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Ainda é possível encontrar nos cinemas a comédia romântica francesa 'Jane Austen Arruinou Minha Vida'. Nosso autor declara seu amor pelo gênero, pela escritora e por este filme incrivelmente adorável. E mal se contém para não redigir uma petição para...

Boas comédias românticas são raras hoje em dia. Houve alguns exemplos isolados nos últimos anos, como a adorável 'Rye Lane' ou o sentimental 'O Que o Amor Tem a Ver Com Isso?', mas o gênero está praticamente morto. No entanto, o filme 'Jane Austen Arruinou Minha Vida' não parece refletir isso. É um filme feito com compreensão dos cânones do gênero, certo conservadorismo e uma confiança interna como se dez ótimas comédias românticas fossem lançadas por ano, e o filme não tem medo de não encontrar seu público. E o público, claro, aparece.

Não é necessário achar que Jane Austen influenciou sua vida para apreciar este filme como comédia romântica, embora conhecer seus romances, claro, aprofunde a experiência do espectador. Apesar do título, Agathe, a protagonista, assim como o autor desta crítica, na verdade teve a vida significativamente melhorada por Austen. Agathe considera a escritora grandiosa porque ela pegou o romance contemporâneo e decidiu adicionar mulheres realistas. E isso foi, claro, um avanço.

Jane Austen Arruinou Minha Vida. Camille Rutherford, Laura Piani, filme, crítica
Cena do filme 'Jane Austen Arruinou Minha Vida'

No entanto, essa não é a única qualidade da prosa de Austen; caso contrário, suas obras seriam de interesse mais histórico do que literário. Parece-me que o principal em seus livros é a capacidade de combinar sinceridade e ironia. Austen ria muito da aristocracia rural, dos padres, das moças sonhadoras, dos homens que se levavam demasiado a sério (o amado Darcy é muitas vezes bastante cômico), mas ao mesmo tempo descrevia essa sociedade, em sentido amplo, de tal forma que, por um lado, entende-se por que se pode odiá-la, e por outro, também se entende o que se pode amar nela.

Todas as tramas de Austen, à primeira vista, são histórias de casamento. No entanto, o casamento no final de seus romances é mais o resultado de mudanças internas do que externas. Suas heroínas buscam principalmente não um marido, mas a si mesmas. A roteirista e diretora do filme, Laura Piani, transmitiu isso com bastante precisão: o filme é sobre a aspirante a escritora Agathe (Camille Rutherford), que há uns dez anos tenta e não consegue escrever algo que agrade a si mesma. Ela trabalha em uma livraria de antiguidades, cria enredos de romances e os abandona no meio do caminho, como, aliás, faz com muitas outras coisas na vida.

Seu amigo Félix (Pablo Pauly), com quem o relacionamento está sempre a um passo de se tornar romântico, envia um desses esboços para uma residência de escritores organizada pelos descendentes de Austen na propriedade onde ela viveu e trabalhou. Superando os medos, a francesa concordou em ir para a Inglaterra, onde foi recebida para uma carona por Oliver (Charlie Anson; 30 anos atrás, o papel seria de Hugh Grant) — um professor de literatura contemporânea ligeiramente arrogante, irônico e, à primeira vista, não muito atraente. Em suma, um personagem familiar a todos os leitores de Austen.

Charlie Anson, Jane Austen Arruinou Minha Vida
Cena do filme 'Jane Austen Arruinou Minha Vida'

Filho e herdeiro dos simpáticos aposentados que organizam a residência, ele não se orgulha de ser descendente da escritora, considerando-a uma autora profundamente secundária. Isso já é suficiente para não causar entusiasmo na romântica Agathe, que orienta sua vida pelos romances de Austen (seu favorito é 'Mansfield Park', mas ela se identifica com 'Persuasão'). Todos nós, no entanto, entendemos o que ela não entende: não se pode amar Jane Austen e não amar um homem cujo lugar na galeria de seus personagens está entre Darcy e Knightley (de 'Emma').

O filme está repleto de referências, de modo que a estadia da heroína na residência de Austen em momentos oportunos lembrará 'A Abadia de Northanger' (uma moça impressionável numa propriedade antiga), 'Emma' (passeios na floresta, dança sensual no baile, diálogos junto à lareira) e 'Persuasão' (a abnegação da heroína em relação às coisas que constituem o valor de sua vida). No entanto, o filme não é apenas uma colagem de trechos escolhidos de romances favoritos, mas também uma reflexão sobre o que é necessário para a criatividade. Sofrimento? Dor? Experiência? Confiança? O filme evita respostas totalmente banais, mas a lógica geral parece ser que pessoas alegres não escrevem romances. A heroína tem dificuldade em suportar a vida, mas é justamente a partir do sofrimento romântico que nasce sua prosa. A ideia não é nova — e em filmes excelentes isso foi explorado de forma mais séria — mas é digna.

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Apesar do interesse em reflexões sobre o propósito da arte, Laura Piani não leva as coisas demasiado a sério: seu filme é antes de tudo uma ótima comédia romântica, e depois um filme que dá o que pensar. E esta comédia romântica funciona em grande parte graças à química entre os protagonistas e à dinâmica original entre a heroína e seu melhor amigo. Rutherford e Anson discutem de forma convincente e dançam de forma fascinante, e o ator Pauly, no papel do melhor amigo, por um lado, sempre sugere algo mais, por outro, ronca de forma extremamente convincente e nada como um herói romântico.

Jane Austen Arruinou Minha Vida, crítica, Charlie Anson, Camille Rutherford, comédia romântica
Cena do filme 'Jane Austen Arruinou Minha Vida'

'Jane Austen Arruinou Minha Vida', assim como 'A Abadia de Northanger', é em grande parte uma história sobre como a leitura de romances de amor estabelece padrões irrealisticamente altos para o amor. Mas, assim como o livro de Austen, o filme mostra que as coisas não são tão simples. No final, os romances ensinaram a heroína não tanto a esperar demais, mas uma percepção especial da vida. E, assim como a heroína de 'A Abadia', Agathe acaba encontrando a felicidade não apesar de seu amor pela leitura, mas graças a ele. Como, aliás, também graças ao fato de que ainda existem lugares (e filmes) no mundo que sabem realizar (e filmar) um verdadeiro baile com trajes da Era Regency.