
Está em cartaz o novo trabalho de Paolo Genovese, talentoso roteirista e diretor italiano, cuja assinatura há muito se tornou reconhecível e amada por um vasto público. Contamos sobre as particularidades do estilo do cineasta e seus principais trabal...
Os filmes de Paolo Genovese são como uma sessão de terapia: nos primeiros dez minutos parece que não há nada de terrível, mas depois você começa a se remexer na cadeira e a perceber coisas desagradáveis sobre si mesmo. O diretor italiano não explode prédios nem persegue heróis pelos telhados — ele simplesmente coloca algumas pessoas em uma sala, faz a pergunta certa e observa tudo desmoronar. Segredos, amizades, casamentos, ilusões — em Genovese, tudo se desfaz para que a verdade e a natureza triunfem.
Chamam-no de mestre do drama intimista, mas isso é acadêmico demais. Genovese é o arquiteto de catástrofes emocionais que constrói armadilhas a partir de situações humanas comuns. Você entra voluntariamente porque se reconhece. E sai com a sensação de ter espiado seu próprio dossiê, onde está registrado tudo o que preferia não pensar.
Do publicitário ao arquiteto das almas humanas
A biografia de Genovese parece um roteiro de filme sobre uma vocação tardia. Nascido em Roma em 1966, ele começou sua carreira não no cinema — mais de cem comerciais para a McCann Erickson lhe ensinaram o principal: como cativar uma pessoa em 30 segundos. Essa habilidade se tornaria a marca registrada de seus filmes — a capacidade de mergulhar instantaneamente o espectador na situação, sem longas exposições ou histórias tediosas.

A estreia em longa-metragem (e independente) aconteceu em 2011 com a comédia «Immaturi» — um filme leve, mas comercialmente bem-sucedido, sobre adolescentes eternos em corpos de homens adultos. Parecia que Genovese ocuparia seu lugar entre os diretores italianos de comédias agradáveis para a família. Mas o diretor claramente nutria outros planos. Já em 2004, junto com Luca Miniero, ele dirigiu o pouco notado filme «Nessuna messaggio in segreteria» — sobre um homem com transtorno de personalidade múltipla. Na época, o tema não emplacou, mas a semente foi plantada: Genovese se interessava não pela comédia pelo riso, mas pela natureza humana com todas as suas fissuras e cantos escuros.
«Perfeitos Desconhecidos»: quando o smartphone se torna o detonador
2016 foi para Genovese aquele momento em que talento, ideia e tempo convergiram em um único ponto. «Perfeitos Desconhecidos» — um filme que poderia ser chamado de experimento, não fosse sua precisão mortal em acertar o nervo da modernidade. Sete amigos, um jantar, um jogo inofensivo: colocar os smartphones sobre a mesa e tornar todas as chamadas e mensagens de conhecimento comum. O que pode dar errado entre pessoas que se conhecem há vinte anos?
Genovese criou o drama intimista perfeito — um gênero onde não há onde se esconder, nem para os personagens nem para o diretor. Aqui não há panorâmicas espetaculares, perseguições ou cenários grandiosos. Toda a ação se desenrola em um único apartamento, em uma única mesa, mas a tensão cresce com tanta maestria que o filme se transforma em um thriller emocional. Cada nova chamada é um detonador, cada mensagem é um estilhaço capaz de ferir.

O diretor trabalha como um ourives, não como um escultor. Ele não molda imagens com pinceladas largas — ele lapida cada réplica, ajusta cada gesto. Em entrevistas, Genovese admitia que podia passar horas escolhendo o adjetivo certo, porque a língua italiana é rica em sinônimos, e a escolha da palavra já é metade do trabalho. Nas filmagens, ele quase não permitia que os atores improvisassem, exigindo adesão estrita ao roteiro. Não é ditadura — é a compreensão de que, no drama intimista, cada detalhe funciona como um mecanismo de relógio: mova uma engrenagem e tudo se desfaz.
A fotografia em «Perfeitos Desconhecidos» é o triunfo da discrição. A câmera não chama atenção para si, não se exibe com ângulos espetaculares. Em vez disso, há acentos impecáveis nos atores, montagem magistral e timing precisíssimo. Assim como Sidney Lumet em «Doze Homens e uma Sentença» conseguiu tornar visualmente interessante uma sala com uma mesa, Genovese transforma o apartamento em uma arena de duelos psicológicos. Mais ainda: há oito cadeiras à mesa, mas apenas sete personagens. O oitavo lugar é para o espectador, e muitos planos são filmados exatamente desse ponto, criando a ilusão de sua presença no jantar. Você não é um observador — é cúmplice do jantar catastrófico.

