Preview image

Em homenagem ao lançamento da comédia 'Sortudos', onde um dos personagens principais é um anjo, relembramos filmes e séries marcantes sobre criaturas celestiais míticas: de 'Constantine' a 'Sobrenatural'.

Keanu Reeves volta a atuar em histórias sobre anjos — e isso é um bom motivo para lembrar que as criaturas celestiais no cinema há muito deixaram de ser exclusivamente querubins rechonchudos com harpas. Na comédia 'Sortudos', que estreou recentemente online, o ator interpreta um desajeitado mensageiro celestial que tenta provar a um pobre trabalhador braçal que dinheiro não resolve problemas, trocando seu corpo com um rico. Spoiler: o plano falha, e o próprio anjo perde as asas. Parece uma maneira perfeita de lembrar: a temática angelical no cinema sempre equilibra o sublime e o absurdo, a filosofia e a farsa.​

«Constantine» (Constantine, 2005)

constantine filme 2005

Antes de se tornar um desajeitado ajudante celestial em 'Sortudos', Keanu Reeves já lidava com relações anjo-demônio em 'Constantine'. Aqui, ele interpreta o cínico exorcista John Constantine, que tenta ganhar seu lugar no paraíso expulsando demônios de volta ao inferno. Quando a detetive da polícia de Los Angeles Angela Dodson pede que ele investigue a misteriosa morte de sua irmã gêmea, Constantine se vê envolvido em uma conspiração que pode levar ao apocalipse.​

O filme retrata Los Angeles como um teatro de guerra entre o céu e o inferno, onde os anjos são tão dissimulados quanto os demônios. Tilda Swinton como o andrógino arcanjo Gabriel cria uma das imagens mais memoráveis de um mensageiro celestial no cinema — frio, calculista e assustadoramente indiferente ao sofrimento humano. 

No final, temos um noir atmosférico com elementos de horror, onde a água benta é usada como arma e o conceito de justiça divina acaba sendo bastante relativo.​

«Dogma» (Dogma, 1999)

Dogma

Kevin Smith decidiu que a melhor maneira de discutir o catolicismo era fazer uma comédia sobre dois anjos caídos que encontraram uma brecha no dogma da igreja. Bartleby e Loki, interpretados por Ben Affleck e Matt Damon, descobrem que podem voltar ao céu através de uma igreja reconsagrada em Nova Jersey. O problema? Se eles conseguirem, isso provará que Deus está errado e todo o universo deixará de existir.​

Para impedir o apocalipse, são recrutados a funcionária de uma clínica de aborto Bethany, os profetas Jay e Silent Bob, o décimo terceiro apóstolo e uma stripper musa. O filme zomba da religião organizada e ao mesmo tempo declara seu amor por ela, transformando debates teológicos em uma aventura espirituosa. Alan Rickman interpreta o sarcástico serafim Metatron, que se materializa no quarto da heroína em uma coluna de fogo e depois reclama que sempre apagam o fogo com extintor. 

É um daqueles raros casos em que a sátira religiosa é ao mesmo tempo ousada e surpreendentemente calorosa.​

«Cidade dos Anjos» (City of Angels, 1998)

Cidade dos Anjos

Nicolas Cage em um longo casaco preto vagueia por Los Angeles invisível para as pessoas, observando suas vidas e confortando os moribundos. O anjo chamado Seth realiza seu trabalho há milênios, até encontrar a cirurgiã cardíaca Maggie, interpretada por Meg Ryan — e ela o vê. Esse encontro faz Seth refletir sobre como seria ter um corpo físico, sentir toques, tomar café, comer peras.​

Uma espécie de remake americano do lendário 'Asas do Desejo' de Wim Wenders, transforma a meditação filosófica em um melodrama, mas o faz com tamanha elegância visual que é difícil criticar. Cage interpreta a inocência angelical com uma sinceridade surpreendente, transformando Seth em um ser que literalmente aprende a ser humano. Dennis Franz, como paciente de Maggie, adiciona uma reviravolta inesperada à história, sugerindo que o caminho do celestial ao terreno é uma via de mão dupla. 

