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Na internet é possível encontrar «Anêmona», a estreia em longa-metragem do diretor Ronan Day-Lewis, para a qual seu famoso pai, Daniel Day-Lewis, voltou ao cinema. A crítica recebeu o filme de forma bastante contida. Em nossa resenha — sobre por que,...

A primeira entrevista com o cineasta estreante Ronan Day-Lewis que você encontra ao pesquisar no Google tem o título «Ronan Day-Lewis sabe o que você está pensando». Bem, adivinhar não é difícil, e a gama padrão de opiniões em críticas e comentários apenas confirma o óbvio: todos amam Daniel Day-Lewis; ninguém gosta de nepo-baby; todos pensam que o pai atuou no filme do filho apenas por laços familiares; e ninguém, claro, se interessa por opiniões alternativas.

A participação de Day-Lewis, ator icônico, provavelmente o melhor de sua geração, realmente ajudou o filme: sem uma estrela desse porte no papel principal, «Anêmona» teria permanecido restrito a poucos amantes de dramas britânicos lentos. Agora, o filme é muito comentado e escrito. No entanto, será que isso é realmente uma ajuda?

Em «Anêmona», nada revela um desejo de agradar ao grande público. Nem o enredo supostamente caricaturalmente art-house — um militar aposentado tenta trazer seu irmão, também veterano de guerra, de volta do exílio voluntário para ajudar seu filho. Nem a narrativa arrastada, que em certo ponto dá lugar a paisagens naturais — tempestade, chuva, floresta. Nem o fato de que o silêncio no filme não é apenas tão importante quanto os diálogos, mas na verdade revela sobre os personagens coisas muito mais significativas do que eles próprios estão dispostos a dizer.

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Cena do filme «Anêmona»

De certa forma, tanto para o pai quanto para o filho, trabalhar juntos foi um risco: para o segundo, significava um aumento significativo das apostas; para o primeiro, que o julgamento recairia não sobre o filme, mas sobre ele. No geral, foi o que aconteceu. No entanto, à pergunta natural «valeu a pena?», queremos responder afirmativamente. «Anêmona» não é o melhor filme do ano nem o melhor da carreira de Daniel Day-Lewis, mas é um cinema com senso de dignidade interior — bonito, inteligente, respeitoso com o espectador e com o material.

A premissa do enredo, repetimos, é simples. O jovem militar Brian Stocker (Samuel Bottomley), que desertou após agredir um colega, está constantemente irritado consigo mesmo, com o mundo e com seu pai. Ele nunca viu o pai. Ray (Daniel Day-Lewis), um veterano, desapareceu da vida dele e de sua mãe Nessa (Samantha Morton) antes mesmo de seu nascimento, e o menino foi criado por Jem (Sean Bean, excepcional), irmão mais velho de Ray e também oficial de carreira. Os boatos sobre Ray são os mais variados — principalmente, que ele é um assassino e criminoso de guerra que fugiu da justiça. Para Brian, isso é insuportável, e ele odeia o pai, temendo encontrar traços dele em si mesmo. No entanto, é exatamente atrás de Ray que Jem vai, na esperança de salvar o filho adotivo.

Pelas coordenadas deixadas para emergências, Jem encontra o irmão nas florestas do norte da Inglaterra, onde — em uma cabana extremamente modesta com um conjunto de louça para um e uma biblioteca impressionante para um espaço minúsculo — Ray passou os últimos vinte anos. O que o levou a escolher essa vida, não descobrimos imediatamente. Talvez nem descubramos: claro, perto do final, o personagem de Day-Lewis faz um monólogo adequado à ocasião, mas permanece em Ray um enigma. O que ele viu naquela floresta (a cena com uma criatura semelhante a um Patrono você não confundirá com nada)? O que o fez puxar o gatilho naquela época? Por que para ele — um oficial de carreira — o confronto com a morte expulsou da vida tudo aquilo que, em princípio, justifica a carreira militar: amor, pertencimento a uma comunidade, responsabilidade, enfim?

