleiro após a morte de seu mentor. No caminho para um torneio, ele encontra um menino careca chamado Egg (Dexter Sol Ansell), que depois toma como escudeiro. E essa dupla de andarilhos vai percorrer Westeros, metendo-se em encrencas pelo caminho. Seis episódios de 40 minutos — e nenhuma pretensão de épico.
A seguir, há spoilers menores da série «Cavaleiro dos Sete Reinos»
Autores que sabem fazer autoirônia

Os primeiros cinco minutos da série são um manifesto. A majestosa e arrepiante tema de «Game of Thrones» de Ramin Djawadi soa, a câmera desliza solenemente pelas paisagens... e é imediatamente interrompida pelo som de Dunk fazendo suas necessidades atrás de uma árvore. O showrunner Ira Parker explicou que isso não é uma zombaria da franquia (como todos poderíamos pensar), mas uma forma de deixar claro: este é um Westeros completamente diferente. E sabe de uma coisa? Funciona. «Cavaleiro dos Sete Reinos» é o primeiro projeto do universo de Martin que não tem medo de ser engraçado. O primeiro episódio já está repleto de situações cômicas, desajeitamento e habilidades mentais duvidosas de Dunk, humor escatológico (sem dúvida), que se encaixa organicamente na narrativa.
Destaca-se especialmente Lyonel Baratheon interpretado por Daniel Ings — um bêbado, carismático herdeiro de Ponta Tempestade, que os criadores descrevem como «uma mistura de Jack Sparrow e Ernest Hemingway». Ings traz desde o início uma energia que às vezes falta em «A Casa do Dragão». Esse personagem vive pela adrenalina, adora brigas e bebida, mas é completamente óbvio que ele é muito mais profundo do que parece à primeira vista. Quando Lyonel convence Dunk a participar do torneio de uma forma peculiar, dizendo que «a honra está em enfrentar um oponente digno», acredita-se em cada palavra.
Beleza sem pompa e ator sem experiência (mas com carisma)

As filmagens da série ocorreram na Irlanda do Norte — nos mesmos locais onde foi filmado o «Game of Thrones» original. As paisagens locais contribuem para a atmosfera da vida de um cavaleiro andante, o que difere radicalmente de outras séries do universo, onde geralmente mostravam salões do trono. Os diretores de «Cavaleiro» (o episódio de estreia foi dirigido por Owen Harris) provam que as filmagens em locações naturais podem ser tão impressionantes quanto os dragões em CGI.
Peter Claffey, ex-jogador de rugby com quase dois metros de altura, assume seu primeiro papel principal na carreira — e se sai surpreendentemente bem. Seu Dunk é um grandalhão bonachão com uma bússola moral de ferro, que no mundo podre de Westeros parece quase um alienígena. Claffey admitiu que sofria da síndrome do impostor: durante toda a carreira, ele ficava feliz em interpretar personagens secundários, e de repente se ver no centro de uma franquia foi assustador. Mas é exatamente essa vulnerabilidade que torna seu Dunk tão humano.
E sua química na tela com o jovem Dexter Sol Ansell (que tinha apenas nove anos durante as filmagens) já é sentida como a alma da série. Dizem que Claffey levava o menino para jogar boliche e fliperamas entre as tomadas, então não será surpresa sentir a amizade deles na tela. Além disso, o final do sexto episódio, segundo Claffey, mostrará ao espectador «um dos melhores trabalhos de atuação que ele já viu na vida» — justamente do jovem Ansell. O que acontecerá para quem não leu a fonte original é um mistério, mas a intriga está clara.
Conclusão

«Cavaleiro dos Sete Reinos» é o que acontece quando uma franquia para de se esforçar demais e começa a aproveitar seu próprio universo. Sim, é cedo para julgar a qualidade geral do projeto, talvez ele ainda caia em tentativas de adicionar drama. Sim, já é óbvio que os personagens femininos não receberão muita atenção nesta série. Mas este é o primeiro projeto de Martin que não tem medo de ser intimista, engraçado e humano ao mesmo tempo. É uma espécie de road movie por Westeros, onde o importante não é para onde os heróis vão, mas como eles interagem ao longo do caminho.
Com 94% de aprovação no Rotten Tomatoes e renovação para a segunda temporada, a HBO claramente encontrou algo importante. Às vezes, na fantasia, o melhor é inimigo do bom. E «Cavaleiro dos Sete Reinos» prova isso desde os primeiros minutos, quando interrompe a música pomposa com o som de diarreia. Caramba, há muito tempo «Game of Thrones» não parecia tão vivo.
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