
Este ano completam-se duas décadas desde que o filme que se tornou cult para muitos chegou às telas – «Constantine: Senhor das Trevas». O filme de Francis Lawrence com Keanu Reeves no papel principal apresentou ao grande público um dos personagens mais ambíguos dos quadrinhos da DC e deixou uma marca notável no gênero do thriller místico.
Atmosfera sombria, anti-herói carismático, a eterna luta entre Céu e Inferno, apresentada sob a roupagem de um detetive noir – tudo isso garantiu ao filme uma longa vida nos corações dos espectadores. Mesmo vinte anos depois, as discussões sobre ele não cessam, e o exército de fãs só cresce, aguardando ansiosamente a continuação oficialmente prometida. Vamos então entender qual é a magia deste filme, como foi criado e por que John Constantine, o cínico fumante de capa, entrou tão firmemente no panteão dos heróis cinematográficos favoritos.
Das profundezas do Inferno para a telona: o espinhoso caminho de John Constantine em Hollywood
A história da aparição de John Constantine nas telonas é, por si só, um drama digno de uma história separada. O caminho das páginas dos quadrinhos da Vertigo até os estúdios de Hollywood foi longo e tortuoso, cheio de divergências criativas, trocas de diretores e busca pelo intérprete ideal para o papel principal.
Inicialmente, o personagem criado por Alan Moore, Steve R. Bissette e John Totleben era um loiro de Liverpool, um mago cínico da classe trabalhadora, cujo protótipo foi Sting. No entanto, Hollywood, como costuma acontecer, tinha seus próprios planos para o herói.

A ideia de adaptar as sombrias aventuras do exorcista surgiu no final dos anos 90. A produtora Lauren Shuler Donner, conhecida por seu trabalho na franquia «X-Men», viu potencial em «Hellblazer» – a série principal de quadrinhos sobre Constantine. O conceito inicial tendia para um terror clássico ao estilo de «O Exorcista», mas gradualmente se transformou em um blockbuster de maior escala. O roteiro foi reescrito várias vezes, e o nome do protagonista e o local da ação sofreram alterações: John se tornou americano, e as sombrias ruas de Londres foram substituídas pela Los Angeles banhada em néon.
Frank A. Cappello, que trabalhou no roteiro, admitiu que não tinha muita experiência em adaptar graphic novels, o que possivelmente levou a desvios tão significativos do cânone. O próprio Alan Moore, criador do personagem, tradicionalmente se distanciou da adaptação, não querendo ter nada a ver com ela.
O roteirista Frank A. Cappello sobre o trabalho na adaptação:
Eu disse a mim mesmo: não vou fazer uma adaptação literal do quadrinho, vou transmitir seu espírito. Constantine é antes de tudo um caráter, uma visão de mundo, não a cor do cabelo ou o sotaque. E me parece que conseguimos preservar o mais importante – seu conflito interno e seu olhar peculiar sobre o mundo.
A cadeira de diretor também ficou vaga por muito tempo. Entre os candidatos estava Tarsem Singh, que via Nicolas Cage no papel principal. No entanto, divergências com os produtores e a visão do estúdio para o projeto levaram à sua saída. No final, o diretor foi Francis Lawrence, para quem «Constantine» foi sua estreia em longa-metragem (anteriormente ele dirigia videoclipes para Aerosmith, Shakira, Justin Timberlake e outras estrelas). Foi ele quem insistiu na candidatura de Tilda Swinton para o papel do arcanjo Gabriel, o que se tornou uma das decisões de elenco mais marcantes e memoráveis.

A escolha de Keanu Reeves para o papel de John Constantine gerou reações mistas entre os fãs dos quadrinhos. Um moreno com sotaque americano pouco se parecia com seu protótipo britânico de cabelos claros. No entanto, Reeves, com sua dedicação característica, mergulhou no papel.
A produtora Lauren Shuler Donner sobre a escolha de Keanu Reeves:
Quando escolhíamos o ator para o papel de Constantine, precisávamos de alguém que pudesse transmitir esse cansaço da vida, cinismo, mas ao mesmo tempo força interior e até mesmo certa vulnerabilidade. Keanu se encaixou perfeitamente nesse conceito. Sim, ele não é um loiro de Liverpool como nos quadrinhos, mas ele conseguiu capturar a própria essência do personagem.
Segundo rumores, Reeves, que estava passando por uma tragédia pessoal, encontrou algo em comum na imagem do exorcista cansado da vida, eternamente fumante, que equilibrava na fronteira dos mundos. Dizem que ele manteve «diários espirituais» especiais durante as filmagens para sentir melhor seu personagem, e a capa perfeitamente escolhida – um atributo indispensável de Constantine – o ajudou a entrar completamente no personagem.