Anêmona crítica Daniel Day-Lewis Sean Bean
Cena do filme «Anêmona»

«Anêmona» evita respostas diretas: no final, entenderemos o que aconteceu, mas não como nos posicionar sobre isso. Jem, em resposta à confissão do irmão, dirá muito pouco: seus julgamentos são simples, seu mugido medido é mais profundo do que palavras — estas, aliás, são simplórias. Por essa recusa ao refinamento, «Anêmona» é criticada periodicamente. A força do roteiro — sua recusa em resistir ao material da vida — nas críticas negativas acaba sendo sua principal fraqueza, o que, em geral, não é nada óbvio. Os irmãos militares não conseguem conversar entre si, Nessa não consegue com o filho, o próprio Brian não consegue com ninguém. 

O filme é construído sobre silêncios, e nas longas pausas entre diálogos até certo ponto insignificantes, nos planos de paisagem prolongados, pode-se ver, é claro, a imaturidade do jovem diretor, mas também a fidelidade ao meio. Mesmo que o filme não tivesse dois monólogos notáveis de Daniel Day-Lewis e um de Samantha Morton, tudo ficaria claro apenas pela composição dos planos, locações escolhidas, closes de rostos (Morton e Bean, diga-se, nesses closes são surpreendentemente expressivos), pela trilha sonora brilhante, tendendo ao shoegaze.

Além disso, os principais motivos do filme são interessantes e atuais. Claro, é a história de dois irmãos que, mesmo após vinte anos de separação, têm sobre o que conversar e, principalmente, sobre o que silenciar. Jem e Ray realmente ficam em silêncio na maior parte do tempo, acusam-se mutuamente de algo, pedem perdão por algo. Seus poucos dias a sós poderiam, provavelmente, ser condensados na duração de um curta-metragem — tão intuitiva é toda a interação entre eles; abrupta e curta como um tiro. 

O que Jem e Ray têm em comum é também a experiência da irmandade substituta — o serviço militar. Ambos lembram não das batalhas em que participaram, mas daqueles com quem lutaram lado a lado. Ambos, obviamente, esperavam que a irmandade militar fosse ainda melhor do que as relações familiares — o que os une não é o passado, mas o futuro; não as causas, mas os objetivos, mesmo que sejam para atirar. Tudo, claro, acabou sendo um pouco diferente, e o filme mostra como é difícil, no final, encontrar laços sociais além dos pré-determinados.

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Cena do filme «Anêmona»

Não menos importante, no entanto, é o tema, digamos, de pais e filhos. E não as dificuldades de interação entre eles, mas sim a unidade do destino. O filho despreza o pai, mas repete seu caminho. Ambos são bastante insuportáveis e teimosos e, ao mesmo tempo, empáticos; ambos são prontos para serem amados, mas, em vez disso, tanto Brian quanto Ray escolhem o caminho do exílio voluntário; ambos, no final, acabam sendo buracos na vida um do outro. 

Mas no centro do filme está a dor de Ray — a impossibilidade de se perdoar, a incapacidade de voltar da guerra. Sua história é uma espécie de «Odisseia» moderna, só que Odisseu teve dez anos entre a tomada de Troia e a chegada a Ítaca que foram trágicos, mas emocionantes, enquanto Ray, digamos, foi para a floresta. O verdadeiro retorno da frente — não importa se da Guerra de Troia ou da Guerra Civil Irlandesa — se é que é possível, acaba exigindo distância não tanto no espaço, mas no tempo. Mas mesmo isso acaba sendo apenas uma prova de luto, e para se perdoar, o herói precisa tentar viver novamente. Isso, na verdade, é o mais difícil. 

«Anêmona» é um filme triste, mas otimista. Nem todos os irmãos são como Caim e Abel. Nem todo Odisseu está perdido. Às vezes, os filhos podem não repetir o destino dos pais. Claro, o filme ocasionalmente se perde em três pinheiros, porque Ronan Day-Lewis às vezes quer muito mostrar que sabe fazer cinema (a influência das técnicas de Lynch no cinema mundial em breve será comparável em escala de catástrofe à influência de Tarkovsky — no cinema russo). No entanto, ele realmente sabe: se hoje existe cinema no gênero do realismo (mágico) de pia de cozinha, então esse cinema é «Anêmona».