
A comédia dramática de Nina Volova, 'Fogos de Artifício Durante o Dia', ganhou o prêmio de 'Melhor Estreia' no festival de cinema 'Mayak'. Leia em nosso material sobre um dos maiores tesouros do festival realizado em Gelendzhik.
Na trama de 'Fogos de Artifício Durante o Dia', o negócio de lustres e luminárias de Viktor (Alexander Robak) há muito deixou de dar lucro aos acionistas. Para salvar os investimentos e evitar a falência da empresa, seu sócio chinês Weihong (Wang Bin) voa para a Rússia. Avaliando realisticamente a situação, o estrangeiro percebe que a única saída é confiscar a casa de Vitya para quitar a dívida. No entanto, suas filhas — a tutora de russo Olya (Daria Konyzheva), a esbanjadora Lena (Masha Raskina) e a beatmaker Toma (Vera Engalycheva) — não concordam com isso.

Dentre a vasta gama de filmes cujo leitmotiv é o choque de mentalidades, 'Fogos de Artifício Durante o Dia' se destaca principalmente porque a diretora evitou retratar estereotipadamente tanto chineses quanto russos. Nina Volova criou um folhetim à la Tchekhov, lacônico, incisivo, mas absolutamente benevolente, repleto de ironia leve e sem direcionamento contra ninguém. Diferentemente de ' Peculiaridades da Caça Nacional' de Alexander Rogozhkin, onde o absurdo delirante andava de mãos dadas com uma investigação quase documental da identidade, na dramédia com Robak não há nem um nem outro. No entanto, o filme contém várias observações bastante precisas sobre o contraste entre as visões de mundo dos personagens.
Se o chinês Weihong, interpretado por Wang Bin (sem dúvida, a maior revelação do último 'Mayak' entre os atores), é excepcionalmente racional e pragmático, o empresário fracassado Viktor parece não ter como objetivo alcançar altos resultados. Apesar de sua empresa estar à beira da falência e ele estar endividado até o pescoço, continua mantendo funcionários que não trabalham diligentemente ou que já passaram da idade da aposentadoria. Seu negócio não é lucrativo, em parte porque se sustenta na palavra de honra, em laços de amizade e no famoso 'jeitinho' russo. E tudo isso não é tanto sobre humanismo ou generosidade, mas sobre favoritismo e relutância em mudar.

Paralelamente, o personagem de Alexander Robak, apesar de sua situação financeira desoladora, ainda tenta viver em grande estilo, dando dinheiro generosamente às filhas e amantes. As circunstâncias, é claro, o forçam a se desfazer gradualmente dos símbolos do antigo luxo, o que ele faz, até que surge a questão da venda da casa, provocando discórdia na família. É impossível não pensar que 'Fogos de Artifício Durante o Dia' é uma paráfrase atualizada de 'O Pomar das Cerejeiras', onde o gestor de crise Weihong é uma reencarnação do progressista comerciante Lopakhin. A diferença é que, em Anton Tchekhov, o conflito de gerações era diametralmente oposto: os mais velhos resistiam ao negócio, enquanto os jovens não viam sentido em preservar o ninho nobre. Aliás, o filme de Volova, assim como a peça de Tchekhov, foi tecido a partir de memórias pessoais da autora.

O melhor de 'Fogos de Artifício Durante o Dia' é a elaboração espetacular (desculpe, não resisti ao trocadilho) dos personagens, algo raro para uma estreia em longa-metragem. Os retratos de todos os personagens, incluindo os episódicos, são pintados não com pinceladas largas, mas atribuindo a cada um traços individuais distintos. O que dizer, se até a amante do pai, que inicialmente parece uma moça tola e ávida por status social, tem a oportunidade de sair do clichê e se mostrar de um lado nobre inesperado. Nisso, talvez, resida o principal encanto do filme: não há personagens pelos quais o espectador não sinta simpatia.
Ocasionalmente, a estreante Volova permite-se desviar da elegante ironia tchekhoviana e inserir piadas mais típicas de comédias populares de entretenimento do que de cinema de autor. Assim, na trama, o divorciado Weihong, por obra do destino, acaba em um encontro com uma garota que inicia o conhecimento com exigências financeiras ao parceiro, ao que o confuso chinês diz que nunca usou serviços de acompanhantes. Em seguida, a moça ofendida pela comparação dá ao hóspede do Celeste Império uma mini-palestra sobre como trabalho sexual e ser mantida não são termos idênticos. Essa cena, claro, é excessiva e batida, mas não tão estranha a ponto de estragar o quadro geral.

Perto do final, o personagem de Wang Bin fica em segundo plano, junto com o tom zombeteiro, as inevitáveis notas de grotesco e a ótica do estrangeiro que se espanta com coisas e situações habituais para nós. O foco se desloca para as três irmãs que se opuseram ao próprio pai para defender a casa onde cresceram. As paixões aumentam gradualmente: o patriarca da família, como punição, esvazia a piscina (depois a enche novamente, mas para sua amante), e as garotas tentam alcançar liberdade econômica colocando à venda os presentes do pai.
Mas quando a temperatura já está no limite e a chama do conflito quase separa para sempre os entes queridos, Nina Volova, como seria de esperar, a apaga com água. Os personagens entendem que a casa é algo mais do que quatro paredes, telhado, sala de bilhar, sauna e piscina. Em vez do som distante, como se vindo do céu, de uma corda arrebentada, com o qual terminava a peça épica de Tchekhov, o espectador ouve o estrondo de fogos de artifício lançados, claro, à luz do dia.
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