
De 'Batalha pela Batalha' com Leonardo DiCaprio a 'Os Pecadores' de Ryan Coogler — eis os melhores filmes de 2025, que provaram que o cinema autoral ainda é capaz de surpreender, e o cinema de público, de ser criativo.
2025 foi aquele ano raro em que críticos e público quase unanimemente concordaram — e isso por si só já é uma sensação. Numa era de sequências e franquias infinitas que sugam os últimos sucos de criatividade do cinema, de repente aconteceu um milagre: o cinema autoral não apenas sobreviveu, como fez com que se falasse dele. De uma epopeia de quase três horas de Guillermo del Toro sobre um famoso cientista e sua monstruosa criação, a um elegante filme de ação de vampiros de Ryan Coogler com dois Michael B. Jordans — o ano foi excepcionalmente diverso. Paul Thomas Anderson lembrou por que continua sendo o maior formalista do cinema contemporâneo, Mike Flanagan mais uma vez adaptou brilhantemente Stephen King, e Park Chan-wook fez uma comédia hilária. Nós, da redação do 'Depois dos Créditos', revimos tudo o que conseguimos (legalmente ou não), discutimos até ficar roucos e finalmente montamos a lista de filmes que definiram o ano no cinema. Temos certeza de que você não adivinhará o líder do nosso topo até o final.
10º lugar – 'Sonhos de Trem'
O diretor Clint Bentley, que muitos lembram como roteirista de 'Sing Sing', pegou a novela de Denis Johnson e a transformou numa declaração meditativa sobre como a história esquece facilmente uma pessoa, mesmo quando ela a constrói com as próprias mãos. O filme estreou em Sundance, entrou no top 10 dos melhores filmes do ano segundo o National Board of Review e o American Film Institute, e Joel Edgerton recebeu uma indicação ao Globo de Ouro — e tudo isso merecidamente.
A ação se passa no início do século XX, nas montanhas de Idaho, onde o lenhador e ferroviário Robert Grainier (Edgerton) desaparece por meses no trabalho — derruba árvores, coloca dormentes, constrói pontes. A América se industrializa rapidamente, locomotivas rugem, carros aparecem, e Robert fica à margem desse progresso, vivendo uma vida simples e tranquila ao lado de sua esposa Gladys (Felicity Jones). Após uma tragédia familiar, ele se torna um eremita, testemunha de muitas décadas da história americana que passa por ele como os próprios trens pelas florestas.
'Sonhos de Trem' é um cinema que prova: é possível fazer uma história cativante sem um enredo convencional (basicamente, um homem trabalhou, casou, morreu — toda a trama do filme). Não há reviravoltas dramáticas ou cenas de ação, mas há uma fotografia impressionante, a trilha sonora de Nick Cave e a atuação de Edgerton que arrepia. É um filme-sensação, onde cada quadro é impregnado de melancolia e beleza da natureza selvagem, e o protagonista faz exatamente as mesmas perguntas sobre o sentido da vida que nós fazemos agora. Lento, profundo, às vezes pesado — mas é esse tipo de cinema que fica na alma por muito tempo.
9º lugar – 'Frankenstein'
O 'Frankenstein' de Guillermo del Toro não muda as regras do jogo estabelecidas pelo romance de Mary Shelley. Ele se sente confortável, como há duzentos anos, em se vestir de gótico, superar o ceticismo e a descrença alheios, mas não mais através do apelo a técnicas 'baixas' do sensual (medo e horror), mas graças a uma disposição incomum de elementos há muito assimilados pela humanidade. Criadores, muitos criadores cercaram Mary Shelley: seu marido Percy Shelley, Lord Byron, uma mãe feminista progressista e um pai filósofo egocêntrico. A escritora ouviu os suspiros nobres de dezenas de Victor Frankensteins, incluindo aquele que estava em sua mente extraordinária. Compor e ser perseguido pela própria criação, ser tentado e assumir responsabilidade — as dores de um autor que acidentalmente criou um monstro.
