
No dia 27 de novembro, o drama monocromático "O Homem Elefante" — uma investigação hipnótica da essência da natureza humana nos cenários da Inglaterra vitoriana — foi relançado nos cinemas. Por isso, relembramos as mais diversas teorias e conceitos p...
Rodney Ascher e "Coração Selvagem"

Rodney Ascher é o principal pós-pós-meta-meta-estruturalista do cinema não ficcional contemporâneo. Com sua meticulosidade característica, ele e vários de seus colegas dissecam o filme "Coração Selvagem", comparando-o quadro a quadro tanto com outras obras do próprio David Lynch quanto com clássicos de Hollywood e enredos fundamentais da cultura americana. Quem rege o processo é Alexandre O. Philippe, diretor do aclamado "Lynch/Oz", que circulou em festivais há alguns anos.
O ponto de partida é "O Mágico de Oz" — uma obra que influenciou significativamente a cultura. Ascher encontra inúmeras estruturas, motivos e imagens recorrentes: os sapatos vermelhos de Dorothy ("Coração Selvagem", "Twin Peaks"), o movimento infinito entre mundos ("Estrada Perdida", "Twin Peaks", "Coração Selvagem", "Cidade dos Sonhos"), cortinas escondendo o mágico ("Veludo Azul", "Twin Peaks"). Ou seja, os filmes de David Lynch devem ser assistidos sempre pensando, comparando, buscando referências e citações involuntárias. Cuidado: se exagerar nessa abordagem, você pode acidentalmente invocar o espírito de Vladimir Propp.
Slavoj Žižek e "Estrada Perdida"

A ideia central de "A Arte do Sublime Ridículo" é que, nas obras do diretor, algo absurdo e até cômico se torna repentinamente um reflexo do desejo, da fantasia e do inconsciente, produzindo um efeito de horror. Slavoj Žižek recorre à terminologia da teoria psicanalítica de Jacques Lacan. Por exemplo, um lugar central na filmografia de Lynch é ocupado pela "cisão do sujeito" (le sujet fendu ou Spaltung) — a divisão da personalidade dos heróis, a duplicidade, dois sujeitos em um corpo (Leland Palmer) ou a troca de corpo (Fred Madison).
Žižek vê os filmes de Lynch como uma demonstração da mecânica do desejo, o ciclo completo de sua "vida": como ele se constrói, se quebra, se repete. Em "Estrada Perdida", ele encontra a maior concentração dos princípios fundamentais da obra do diretor. Fred Madison experimenta impulsos doentios de ciúmes, que levam o herói ao crime. Em seguida, surge um cenário fantasioso de fuga, o fracasso da fantasia e o retorno do real. Žižek olha para a filmografia de David Lynch a partir da psicanálise, ou seja, como uma investigação dos processos do inconsciente, dando-lhes forma através da arte.
Stefan Ghez e "Twin Peaks"


Stefan Ghez desenvolve sua interpretação no documentário "Bem-vindo a Lynchland". O diretor e seus interlocutores constroem um conceito baseado em uma teoria fundamental: David Lynch criou um mundo coeso e autônomo, que existe de acordo com suas próprias leis da psique e dos sonhos, diferentes da realidade. Portanto, cada espectador, ao interagir com sua obra, não apenas se envolve com um tema ou ideia, mas entra em um território construído por David Lynch.
A melhor ilustração dessa ideia é "Twin Peaks" — um ritual envolto em uma roupagem de detetive: o valor não está na solução (ela não existe), mas no próprio estado de estar em Twin Peaks, a cidade do inconsciente coletivo, medos, desejos e sonhos. Stefan Ghez defende uma abordagem em que o espectador não é um intérprete, mas um participante, que entra em "Lynchland" para vivenciar os mais diversos sentimentos, às vezes extremamente íntimos.
Dennis Lim e David Lynch

Dennis Lim não oferece sua própria interpretação da filmografia do diretor; pelo contrário, ele enfatiza que Lynch é um artista que resiste à explicação. Em contraste com Rodney Ascher, Lim não considera possível decifrar as imagens e símbolos criados por Lynch, pois seus filmes não são quebra-cabeças, mas experiências. Sonhos, dor, música, interiores, horror, duplicidade — são formas de transmitir um clima. Resta apenas aceitar, relaxar e sentir.
A obra de Lynch, segundo essa abordagem, age de forma afetiva. Sua atmosfera onírica é uma forma diferente de realidade, não uma equação que pode ser resolvida se você apontar o lápis o suficiente. Em sintonia com essa entonação, Dennis Lim formula o conceito de "estranheza inquietante" que permeia toda a filmografia do diretor. Mas esse conceito também não explica a linguagem cinematográfica; antes, chama a atenção para a instabilidade, a fluidez do mundo de David Lynch. Nesse turbilhão, é preciso mergulhar sem pensar, confiando no fluxo.
David Lynch e o grande peixe


As ideias chegam a David Lynch em fragmentos, lampejos quase imperceptíveis. Eles ditam o clima do filme futuro, mas o enredo nunca foi a base primordial; é sempre algo abstrato: "Veludo Azul", por exemplo, surgiu de lábios escarlates, gramados verdes e a música Blue Velvet na voz de Bobby Vinton. Após essas primeiras imagens, Lynch não quebra a cabeça noites a fio com o círculo da história de Dan Harmon; pelo contrário, ele olha para dentro, porque tudo já está dentro dele, agora só precisa ser encontrado.
A formação do filme futuro ocorre intuitivamente, pois o diretor mergulha nos fluxos de sua consciência precisamente na meditação. Ela não lhe dá as chaves e metáforas necessárias como por mágica, mas se torna uma ferramenta para explorar a si mesmo. O mesmo acontece ao assistir seus filmes — essa experiência depende do próprio espectador, porque "cada um vê, pensa e sente de forma diferente". Esse processo é sempre individual e quase sagrado: cada um vê no filme de Lynch não o que quer ver, mas o que pode ver — "o mundo é como você é".
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