O filme levanta uma questão incômoda: vale a eternidade por um único momento de vida real?​

«Asas do Desejo» (Wings of Desire, 1987)

Asas do Desejo filme

Wim Wenders criou uma meditação poética sobre imortalidade, solidão e a beleza do cotidiano. Dois anjos, Damiel e Cassiel, deslizam por uma Berlim dividida pelo muro em longos casacos, ouvindo os pensamentos das pessoas e oferecendo conforto invisível. Eles não podem interferir, apenas observar — até que Damiel se apaixona pela equilibrista de circo Marion e decide pelo impossível: tornar-se mortal.​

O filme é filmado em preto e branco, simbolizando a percepção angelical do mundo, mas quando Damiel ganha humanidade, a imagem explode em cores. Peter Falk aparece como ele mesmo e explica ao ex-anjo as alegrias simples da existência terrena — o sabor do café, o cheiro dos cigarros. E há muitas dessas soluções criativas e ao mesmo tempo emocionantes no filme.

É um daqueles filmes raros em que cada quadro pode ser impresso e pendurado na parede, e as reflexões filosóficas não parecem pretensiosas. O filme ganhou o prêmio de melhor direção em Cannes e se tornou um clássico cult do cinema de arte.​

«O Homem da Família» (The Family Man, 2000)

O Homem da Família

Nicolas Cage novamente lida com anjos, mas desta vez não se transforma em mortal, mas recebe uma lição deles. Jack Campbell é um empresário de sucesso de Wall Street que tem tudo: dinheiro, carreira, cobertura. Mas um dia ele acorda em uma realidade alternativa, onde é casado com sua ex-namorada, vive no subúrbio, vende pneus e cria dois filhos. É um 'vislumbre' — uma chance de ver como sua vida poderia ter sido se ele tivesse feito uma escolha diferente.

O filme é um conto de Natal no espírito de 'A Felicidade Não Se Compra', onde o anjo não salva do suicídio, mas mostra que a felicidade não se mede pelo saldo bancário. Cage interpreta magistralmente a transformação de um carreirista cínico em uma pessoa que descobre o valor das alegrias simples — jantares em família, abraços de crianças, amor verdadeiro. Don Cheadle como o misterioso intermediário adiciona realismo mágico à história sem cair na pieguice.

É uma história calorosa, um pouco sentimental, mas surpreendentemente sincera sobre como sucesso e felicidade nem sempre são a mesma coisa.

«Legião» (Legion, 2010)

Legião

Deus se decepcionou com a humanidade e decidiu provocar o apocalipse. Mas o arcanjo Miguel (Paul Bettany) se recusa a cumprir a ordem, perde as asas e desce à Terra para proteger uma garçonete grávida, cujo filho é a última esperança da humanidade. Os eventos se desenrolam em um restaurante à beira da estrada no meio do deserto, onde um punhado de pessoas tenta sobreviver sob o ataque de criaturas possuídas enviadas pelos céus.​

É um daqueles filmes raros onde os anjos são verdadeiros guerreiros, armados até os dentes e prontos para um banho de sangue. Bettany interpreta o anjo caído como um herói de ação que trocou a obediência divina pela teimosia humana. O filme não tenta ser filosófico — é um action violento com elementos de horror.

Se 'Constantine' é um noir com anjos, 'Legião' é um cerco no estilo de John Carpenter, só que em vez de zumbis, é o exército celestial.​

«Lúcifer» (Lucifer, 2016-2021)

Post image

E se o Diabo se cansasse de governar o inferno, se mudasse para Los Angeles, abrisse uma boate e se tornasse consultor da polícia? Tom Ellis como Lúcifer Morningstar transforma essa premissa absurda em uma odisseia de seis temporadas sobre livre arbítrio, traumas familiares e redenção. Lúcifer tem um superpoder — ele pode extrair das pessoas seus desejos ocultos, o que o torna um detetive ideal (e uma fonte de momentos cômicos).​

A série é povoada por todo um panteão de anjos: o irmão mais velho Amenadiel, que inicialmente tenta trazer Lúcifer de volta ao inferno, o gêmeo Michael com seus complexos, e muitos outros parentes alados com poderes divinos e problemas muito humanos. Especialmente bom é D. B. Woodside como Amenadiel, que se torna pai do primeiro semi-anjo semi-humano da história. 