Guillermo del Toro lançou ao mundo um bestiário inteiro de criaturas, provando que ele é mais um Prometeu, mais um Deus que testa, mas será que essa posição lhe agrada? O diretor mexicano deixou claro repetidamente que ele não está apenas com aqueles que dão vida contra a vontade, mas também com aqueles que vivem essa vida. Guillermo del Toro é um monstro, por isso seus pensamentos visitam constantemente formas de vida desconhecidas (o homem anfíbio, Pinóquio) ou pessoas marginalizadas (Elisa Esposito de 'A Forma da Água', Ofélia de 'O Labirinto do Fauno').
Talvez isso tenha influenciado como ficou o 'Frankenstein' de 2025. Ainda sombrio em sua elegância de formas mortas, mas agora em nome da criação, não do criador. O monstro falou sobre si mesmo, denunciando Victor, e recebemos uma nova ideia de monstruosidade. O enredo eterno de Mary Shelley tem o direito de permanecer inalterado, mas o novo século não está isento de poderes para remodelar narrativas para as necessidades do homem moderno. Não apenas Deus, mas também Adão, não apenas o autor, mas também o livro, não apenas o pai, mas também o filho.
8º lugar – 'Desculpa, Querida'
Eva Victor, em sua estreia, ousou um ato bastante corajoso: ela escreveu e dirigiu um filme no qual ela mesma interpretou o papel principal. Assistindo 'Desculpa, Querida', rapidamente fica claro que nenhuma outra atriz no mundo teria interpretado o papel principal como a própria diretora. Sua atuação não se parece com uma performance comum — é mais uma vivência pura do personagem.
Agnes é professora de literatura na universidade e leva uma vida bastante ascética e isolada. Logo entendemos que ela está em depressão profunda há muito tempo após um evento traumático. Parece que essa descrição do enredo leva a um espetáculo extremamente sombrio, moralista e pesado. Mas Eva Victor surpreende o espectador ao evitar estereótipos.
Ela criou um filme que fala não tanto sobre a escuridão do desespero e o horror do trauma, mas sobre como uma pessoa lida com essas experiências. Sobre como a luz gradualmente penetra na escuridão. Nessa narrativa comedida e às vezes fria, o valor do calor que pode ser encontrado na amizade, em um simples estranho ou até mesmo em um gatinho de rua se destaca especialmente. O filme 'Desculpa, Querida' diz que coisas terríveis são inevitáveis, mas quando há alguém com quem compartilhar sua dor, tudo se torna reparável.
7º lugar – 'A Vida de Chuck'
'A Vida de Chuck' é, provavelmente, o filme mais edificante e gentil já feito baseado em Stephen King. Mike Flanagan, que já adaptou o mestre duas vezes, transforma cuidadosamente um pequeno conto do mestre do horror em um filme comovente e inspirador. O longa tem um leve toque de misticismo e uma sensação de inexplicável, mas, acima de tudo, o filme cativa no nível dos sentimentos e emoções. Sobre o enredo, deliberadamente não se quer dizer uma palavra — é aquele caso em que é melhor assistir ao filme com a mente limpa.
Um bônus agradável foram as inúmeras participações especiais dos queridinhos de Flanagan, referências a Carl Sagan, a aparição irônica do próprio diretor em cena e, claro, o número de dança do incomparável Tom Hiddleston.
'A Vida de Chuck' é um filme-lembrete do valor da vida em cada momento e manifestação, e um lembrete muito terno e importante, especialmente nos tempos atuais.
6º lugar – 'Siraat'
Provavelmente, não houve em 2025 um filme mais perturbador, atual e ressonante com o espírito do tempo do que aquele que o espanhol Oliver Laxe trouxe para Cannes. Uma parábola meditativa, quase onírica, sobre peregrinações pelo deserto marroquino ao som de uma trilha sonora hipnótica de rave, que na verdade se revela um encontro absolutamente implacável com a realidade para o espectador. 'Siraat', no terceiro ato, soa o alarme com uma raiva tão desenfreada e que não admite outras interpretações que não restam dúvidas sobre o que o autor está tentando dizer ou por que esta obra veio à luz agora.
