
Matthew Goode como um detetive que não quer ser herói devolve a fé no noir moderno. 'Departamento de Casos Não Resolvidos' da Netflix é a ausência de deduções geniais, apenas profissionais cansados investigando casos arquivados no porão da delegacia.
Lembra daquela sensação de que um detetive britânico não te fazia bocejar já no terceiro episódio? 'Departamento de Casos Não Resolvidos' (Dept. Q) da Netflix traz de volta essa alegria quase esquecida. Aqui estão todos os ingredientes do sucesso: em vez dos heróis habituais — Matthew Goode, que não tenta agradar, mas assume imediatamente o papel do detetive mais desconfortável e controverso dos últimos anos; o criador do aclamado 'O Gambito da Rainha' Scott Frank como showrunner; a popular série de livros de Jussi Adler-Olsen como base. A série deixa claro desde os primeiros minutos: você não está diante de mais uma história sombria (embora escuridão não falte), mas de algo muito mais vivo e envolvente, que não te solta até o final.
Carl Mørck, ex-estrela do departamento, retorna ao trabalho após uma tragédia: seu parceiro está paralisado, um colega foi morto, e o próprio Carl é um emaranhado de culpa e irritação. Ele é enviado para um departamento especial que investiga casos antigos e empoeirados que ninguém quer resolver. Mas para Mørck, esses casos são uma maneira de sobreviver e, talvez, encontrar a si mesmo entre os esqueletos no armário dos outros. Ou se perder de vez — o que também não é uma má opção.

O trunfo principal da série é Matthew Goode, que finalmente conseguiu um papel à altura do seu talento. Seu Carl não filosofa sobre justiça nem dá lições de moral. Ele está apenas irritado, mal barbeado e olha para o mundo como se até a chuva escocesa o cansasse (e ele é inglês!). Goode não interpreta um 'herói sofredor' — ele é um, sem pedir um grama de simpatia. É o antípoda do detetive clássico: em vez de um gênio carismático, um profissional cansado que resolve casos não porque acredita na justiça, mas porque não sabe viver de outra forma.
Nesse sentido, a série lembra 'Slow Horses': aqui também os heróis não tentam ser melhores do que são, e o grupo é mais uma comunidade de pessoas que a vida jogou para escanteio do que um time dos sonhos. Mas enquanto os habitantes de Slough House têm o sarcasmo britânico característico e uma ironia coletiva, Dept. Q escolhe um tom mais sombrio e denso, onde mesmo os raros lampejos de humor são mais uma forma de não enlouquecer do que uma tentativa de aliviar o clima.

Comparando com o dinamarquês 'Mysterium' (especialmente 'Mysterium: O Início', que adaptou a mesma história), fica claro: o remake britânico não tenta copiar a frieza escandinava. Sim, a atmosfera é semelhante — os mesmos escritórios desconfortáveis, as mesmas pessoas quebradas, os mesmos casos que ninguém quer resolver. Mas enquanto o original dinamarquês construía o suspense no silêncio e no minimalismo gelado, 'Departamento de Casos Não Resolvidos' aposta nos conflitos internos e na tensão entre os personagens. No entanto, os fãs do noir escandinavo não ficarão desapontados: a escuridão, o desespero e a sensação de que a justiça é um luxo que ninguém pode pagar são mantidos na íntegra.
Entre os pontos negativos, a série às vezes peca por flashbacks arrastados e escuridão excessiva. Às vezes parece que os roteiristas têm medo de deixar o espectador respirar. Mas não há a sensação de que os personagens estão parados no tempo ou se transformam em clichês ambulantes. Cada um deles é uma história separada, e até os personagens secundários não se perdem em meio ao drama principal (por exemplo, é curioso observar como a psicóloga de Mørck tenta construir uma vida pessoal depois de conhecê-lo).

'Departamento de Casos Não Resolvidos' é uma série que faz você olhar para o gênero sob um novo ângulo. Matthew Goode aqui não é apenas bom — ele é incrivelmente bom, como se tivesse esperado a vida inteira por um roteiro assim. Se você ama noir, valoriza personagens complexos e vivos e não tem medo de que, depois de assistir, queira repensar suas visões sobre a moral, Dept. Q é seu bilhete para o melhor labirinto criminal deste ano. E sim, esperamos pela segunda temporada tanto quanto Carl Mørck espera por alguma esperança. Felizmente, ainda há muitos livros na série. E a esperança, como se sabe, morre por último.
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