Keanu Reeves sobre seu personagem:
Constantine é um homem que conhece as regras do jogo, mas se recusa a jogar segundo elas. Ele vê mais do que as pessoas comuns, e isso é sua maldição. Gosto de seu cinismo, por trás do qual se esconde uma dor profunda e, curiosamente, esperança.
Os criadores do filme não buscaram uma adaptação literal, focando em transmitir o espírito do personagem e sua visão de mundo cínica. E, a julgar pela reação do público, eles conseguiram, ainda que ao custo de se afastar da fonte original.
Por trás da cortina de fumaça: fatos interessantes e histórias dos bastidores de «Constantine»
O set de filmagem de «Constantine» estava cheio não apenas de efeitos especiais e parafernália mística, mas também de detalhes curiosos que adicionam um charme especial ao filme. Alguns deles se tornaram de conhecimento público, outros permaneceram como histórias passadas de boca em boca.
Vamos começar pelo mais óbvio – os cigarros. John Constantine interpretado por Keanu Reeves fuma quase continuamente. Calcula-se que durante o filme ele fuma exatamente treze cigarros – um número, sem dúvida, simbólico e azarado. O próprio Reeves, sendo não fumante, suportou com dificuldade essa quantidade de «fumo» em cena. Dizem que após as filmagens, ele não conseguia se livrar do gosto do tabaco por muito tempo. Curiosamente, para os close-ups em que Constantine coloca o cigarro na borda da mesa, foi usado um cigarro de adereço do tamanho de um charuto, filmado a uma grande distância para criar a ilusão de tamanho normal.

A solução visual do Inferno no filme é uma das mais memoráveis. Essas paisagens queimadas e em decomposição, envoltas em calor eterno, foram criadas sob a impressão de fotografias de testes nucleares, em particular, da onda de choque que segue a explosão. Isso deu ao Inferno uma aparência única e verdadeiramente assustadora.
As santas granadas de mão que Constantine usa para combater as criaturas das trevas têm uma história de origem engraçada. Os criadores do filme admitiram que na verdade eram enfeites de Natal comuns, cheios de água para dar peso e efeito.
As tatuagens nos braços de John Constantine são o símbolo alquímico do Rei Vermelho, que, segundo as crenças, protege seu portador. Em cenas cortadas, era possível ver outros símbolos alquímicos no corpo do herói, particularmente nas costas.

Não faltaram contratempos no set. Rachel Weisz, intérprete do papel de Angela Dodson, na cena em que sua personagem é afogada em uma banheira para viajar ao Inferno, quase se afogou de verdade. A atriz contou que em certo momento começou a engasgar, mas, felizmente, tudo acabou bem. Para melhor se integrar ao papel de uma detetive policial que enfrenta o sobrenatural, Weisz visitou um necrotério antes das filmagens.
Até o nome do filme tem sua história. Inicialmente, o projeto se chamava Hellblazer, como a série de quadrinhos. No entanto, para evitar confusão com o filme «Hellboy: O Herói do Inferno» (2004) de Guillermo del Toro, que estava sendo lançado na mesma época, o nome foi mudado para «Constantine». A adição de «Senhor das Trevas» (no original o filme se chama simplesmente Constantine) é uma invenção dos localizadores para alguns mercados, incluindo o russo, provavelmente para dar mais epicidade.

A frase memorável «Papataín natín Silá!», dita pela garota possuída no início do filme, rastejando pelo teto, não é um conjunto aleatório de sons. Em tagalo (uma das línguas das Filipinas), significa: «Vamos matar todos eles!»
E mais um fato engraçado relacionado à estreia: dizem que na primeira exibição do filme na cidade norueguesa de Bergen, exatamente 666 pessoas compareceram ao cinema local. Acaso ou coincidência diabólica – decida você mesmo. Mas esses detalhes apenas adicionam misticismo a um filme já enigmático.
Entre o Céu e o Inferno: ressonância cultural e amor do público por «Constantine»
«Constantine: Senhor das Trevas» chegou às telas em um momento ambíguo para as adaptações de quadrinhos. O gênero estava apenas ganhando força, e cada projeto desse tipo se tornava um evento, gerando discussões acaloradas. O filme de Francis Lawrence não foi exceção. Os críticos o receberam com frieza, acusando-o de se afastar do cânone, excesso de escuridão e roteiro irregular. No entanto, o público, especialmente no espaço pós-soviético, recebeu o filme com um carinho surpreendente. Qual a razão dessa dissonância e qual foi a influência cultural do filme?
Uma das principais razões para o amor do público é, sem dúvida, a própria figura de John Constantine na interpretação de Keanu Reeves. O exorcista cansado, cínico, mas não desprovido de um charme peculiar, forçado a lutar contra demônios não tanto para salvar o mundo, mas para salvar sua própria alma, mostrou-se próximo de muitos. Sua imagem de «anti-herói relutante», equilibrando-se na fronteira, agradou ao público, cansado de salvadores impecáveis da humanidade. Reeves, com sua melancolia característica e capacidade de transmitir a dor interior do personagem, encaixou-se perfeitamente nesse papel, apesar das diferenças externas em relação ao protótipo dos quadrinhos.