Laxe fala abertamente e sem rodeios sobre o fim do mundo, mas até certo ponto o mantém em segundo plano, como pano de fundo para a história principal, como algo quase cotidiano, acontecendo paralelamente ou, talvez, já ocorrido. Vemos um mosaico de imagens fragmentadas, mas reconhecíveis: carros destruídos, multidões de refugiados, sulcos de lagartas na areia, pilhas de cartuchos deflagrados, boletins de rádio gelados (mas pouco informativos e que não interessam muito aos personagens), e rostos de moradores locais congelados em horror mudo, como se o inferno tivesse se aberto diante deles. Quer dance até cair, quer fuja sem olhar para trás — uma viagem alucinante (no contexto do filme, ambos os significados são válidos) não protegerá da tempestade.
Frequentadores de festas entregues ao escapismo, dançando despreocupadamente em um campo minado — não é esse o retrato mais preciso da nossa sociedade (e especialmente das pessoas do mundo da arte) em 2025?
5º lugar – 'As Ferramentas'
De repente, todos os alunos de uma turma escolar desaparecem sem deixar vestígios, exceto uma criança. Em uma cidade tranquila, começa o pânico: o que ou quem poderia ter causado o desaparecimento em massa? Investigar o mistério caberá a figuras inesperadas: uma professora tentando abafar a culpa e o horror com álcool (Julia Garner), o pai de um dos desaparecidos (Josh Brolin), e alguns moradores cuja vida pacata nos subúrbios americanos se transformou em um pesadelo da noite para o dia, quebrando todas as regras habituais.
'As Ferramentas' de Zach Cregger ('O Albergado') é aquele caso raro em que um filme, que quase instantaneamente se tornou um sucesso de bilheteria, também aspira ao status de clássico moderno do gênero. Foi dissecado, debatido, deu motivo para se falar novamente sobre o renascimento do terror autoral, capaz de cativar tanto críticos de cinema quanto o público em massa. O filme se distingue pelas ambições de um bom detetive e pelos modos de Osgood Perkins e Stephen King. O longa mantém a tensão habilmente, assusta de verdade, às vezes confunde deliberadamente, mas isso só o beneficia.
Este é, sem dúvida, o grande terror do ano, onde um experimento de gênero se combina corajosamente com uma elegante parábola sobre o vício prejudicial. E é feito com tanta habilidade que todos os significados e referências cuidadosamente escondidos podem ser facilmente perdidos na primeira vez. A Tia Gladys é uma história à parte. Uma nova e digna adição à coleção de monstros fascinantes. Sua imagem funciona cem por cento, mesmo que você não entenda completamente o que ela representa. No entanto, em um bom terror, essa inquietante falta de explicação é a principal força.
4º lugar – 'Método de Exclusão'
Yoo Man-soo (Lee Byung-hun) é um especialista de alto nível com vinte e cinco anos de experiência na indústria de papel. Proprietário de uma casa ancestral reformada e um pai de família exemplar, ele está confiante na solidez de seu mundo. Portanto, a demissão repentina se torna um verdadeiro choque para ele. Meses de busca infrutífera por emprego se transformam em ameaça de perder tudo. Em desespero, Man-soo chega a uma solução radical: eliminar fisicamente seus principais concorrentes — outros desempregados qualificados e desesperados como ele.
Em contraste com panfletos venenosos como 'Eddington' de Ari Aster, 'Método de Exclusão' de Park Chan-wook parece surpreendentemente intimista. Formalmente, também é uma sátira ao capitalismo com suas aquisições, IA e demônios corporativos. Mas o diretor demonstra sabedoria oriental: ele está mais interessado não no sistema, mas em como suas falhas se refletem no microcosmo de uma família em particular. A crise chega quando os homens, que nadavam em estabilidade, após a demissão se encontram à beira do abismo. Suas esposas terão que decidir: ficar com eles até o fim, fechando os olhos para os colapsos. Ou, quando a situação atingir o ponto de ebulição, livrar-se fisicamente do 'ativo' problemático.
É justamente a metade feminina que Park Chan-wook observa mais de perto, desligando deliberadamente o diapasão moral e permanecendo um observador externo. No final, o ponto mais forte do filme não é seu ímpeto satírico venenoso, mas o sutil drama de produção sobre pessoas que se encontram no epicentro do colapso. Inesperadamente, mas é fato: em um ano de panfletos barulhentos, um dos trabalhos anticapitalistas mais convincentes acabou sendo uma história sobre família.