O sucesso do filme foi fenomenal: dois prêmios David di Donatello, três Nastri d'Argento, prêmios em festivais e mais de 30 milhões de dólares em bilheteria. Mas o principal é que «Perfeitos Desconhecidos» se tornou o filme mais refilmado da história do cinema. Versões espanhola, francesa, grega, russa, chinesa — mais de 18 adaptações no total. Por quê? Porque Genovese tocou em um medo universal: na era da digitalização total, nossa vida deixou de estar apenas em nossas cabeças — agora está armazenada em um dispositivo que pode ser hackeado, perdido, mostrado acidentalmente à pessoa errada.
A tecnologia como pretexto: cavando mais fundo
Seria tentador declarar Genovese um tecnófobo, um diretor ludita alertando sobre os perigos dos smartphones. Mas ele próprio rejeita categoricamente essa interpretação. Em entrevistas, o diretor enfatizou repetidamente: a tecnologia para ele é apenas uma ferramenta, uma maneira de chegar ao verdadeiro tema. E o verdadeiro tema é o quão pouco conhecemos as pessoas com quem vivemos lado a lado. Antes, nossos medos e segredos estavam trancados na cabeça, e era impossível alcançá-los. Agora, eles estão armazenados em uma pequena caixa preta que carregamos constantemente conosco. E essa caixa é frágil.

O smartphone nas mãos de Genovese é o equivalente moderno do rifle na parede da dramaturgia de Tchekhov. Se no primeiro ato o telefone está sobre a mesa, no terceiro ele certamente disparará — só que não com uma bala, mas com a verdade, que dói mais do que qualquer ferimento. O diretor não demoniza a tecnologia — ele mostra que o progresso sempre nos dá uma escolha entre o uso fisiológico e o patológico. A informação pode libertar, mas também pode gerar dependência e mudar a natureza de nossos relacionamentos.
Conceitualidade como método: do realismo à abstração
Depois de «Perfeitos Desconhecidos», Genovese poderia ter seguido o caminho batido — continuar fazendo dramas intimistas com a mesma fórmula, com a participação obrigatória de gadgets. Mas o diretor escolheu uma rota mais arriscada: começou a complicar a forma, transformando os filmes em construções conceituais que equilibram na fronteira entre o realismo e a parábola filosófica.
«O Lugar» (The Place, 2017) — é quase uma parábola mística. Um homem misterioso sentado a uma mesa num bar oferece a diferentes pessoas a realização de seus desejos mais profundos — mas em troca, elas devem cumprir tarefas estranhas, por vezes cruéis.
Formalmente, é novamente uma história intimista, um filme de diálogo (praticamente todos os eventos acontecem fora da tela), mas Genovese ultrapassa os limites da verossimilhança cotidiana em direção a questões existenciais sobre o preço da felicidade e a natureza dos desejos. E é impossível desgrudar.

«Super-heróis» (Supereroi, 2021) foi para Genovese uma tentativa de retornar ao drama romântico clássico — mas, claro, com sua complexidade característica. Ele é um professor de física, convencido de que tudo no mundo obedece a fórmulas. Ela é uma artista impulsiva de quadrinhos, inimiga de qualquer convenção. A história de amor deles se espalha por vinte anos, mas é contada de forma não linear: passado e presente se misturam de tal forma que, às vezes, personagens de diferentes camadas temporais se encontram no mesmo quadro, sem se notarem. Genovese parece dissecar o relacionamento, decompondo-o em partes constituintes — o primeiro encontro sob a chuva, brigas, reconciliações, o nascimento de um filho, traições, medos — e depois remontando-o em um retrato mosaico do amor.
O próprio diretor disse: passar dez anos juntos é difícil, vinte é raro, e mais do que isso é coisa de super-heróis. O filme é rodado com uma amplitude incomum para Genovese: a ação se desloca de Milão para as rochas da ilha de Ponza, para Copenhague, para Marrakech. Pela primeira vez, o diretor trabalha não com um espaço intimista, mas com a poesia visual de grandes planos e locações românticas. Os críticos notaram que ele finalmente aprendeu a falar a linguagem da imagem, e não apenas dos diálogos — embora sua tendência característica a réplicas aforísticas não tenha desaparecido.

«O Primeiro Dia da Minha Vida» (Il primo giorno della mia vita, 2023) — é, provavelmente, o projeto mais ambicioso e arriscado do diretor. Quatro suicidas encontram um misterioso guia que lhes dá sete dias para repensar sua decisão de morrer. Eles se tornam invisíveis em suas próprias vidas — veem os entes queridos, observam o mundo, mas não podem interferir. É um purgatório para os vivos, uma terapia em grupo supervisionada por um coach de vida que ele próprio está em profunda depressão.

