
Como um filme malsucedido se torna cult, por que judeus e russos não se dão bem em Nova York e como sobreviver à comparação com Guy Ritchie – em nossa resenha do filme 'Caught in the Act'.
Cada filme de Darren Aronofsky pode ser considerado especial. Não se trata da qualidade (o diretor repetidamente 'errou' no posicionamento e na realização de seus projetos), mas da abordagem ao processo de filmagem, o que explica o interesse elevado do espectador por seus filmes mesmo após fracassos de bilheteria, mesmo décadas depois. Entre a multidão tagarela de fãs de Aronofsky, de vez em quando se encontra um amante do caótico 'Fonte' ou um adepto da adaptação hollywoodiana da palavra de Deus, o filme 'Noé'. Aronofsky é sempre cuidadoso na interpretação de sua dissidência religiosa e na estetização da obsessão de seus personagens.
Os herméticos 'A Baleia', 'Mãe!', 'Réquiem para um Sonho' ou os expansivos e ligeiramente desajeitados 'Noé' e 'Fonte' são 'golems de salitre', criados para servir ao criador e provar sua participação no mundo do cinema, no mundo da arte. E até 2025, Aronofsky construía calmamente o 'sino' para seu 'campanário', interrompendo-se a cada cinco anos, até se encontrar num beco sem saída – o filme 'Caught in the Act'.
Muitos percebem algo em comum entre a comédia criminal de Aronofsky e as obras de Guy Ritchie, o que por si só é um aviso preocupante para o primeiro e um enorme crédito para o segundo (o amante da filosofia britânica só voou mais alto durante seu período de afinidade com ). No entanto, tais comparações não resistem a críticas sérias e situam-se estritamente no campo do gênero e, talvez, na tonalidade expressivo-patológica das narrativas.

Touros russos e tradições judaicas
Hank Thompson (Austin Butler), no passado um jovem prospecto da liga nacional de beisebol, sofreu um acidente e teve uma lesão incompatível com o esporte de alto nível, agora vegetando em um bar e tomando cerveja no café da manhã. Sua vida estagnada é animada apenas por ligações de sua mãe amorosa (espere por uma participação especial estrelada surpresa após os créditos) e pelo conhecimento da garota Yvonne (Zoë Kravitz) de Chinatown.
Um dia, seu vizinho, o punk londrino Russ (Matt Smith), anuncia sua partida iminente, deixando a Hank as chaves e um gato brigão chamado Bud, arrastando assim o amigo para o turbilhão do submundo criminal de Nova York. Ontem, um ex-atleta fracassado e alcoólatra preparava coquetéis e dançava em balcões de bar resistentes, e agora é forçado a correr sem olhar para trás, porque está sendo perseguido por verdadeiros psicopatas – a variável mais carismática, colorida e proativa do filme 'Caught in the Act'.

O papel de perseguidores no jogo de sobrevivência é atribuído a duplas (como se ainda estivéssemos falando de 'Noé') da metrópole americana multiétnica: judeus hassídicos – Shmulli (Vincent D'Onofrio) e Lipe (Liev Schreiber), e capangas russos – Pavel (Nikita Kukushkin) e Alexei (Yuri Kolokolnikov). Canções de Pavel e um jantar de Shabat com psicopatas cortam como um cinzel os clubes de jantar de Nova York e os encontros aconchegantes de rednecks – defensores da Segunda Emenda com uma espingarda à mão.
Em contraste com as conversas sobre uma América 'de borracha', Darren Aronofsky faz um filme que parece refutar a existência de comunidades multiétnicas acolhedoras. Em 'Caught in the Act', as pessoas não confiam umas nas outras e fazem bem, porque o principal plot twist é a traição.
Efeito colateral
Darren Aronofsky é o melhor diretor de atores da atualidade entre aqueles que chegaram ao mainstream. Até sua câmera tenta enfiar-se nas narinas, orelhas e boca distorcida pela emoção dos atores principais. Os personagens de Aronofsky são sempre vividamente escritos ou adaptados e, mais importante, magistralmente interpretados. Ele também é o melhor diretor para reavivar carreiras (comprovado por Brendan Fraser) e uma excelente escolha para atores que decidam visitar prestigiadas cerimônias de premiação.
Geralmente, o diretor colabora estreitamente com apenas dois a quatro atores, um dos quais é o eixo central. Foi assim nas filmagens de 'Réquiem para um Sonho', 'Cisne Negro', 'Pi' e todos os outros trabalhos não mencionados de Aronofsky. Em 'Caught in the Act', sua abordagem muda, e com ela o método. Austin Butler, claro, permanece sob observação atenta e intrusiva, mas é preciso controlar não só ele, não só Zoë Kravitz ou Matt Smith, mas também uma dezena de outros destinos na tela. O elenco é um instrumento complexo, e se Hank Thompson era perseguido por criminosos, Darren Aronofsky é alcançado pelo tempo.

A base do enredo do filme é o romance de Charlie Huston de 2004. Deixaremos isso a cargo dos leitores e nos concentraremos nos problemas do roteiro de 'Caught in the Act', problemas que são consequência da superlotação de personagens e enredo. Explicar a Hank e ao espectador o aparecimento na história de judeus de dois metros e russos mais compactos é possível, mas apenas com cinco minutos de conversa – um breve resumo dos eventos pelos próprios personagens. O que é ainda mais cômico: o culpado da 'festa', o narcotraficante russo que enviou seus 'touros' no encalço de Thompson, permanece fora de cena. À luz dessas circunstâncias, o final feliz do filme engana o espectador – o herói ainda é devedor de um maníaco autoritário e rico.
Um tiro no gênero
Cada filme de Aronofsky pode ser chamado de especial, ou seja, um evento, embora às vezes o significado desse evento seja determinado pelos cinéfilos muito mais tarde. 'Caught in the Act' não se tornou um evento e dificilmente algum dia conseguirá. É muito difícil repetir o destino de 'Fonte', quando atrás de você há um chiclete genérico de qualidade, mas típico, e as orelhas são puxadas por comparações lisonjeiras com o 'grande' Guy Ritchie.
'Caught in the Act' é uma incursão agradável e divertida no território criminal, mas um filme fraco de Darren Aronofsky. Daí vêm as comparações com diretores de categoria B e a busca meticulosa pelas razões do 'nascimento' deste filme.
Trailer:
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