3º lugar – 'Os Pecadores'
Em meio a vários outros lançamentos grandes e barulhentos no final de 2025, 'Os Pecadores' de Ryan Coogler parecia um pouco 'perdido', mas este é realmente um dos triunfos mais estranhos (no bom sentido) e profundos do ano. E o último bastião de ideias originais entre os blockbusters de estúdio. O filme foi lançado mundialmente no fim de semana da Páscoa e se tornou um milagre que nem Hollywood nem o público esperavam. Arrecadou 368 milhões de dólares mundialmente e se tornou (na época) o filme original de maior bilheteria dos últimos 15 anos, além de ser o décimo maior em bilheteria entre filmes com classificação R de todos os tempos.
Acho que um dos principais segredos é que uma narrativa aparentemente local sobre o Sul da era Jim Crow dos anos 1930 se transforma em um mito universal sobre a preservação de si mesmo contra a assimilação 'imortal'. Isso toca qualquer um que já sentiu perda de identidade e 'raízes', ou a necessidade de lutar por elas.
Para mim, tudo neste filme é maravilhoso, mas a música incrível composta por Ludwig Göransson, que é a verdadeira protagonista, funciona como um desfibrilador para a alma: do blues, com os vocais impressionantes de Miles Caton, para quem o papel em 'Os Pecadores' foi sua estreia no cinema (mas é quase impossível acreditar), a motivos irlandeses, e uma das melhores trilhas sonoras originais dos últimos dez anos.
Não é uma reinvenção do cinema de vampiros, na verdade, nem é um terror. Na era atual de filmes-pipoca com mensagens impostas óbvias que simplesmente param de funcionar porque não há alma por trás de sua criação, uma história tão reflexiva e pessoal que ainda faz tantos espectadores ao redor do mundo sentirem algo é um sopro de ar fresco. Tudo isso transforma 'Os Pecadores' em uma experiência que não acontece com frequência ultimamente. Exagero ou não, tenho certeza de que falaremos sobre este filme por muitos anos.
2º lugar – 'Batalha pela Batalha'
Paul Thomas Anderson refez 'Procurando Nemo' (se você é fã de clássicos, 'Os Bravos') com um volume de Thomas Pynchon nas mãos. Na versão do diretor, o enredo clássico de como um pai um tanto paranoico e perdido tenta salvar seu filho (neste caso, filha), na verdade muito mais adaptado à vida, se transforma em um grande romance americano. O pai interpretado por Leonardo DiCaprio não consegue aceitar um mundo no qual ele é uma relíquia de uma era passada; nazistas buscam amor e reconhecimento; revolucionários de ontem salvam, ainda que com uma incrível falta de jeito, o dia de hoje. Ao redor, perplexidade, medo da perda de ideais com os quais os heróis, via de regra, perdem a si mesmos.
Uma adaptação direta da prosa de Thomas Pynchon na carreira de Anderson foi 'Vício Inerente', mas foi em 'Batalha pela Batalha', apenas inspirada por Pynchon, que o diretor se permitiu leveza, conseguiu refletir o excesso de estilo do escritor, o absurdo melancólico de seus romances. Freiras com metralhadoras; o ataque de nervos de DiCaprio ao esquecer a senha secreta; o sensei de caratê (o grande Benicio del Toro) dançando durante a prisão. 'Batalha pela Batalha', como as melhores obras clássicas, é terrivelmente fascinante, dá vontade de rever quase imediatamente. E só por isso já vence a realidade à qual, dizem, se dedica a criticar.
1º lugar – 'Valor Sentimental'
2025 arde em chamas de dramas familiares. Assim, entre concorrentes barulhentos, às vezes irônicos, 'Valor Sentimental' conquista o espectador com a mais pura sinceridade. Parece que o filme respira isso do primeiro ao último quadro, começando com um prólogo sobre a história de uma casa e seus detalhes discretos, terminando com um final aberto, onde a interpretação do relacionamento dos personagens principais fica fora de cena.
'Valor Sentimental' é especialmente terapêutico de assistir com entes queridos, pois são eles que queremos entender e perdoar no ano que termina. Basta adicionar à ideia de misericórdia mútua a dupla de atores Renate Reinsve e Stellan Skarsgård, e não restam dúvidas de que este é o melhor filme do ano.
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