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Edward Berger e Colin Farrell foram a Macau filmar «Balada do Pequeno Jogador» — mas o filme nunca entendeu se é drama ou absurdo.

Após o triunfo do Oscar de «Nada de Novo no Front» e os elogios a «Conclave», Edward Berger decidiu arriscar — e partiu para o abismo neon de Macau com Colin Farrell e Tilda Swinton. O resultado é «Balada do Pequeno Jogador» — um filme que ficou preso em algum lugar entre a comédia surrealista do absurdo e o drama sombrio da autodestruição, sem nunca decidir ser um ou outro.

Um vigarista irlandês, que se passa por Lord Doyle (Farrell), queima seu último dinheiro em um hotel de luxo em Macau. Champanhe Cristal, lagostas, limusines — tudo isso já está fora do alcance de um jogador que foi banido da maioria dos cassinos locais. As dívidas crescem como fermento, e atrás dele está a detetive particular Cynthia (Swinton), determinada a recuperar quase um milhão de libras que Doyle uma vez extorquiu de uma senhora rica. Resta uma última chance: a misteriosa funcionária do cassino Dao Ming (Chen Fala), que concede crédito a jogadores desesperados e de repente desaparece. Doyle equilibra-se à beira da realidade, perguntando-se: o que disso tudo é real?

«Balada do Pequeno Jogador» 2025
Cena do filme «Balada do Pequeno Jogador»

«Balada do Pequeno Jogador», lançada na Netflix, sofre de esquizofrenia criativa. Berger claramente queria fazer algo no estilo de um thriller surrealista, onde a linha entre realidade e alucinações é tão tênue que se torna indistinguível. O problema é que o filme não consegue decidir para onde está indo.

Por um lado, há o grotesco: Doyle se empanturra de iguarias que nem consegue realmente saborear (à la Dennis Quaid em ), o público na exibição em Telluride gemeu de compaixão quando ele apostou novamente o dinheiro ganho. Por outro, há tentativas de drama sério sobre o vício, que nunca alcançam a profundidade emocional necessária, apesar da atuação expressiva de Farrell, que extrai inspiração literalmente do ar. O resultado é nem peixe nem carne: falta loucura para o absurdo, falta tragédia para o drama.

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Cena do filme «Balada do Pequeno Jogador»
Cena do filme «Balada do Pequeno Jogador»

O diretor de fotografia James Friend, que já trabalhou com Berger, criou um visual que lembra mais uma pop-ópera do que um thriller psicológico. Macau é retratado como um lugar estereotipadamente extravagante e ao mesmo tempo abafado, com fontes, cores vibrantes e música que cria uma sobrecarga sensorial.

O problema é que toda essa coloração e exuberância neon não servem à história. A câmera segue Farrell de perto, tentando capturar seu suor, risos e lágrimas, mas a estética visual distrai mais do que intensifica o drama. O neon pisca, as fontes jorram, e você tenta entender: por que o desejo de filmar bonito superou o bom gosto artístico dos autores? No final, o luxo visual é vazio — assim como o próprio Doyle, que existe em um mundo de possibilidades, mas por dentro está completamente esvaziado.

Cena do filme «Balada do Pequeno Jogador»
Cena do filme «Balada do Pequeno Jogador»

Se algo salva «Balada» do fracasso total, é Colin Farrell. Seu Doyle — patético, suado, desesperado — evoca ao mesmo tempo compaixão e vontade de sacudi-lo. Farrell demonstra um timing cômico impecável e ainda consegue manter a humanidade do personagem, apesar de ele estar constantemente em queda livre. É um dos melhores trabalhos do ator no cinema nos últimos anos, que não se perde nem mesmo em comparação com seu papel indicado ao Emmy como Pinguim.

Ele literalmente carrega o filme nas costas, fazendo o espectador torcer por um personagem que claramente não merece. Swinton e Chen Fala também são boas em seus papéis, mas têm pouco tempo de tela, e o sentido de suas personagens em cena é ainda menor.​

«Balada do Pequeno Jogador» assistir
Cena do filme «Balada do Pequeno Jogador»

«Balada do Pequeno Jogador» parece impressionante, mas por trás da embalagem brilhante quase não há nada. Berger claramente queria criar algo significativo — uma mistura peculiar de «O Nadador» com Burt Lancaster, «Despedida em Las Vegas» com Nicolas Cage e «O Jogador» com James Caan. Em vez disso, resultou um filme que nunca conseguiu decidir o que queria ser: uma parábola surrealista ou um drama duro sobre o vício em jogo. O roteiro de Rowan Joffe, baseado no romance de Lawrence Osborne, parece tropeçar entre esses dois polos, perdendo no caminho tanto a agudeza do absurdo quanto a força dramática. Se você é fã de Farrell — assista por sua atuação. Melhor ainda, reassista «Conclave». É um cinema muito mais coeso e forte.​