Genovese transfere a ação de seu próprio romance de Nova York para Roma, dando à cidade uma aparência mística, quase noir — tons escuros, luz suave, atmosfera de tempo parado. As cenas foram filmadas em plataformas de pesca perto do antigo farol de Fiumicino, nas ruas de Cinecittà Est, no vale do Aniene. Os interiores foram construídos nos estúdios da Cinecittà, o que permitiu criar aquela abstração especulativa — um mundo não totalmente real, mas também não completamente fantástico.
Aqui, Genovese finalmente formaliza seu principal princípio criativo: pegar temas que preocupam a todos — amor, morte, relações entre pais e filhos — mas transportá-los para um espaço conceitual. Os heróis são arrancados da vida cotidiana e colocados em uma situação artificial que os força — e aos espectadores — a olhar para as questões eternas sob um novo ângulo.
«Loucamente»: a mente como cenário
O filme mais recente de Genovese até o momento — «Loucamente» (Follemente, 2025) — leva a conceitualidade ao extremo. Um homem e uma mulher em um primeiro encontro, mas a ação ocorre não apenas no apartamento real, mas também dentro de suas cabeças. Cada personagem tem múltiplas personalidades internas — emoções personificadas que discutem, aconselham, sabotam. A câmera se move constantemente entre três espaços: a realidade, a «mente masculina» e a «mente feminina».

A ideia estava na cabeça do diretor desde 2004, quando ele dirigiu um filme de baixo orçamento sobre transtorno de personalidade múltipla. Vinte anos depois, Genovese retornou ao tema, mas com um conceito visual muito mais complexo. O espaço da mente masculina foi construído como um depósito escuro, cheio de artefatos de diferentes épocas — estilo vintage, iluminação fraca, caos e desordem. A mente feminina — mais clara, mais ordenada, mas também cheia de histórias e objetos do passado. O principal é que o espectador possa entender instantaneamente em que espaço se encontra.
Os críticos receberam «Loucamente» com cautela, observando que o conceito às vezes supera a conexão emocional com os personagens. É um ato de arquitetura narrativa que promete expor a mecânica caótica da atração, mas às vezes perde o equilíbrio entre forma e conteúdo. Talvez o triunfo da formulaicidade de «Perfeitos Desconhecidos» tenha subido um pouco à cabeça de Genovese. Ele começou a abordar os filmes mais como formatos prontos para serem reembalados em diferentes culturas do que como histórias tradicionais.
Teatro, e não cinema?
O paradoxo de Genovese é que ele faz filmes que, por todos os sinais, deveriam ser peças de teatro. Intimismo, dialogismo, unidade de lugar e tempo, foco nos diálogos — tudo isso são atributos da dramaturgia tradicional, não do cinema. Na verdade, «Perfeitos Desconhecidos» foi realmente encenado em teatros — na Rússia, a peça foi montada primeiro pelo Teatro «Na Liteinom», e o diretor Sergei Morozov falou sobre monólogos-confissões, onde a fronteira entre personagem e ator se desfaz.

Mas Genovese não escolhe o cinema por acaso. Sua direção é a arte de recuar, dar espaço aos atores (embora sem muita improvisação), aos diálogos, à situação. No drama intimista, qualquer exibicionismo visual pareceria falso — aqui é necessária a precisão de um cirurgião, não a pintura de um artista. A comparação com Sidney Lumet não é acidental nas críticas: assim como Lumet em «Doze Homens e uma Sentença» ou «Um Dia de Cão», Genovese entende que, em um espaço limitado, o principal é o ritmo, o timing, a capacidade de carregar cada diálogo e gesto com um esforço culminante.
Os diretores de fotografia de Genovese — principalmente Fabrizio Lucci, com quem o diretor trabalha constantemente — criam uma imagem sem beleza ostensiva. A câmera não grita sobre si mesma, mas cada quadro é precisamente ajustado. Em «Perfeitos Desconhecidos», houve a decisão fundamental de filmar todas as cenas do jantar à noite, no horário real da refeição. Os atores realmente comiam à noite, criando uma atmosfera autêntica — os espectadores sentem isso, mesmo sem perceber por que as cenas parecem tão reais. Para «Loucamente», tudo foi filmado durante o dia em estúdio, mas funcionou igualmente bem — cada filme tem seu próprio estilo, e a tarefa do diretor é encontrá-lo.
Influências: de «Os Irmãos Cara de Pau» a Kieslowski
As referências cinematográficas de Paolo Genovese são inesperadas e variadas. Na juventude, ele foi impactado por «Os Irmãos Cara de Pau» — puro espetáculo, ação, música, energia. O polo oposto é o diretor polonês Krzysztof Kieślowski com seu «Decálogo» e «Três Cores». Com Kieślowski, Genovese aprendeu a entender a força incrível do diálogo: nenhuma ação, nenhum efeito especial, apenas conversas de pessoas — e isso gera emoções poderosíssimas.

