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A adaptação do romance de John Green sobre TOC ficou surpreendentemente honesta. Isabela Merced interpreta uma adolescente cuja cabeça é um verdadeiro campo de batalha. Resenha de 'Tartarugas Até o Fim' – um filme que não promete uma cura milagrosa.

Lembram como todo mundo chorou com 'A Culpa é das Estrelas'? Aquela história foi escrita pelo americano John Green. Em 'Tartarugas Até o Fim', ele faz os adolescentes chorarem de novo — só que agora não com uma história de amantes com câncer, mas com o relato de uma garota cujo maior adversário mora dentro de sua própria caixa craniana. A diretora Hannah Marks adaptou o romance de Green, lançado em 2017, onde o autor fala abertamente sobre o transtorno obsessivo-compulsivo. E sabe de uma coisa? O resultado é muito mais honesto do que se poderia esperar de mais um melodrama young adult.

Aza Holmes (Isabela Merced), de dezessete anos, vive em guerra constante com seus próprios pensamentos. Seu TOC não se manifesta como um perfeccionismo fofo dos vídeos do TikTok, mas como um verdadeiro inferno: pensamentos obsessivos sobre bactérias, infecções e microbioma que não a deixam em paz. A garota cutuca compulsivamente um ferimento no dedo, bebe gel desinfetante e literalmente se afoga em espirais de ansiedade. Paralelamente, sua melhor amiga Daisy (Cree Cicchino) inicia uma aventura de detetive: quer encontrar o bilionário desaparecido Russell Pickett e ganhar uma recompensa de cem mil dólares. O plano as leva à mansão do filho do bilionário, Davis (Felix Mallard), com quem Aza já havia se encontrado em um acampamento para crianças enlutadas (sim, isso existe).

Tartarugas Até o Fim 2025
Cena do filme 'Tartarugas Até o Fim'

O maior mérito do filme é que Marks não transforma o TOC em uma peculiaridade romantizada ou em um twist narrativo. A diretora encontra uma linguagem visual para transmitir o caos interno de Aza: montagem rápida, ruído estático pulsante no design de som, imagens obsessivas de bactérias se multiplicando. Isso funciona justamente porque não explica o problema ao espectador de forma direta, mas o mergulha na experiência subjetiva da protagonista. As cenas de terapia com a psiquiatra (Purnaa Jagannathan) são desprovidas de didatismo — a doutora tenta ajudar, Aza resiste, e isso é normal. O filme não promete uma cura milagrosa, não termina com a vitória sobre a doença, e nisso reside sua rara coragem para o gênero.

Isabela Merced carrega o filme nas costas com uma convicção que muitos atores experientes invejariam. Ela não interpreta uma 'garota com transtorno', mas uma pessoa viva que tenta existir apesar de seu próprio cérebro sabotar constantemente sua vida. Os momentos em que Aza percebe como seu TOC afeta os outros são particularmente comoventes — a cena da briga com Daisy acerta em cheio, mostrando que a amizade com alguém com um transtorno mental exige paciência (de ambos os lados) e compreensão mútua.

O problema é que todo o resto ao redor da história do TOC funciona pela metade. A trama de detetive sobre o desaparecimento do bilionário parece uma tentativa desajeitada de adicionar ação onde ela não é necessária — aparece, desaparece e se resolve de forma tão banal que surge a pergunta: para que serve, afinal?

Tartarugas Até o Fim assistir
Cena do filme 'Tartarugas Até o Fim'

A história romântica de Aza e Davis lembra um conto de fadas típico sobre uma garota pobre e um herdeiro rico com avião particular. Felix Mallard se esforça, mas seu personagem é ideal demais, compreensivo demais — um príncipe de papelão dos filmes dos anos 2000 para uma protagonista que merece um parceiro mais complexo.

Por outro lado, a amizade de Aza e Daisy é o que vale a pena assistir. Cree Cicchino cria uma amiga vibrante e enérgica, que escreve fanfics de 'Star Wars', trabalha em um centro de entretenimento infantil e, ainda assim, é real, e não uma função na trama da protagonista. As cenas juntas no carro ao som de Outkast, as idas ao Applebee's e as conversas sobre nada — é aí que está o verdadeiro coração do filme.

Cena do filme 'Tartarugas Até o Fim'
Cena do filme 'Tartarugas Até o Fim'

'Tartarugas Até o Fim' se tornou a adaptação mais aclamada pela crítica de John Green, e isso é justo. Hannah Marks fez um filme que não se envergonha de sua natureza, mas leva a sério o tema da saúde mental. Sim, as tramas romântica e de detetive mancam, os diálogos às vezes soam ensaiados demais, mas quando o filme se concentra no mundo interior de Aza, funciona perfeitamente. É um filme para quem luta contra transtornos de ansiedade e finalmente vê na tela algo parecido com sua experiência, e para quem quer entender como é viver com TOC, quando sua cabeça se transforma em um labirinto sem saída. Não é uma obra-prima, mas uma declaração importante.