O show começa como um procedural no estilo 'monstro da semana', mas gradualmente se desenrola em um drama familiar épico sobre o que significa ser digno de amor — mesmo que você seja literalmente o Senhor do Inferno.​

«Belas Maldições» (Good Omens, 2019-)

Belas Maldições

Neil Gaiman e Terry Pratchett apresentaram o apocalipse como uma confusão burocrática, onde um anjo e um demônio, muito acostumados à vida terrena, se unem para evitar o fim do mundo. Aziraphale (Michael Sheen) é um anjo pedante e livreiro de antiguidades, e Crowley (David Tennant) é um demônio hedonista que adora carros velozes. Ao longo dos milênios, eles se tornaram amigos, e quando o Armagedom começa devido a uma confusão com o bebê anticristo, eles decidem que a Terra é boa demais para ser destruída.​

A série equilibra sátira à burocracia religiosa e uma história sincera sobre amizade que é mais importante do que ordens de cima (ou de baixo). A química entre Sheen e Tennant torna o par o principal trunfo do show — eles discutem sobre a música do Queen, salvam o mundo e demonstram que a moralidade não depende de que lado você está originalmente. 

Embora a terceira temporada consista em apenas um episódio após o escândalo com Gaiman, as duas primeiras temporadas são uma deliciosa mistura de humor britânico e absurdo apocalíptico.​

«Sobrenatural» (Supernatural, 2005-2020)

Sobrenatural

Ao longo de 15 temporadas, os irmãos Winchester mataram tantos monstros que encontrar anjos parecia inevitável. Na quarta temporada, aparece Castiel (Misha Collins) — um anjo que ressuscita Dean do inferno e se torna um companheiro constante dos irmãos em sua caça ao sobrenatural. Inicialmente, Castiel é uma criatura misteriosa e poderosa em um casaco amassado, falando enigmas, mas com o tempo ele se torna quase humano, aprendendo sobre livre arbítrio e amizade.​

A série mostra os anjos não como protetores benevolentes, mas como soldados do exército celestial com suas próprias intrigas, traições e guerras civis. Castiel luta contra demônios, outros anjos e até consigo mesmo, gradualmente se afastando dos dogmas celestiais. Seu arco — de executor sem alma de ordens a um ser capaz de sacrifício pelos amigos — é um dos melhores do show. 

Se você está pronto para um relacionamento de longo prazo com uma série, 'Sobrenatural' oferece a exploração mais detalhada da mitologia angelical na televisão moderna.​

«Anjos na América» (Angels in America, 2003)

Anjos na América

Mike Nichols dirigiu para a HBO uma minissérie de seis episódios baseada na peça vencedora do Pulitzer de Tony Kushner, que se tornou um evento televisivo e um manifesto cultural. A ação se passa em Nova York em 1985, no auge da epidemia de AIDS e da era conservadora de Reagan. No centro, vários destinos entrelaçados: o antiquário gay Prior Walter adoece com AIDS, seu parceiro Louis o abandona por medo; o jovem advogado mórmon Joe Pitt esconde sua homossexualidade de sua esposa viciada Harper; a figura histórica real Roy Cohn — um influente advogado de direita (mentor do jovem Trump) — morre de AIDS, mas se recusa a aceitar o diagnóstico. Prior começa a ser visitado por um anjo de fogo, proclamando-o profeta e informando que Deus abandonou o céu.​

'Anjos na América' é um drama épico que usa elementos fantásticos para falar sobre tragédias reais. Meryl Streep interpreta vários papéis, incluindo a mãe de Joe, o fantasma de Ethel Rosenberg e uma das encarnações do anjo. Al Pacino cria um retrato aterrorizante do corrupto Roy Cohn — um homem que usou suas conexões para obter o medicamento experimental AZT, inacessível à maioria dos moribundos. Emma Thompson incorpora o Anjo da América — uma criatura majestosa, mas cansada, que implora a Prior para parar o progresso humano para que Deus retorne ao céu. Prior recusa: ele escolhe a vida e a luta, apesar da doença e da dor.​

A série quebrou o recorde de número de Emmys para uma minissérie (11 prêmios) e se tornou o primeiro show a vencer todas as principais categorias. Mas o principal é que mostrou que a televisão é capaz de um discurso de grande escala sobre política, fé, sexualidade e morte sem simplificações ou compromissos. É uma conversa sobre como a sociedade abandona seus próprios, como o poder corrompe, e como a esperança sobrevive mesmo quando os anjos ordenam desistir.

De burocratas celestiais a guerreiros caídos, de melodramas românticos a ações sangrentas — os anjos no cinema se mostram incrivelmente diversos. 'Sortudos' de Aziz Ansari com o desajeitado Keanu Reeves se encaixa nessa tradição, lembrando que até criaturas celestiais podem errar. E, talvez, seja exatamente isso o seu principal atrativo — eles cometem erros, duvidam, se apaixonam e mostram que o caminho do divino ao humano é mais curto do que parece.