Essa dicotomia — espetacularidade e intimismo, externo e interno — define o estilo de Genovese. Ele não escolhe um lado, mas tenta combinar: criar filmes aparentemente minimalistas que, por dentro, fervilham de energia e emoções. Seus heróis quase não se movem no espaço, mas seus mundos internos são montanhas-russas, onde cada curva ameaça catástrofe.
O que une todos os filmes de Genovese
Se tentarmos extrair um denominador comum da filmografia do diretor, obtemos uma tríade: relacionamentos, segredos, situações artificiais. Genovese não é um diretor do cotidiano. Ele não mostra a vida como ela é — ele constrói condições de laboratório nas quais a natureza humana se manifesta de forma mais vívida, mais dolorosa, mais nítida.
«Perfeitos Desconhecidos» é o laboratório da confiança. «O Lugar» é o laboratório dos desejos. «O Primeiro Dia da Minha Vida» é o laboratório do sentido da existência. «Loucamente» é o laboratório da atração. Cada vez, Genovese inventa as regras do jogo, coloca os heróis nele e observa o que acontece. E cada vez, o resultado é doloroso, honesto, engraçado e reconhecível — porque sob a artificialidade da situação estão escondidos medos e esperanças humanos reais.

O diretor sempre começa pela realidade — com histórias de amigos, com suas próprias observações, com conversas ouvidas. Mas então a imaginação entra em ação, completando a história, transportando-a do plano da documentalidade para o campo da generalização artística. Genovese não filma sobre pessoas específicas — ele filma sobre todos nós. E é por isso que seus filmes são tão fáceis de refilmar: os rostos mudam, os sotaques, as realidades culturais, mas a essência permanece inalterada — porque a natureza humana é universal.
Cada palavra importa
A experiência como publicitário deixou uma marca indelével no método de Genovese. Na publicidade, cada segundo vale ouro, cada palavra deve funcionar para o resultado. Ao passar para o cinema, o diretor não perdeu essa habilidade — pelo contrário, aperfeiçoou-a. Ele pode passar horas escolhendo entre sinônimos, discutindo com os co-roteiristas sobre qual adjetivo transmite a emoção com mais precisão.
O processo de trabalho no roteiro em Genovese é coletivo, mas rigidamente estruturado. A equipe de coautores se reúne duas vezes por semana, cada um contribui com ideias. Nos outros cinco dias, o diretor escreve sozinho — porque precisa organizar todo o material, filtrá-lo através de si mesmo. Depois, nova reunião, discussão, crítica — e um novo ciclo. A vantagem desse método é que há muitas opções sobre a mesa, e em um filme onde os personagens podem falar sobre qualquer coisa, essa riqueza de escolha é criticamente importante.

No set, Genovese é o dono de seu roteiro. Ele quer que os atores pronunciem o texto exatamente como está escrito. Isso é a compreensão de que cada frase é ajustada, cada palavra é escolhida não por acaso. Os atores têm alguma liberdade na transmissão da longa amizade dos personagens — brincadeiras, provocações, piadas internas podem ser não ensaiadas, isso adiciona realismo. Mas a base, o fundamento do diálogo, é sagrada.
Paolo Genovese como diagnosticador da contemporaneidade
Em última análise, Genovese é interessante não tanto como um diretor virtuoso — seu estilo visual é deliberadamente contido, até ascético. Ele é interessante como um diagnosticador, capaz de identificar com precisão os pontos de dor do homem moderno. Nossa dependência da tecnologia e, ao mesmo tempo, nossa vulnerabilidade diante dela. A ilusão de proximidade com pessoas que, no fundo, não conhecemos. O medo da escolha e, simultaneamente, a incapacidade de viver sem objetivos. As vozes internas que discutem em nossa cabeça cada vez que precisamos tomar uma decisão.

Tudo isso Genovese empacota em uma forma que equilibra entre entretenimento e filosofia. Seus filmes podem ser vistos como thrillers envolventes — e funcionam nesse nível. Mas pode-se cavar mais fundo — e descobrir questões existenciais para as quais não há respostas inequívocas. «O Primeiro Dia da Minha Vida» não diz se os heróis que decidiram partir estão certos ou errados. «Perfeitos Desconhecidos» não afirma que a honestidade é sempre um bem e os segredos são sempre um mal. O final frequentemente permanece em aberto, deixando ao espectador a decisão sobre o que acontecerá a seguir.
Talvez seja nessa abertura que reside o segredo do sucesso do diretor italiano. Ele não dita, não moraliza, não dá respostas prontas. Ele simplesmente abre a caixinha — e convida a olhar para dentro. E lá, nessa pequena caixa, está o mundo inteiro: com todas as suas contradições, medos, esperanças e a infinita imperfeição humana, que é ao mesmo tempo uma maldição e a única coisa que nos torna vivos.
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