O estilo visual do filme também desempenhou um papel importante. A Los Angeles sombria, quase monocromática, onde a chuva parece nunca parar, a atmosfera opressiva de presença sobrenatural, os efeitos especiais impressionantes (para a época) e o design de demônios e anjos – tudo isso criava um mundo único no qual se queria mergulhar. A cena da descida de Constantine ao Inferno e sua subsequente «caminhada» por ele ainda é considerada uma das mais fortes e memoráveis do gênero.
Francis Lawrence sobre o estilo visual do filme:
Eu não queria fazer um típico filme de terror. Queria criar um mundo onde o sobrenatural existe lado a lado com o cotidiano, onde demônios podem andar entre nós, e anjos nem sempre são bons. Visualmente, deveria ser algo entre o noir e a fantasia urbana contemporânea.
O filme também abordou temas filosóficos profundos: a natureza do bem e do mal, o livre-arbítrio, o preço da redenção, a fé e o ceticismo. Os diálogos de Constantine com Gabriel, Lúcifer e outros personagens frequentemente iam além do simples entretenimento cinematográfico, fazendo refletir sobre questões eternas. Essa profundidade, ainda que apresentada sob a roupagem de um filme de ação místico, também encontrou eco no público.
Tilda Swinton sobre o papel do arcanjo Gabriel:
Gabriel é um ser desprovido de humanidade, mas paradoxalmente obcecado por humanos. É uma criatura que nunca experimentou dor, medo, dúvida – tudo o que nos torna humanos. E nisso reside sua tragédia. Foi interessante para mim interpretar um ser tão distante, quase alienígena.

Apesar do ceticismo inicial dos críticos, com o tempo «Constantine» adquiriu status cult. Em grande parte, isso se deveu ao carisma de Keanu Reeves, à atmosfera única e aos personagens secundários memoráveis, como Chas Kramer (Shia LaBeouf), Papa Midnite (Djimon Hounsou) e, claro, Lúcifer na interpretação genial de Peter Stormare. Sua aparição no final é uma verdadeira masterclass de atuação, uma cena que é revista e citada até hoje.
Peter Stormare sobre sua interpretação de Lúcifer:
Decidi que meu Lúcifer seria elegante, quase cavalheiresco, mas com essa fúria e ressentimento ocultos. Ele não grita, não gesticula – não precisa disso. Sua força está na calma e na confiança. E, claro, no terno branco – insisti nisso. O Diabo de branco é inesperado e simbólico.

A influência cultural do filme também se manifestou no fato de ter aquecido o interesse pela fonte original – os quadrinhos Hellblazer – e por outras obras do gênero de fantasia urbana e noir místico. A imagem de Constantine apareceu repetidamente em outras adaptações (por exemplo, na série homônima de 2014) e em projetos animados da DC, mas para muitos, a versão de Keanu Reeves continua sendo a de referência.
Hoje, vinte anos depois, «Constantine: Senhor das Trevas» continua tão fresco e envolvente quanto antes. Ele não perdeu seu charme sombrio e ainda é capaz de cativar o espectador. O anúncio de uma sequência com o retorno de Reeves e Lawrence causou uma onda de entusiasmo entre os fãs, o que prova mais uma vez que a história de John Constantine está longe de terminar, e seu lugar é em algum lugar entre o Céu, o Inferno e os corações dos fãs dedicados.
O legado do exorcista de capa: por que «Constantine» ainda está conosco?
Vinte anos é um prazo sólido para qualquer filme. Muitos filmes outrora populares desaparecem da memória com o tempo, dando lugar a novos sucessos. Mas «Constantine: Senhor das Trevas» não é um deles. Este filme não apenas resistiu ao teste do tempo, mas parece ter se tornado ainda mais relevante e amado. Qual é o segredo de sua longevidade?
Talvez seja a combinação única de gêneros: thriller místico, detetive noir, parábola filosófica e até elementos de comédia negra – tudo isso se entrelaçou harmoniosamente em um todo. Ou o carisma de Keanu Reeves, que criou uma das imagens mais memoráveis de sua carreira. Ou talvez os temas eternos que o filme aborda – a luta entre o bem e o mal, a busca pela fé, o preço da redenção e a solidão do homem diante da eternidade.
«Constantine» não tem medo de ser sombrio, cruel e até cínico. Ele não oferece respostas simples e não divide o mundo em preto e branco. Seus heróis são ambíguos, seus motivos são complexos e suas ações frequentemente geram controvérsias. E é essa ambiguidade, essa honestidade para com o espectador, que torna o filme tão atraente.

Duas décadas depois, continuamos a olhar nos olhos cansados de John Constantine, tentar decifrar os enigmas de seu passado e acompanhar com o coração na mão seus jogos perigosos com as forças do Inferno e do Céu. Citamos seus comentários mordazes, admiramos sua resiliência e nos solidarizamos com sua tragédia. E, claro, aguardamos ansiosamente a continuação, esperando mergulhar novamente nesse mundo sombrio, mas tão sedutor.
«Constantine: Senhor das Trevas» é um fenômeno cultural que deixou uma marca notável no cinema e nos corações de milhões de espectadores. E enquanto existirem demônios a serem exorcizados e almas pelas quais vale a pena lutar, a história de John Constantine continuará. Afinal, como ele mesmo disse uma vez: «Bem-vindo à minha vida». E nós, espectadores, aceitamos esse convite de bom grado, repetidas vezes.
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