
Em 1º de maio, entrou em reexibição o drama de ficção científica de Makoto Shinkai «Além das Nuvens» — uma referência em longa-metragem para futuros projetos cult. O que é essa torre que corta o céu, o que a URSS tem a ver com isso e onde está aquele...
O filme «Além das Nuvens» foi lançado em 2004, sendo a estreia em longa-metragem do mestre. O estilo de animação único de Makoto Shinkai foi criado no início de sua carreira. Aqui estão aquelas nuvens, e paisagens que parecem congelar o tempo. «Além das Nuvens» parece um grande esboço com todas as principais características, do qual no futuro surgirão «Your Name» e «Suzume». Só que sem o mundo futurista ao estilo de «Evangelion».

Apesar de o anime ser calmo, ele nos mergulha no fluxo de eventos de forma vigorosa. De estudantes sonhadores passeando após as aulas a mundos paralelos e guerra universal é apenas um passo. Não há muito tempo para descansar. Shinkai cria uma história centrada em três estudantes que sonham em conquistar uma torre misteriosa.
Aqui o espectador descobre um universo alternativo onde, após a Segunda Guerra Mundial, o Japão foi dividido entre os soviéticos e os EUA. Os primeiros construíram em seu território uma estrutura cujo topo vai muito além das nuvens, e o propósito de tal gigante é incompreensível para todos. Mas o desconhecido não assusta Hiroki Fujisawa, Sayuri Sawatari e Takuya Shirakawa — os adolescentes sonham em voar até a torre. E os ajudará nisso uma aeronave que os heróis constroem em um hangar. No entanto, os sonhos dos personagens desmoronam quando Sayuri desaparece por três anos sem dar notícias.
«Além das Nuvens» tenta absorver um fluxo interminável de temas. Aqui há a agenda política com a terrível URSS, o pano de fundo antiguerra, o amor, a distância, a busca por si mesmo e a solidão. São muitos pensamentos para um filme de apenas 90 minutos. A narrativa sofre com isso, pois toda essa abundância de temas precisa ser encaixada no estilo calmo do diretor, resultando em algo muito confuso.

Já em seu trabalho anterior, «Vozes de uma Estrela Distante», Shinkai falava sobre sentimentos à distância. O animador não poupou os heróis e os separou literalmente pelo espaço. Não é mais apenas viver em cidades diferentes ou ir para um lugar onde não pega sinal. Para receber uma carta tão esperada, os personagens esperam anos.
Assim, em «Além das Nuvens», os amantes têm que se separar. Só que agora seu inimigo não é a órbita, mas o sono em que Sayuri cai. Shinkai reflete sobre o tema dos universos paralelos, usando pilares da física quântica. E se os sonhos que vemos são outros mundos onde os eventos acontecem de forma semelhante aos reais? Mas isso já é algo no estilo de Nolan.
Quando Sayuri desaparece, Hiroki parece congelar. O herói perde os sonhos e vagueia pela Tóquio de milhões, mas não quer falar com ninguém. Isso se assemelha ao mundo em que a garota habita. Ela está sozinha em uma cidade vazia, de onde não há saída. O mesmo acontece com Hiroki, só que em um lugar densamente povoado. Tudo isso se assemelha à realidade do próprio diretor. Após se mudar para Tóquio, o animador podia vagar sozinho por horas, porque ainda não tinha encontrado amigos e conhecidos.

Se olharmos para outros trabalhos iniciais de Makoto Shinkai, podemos dizer que o tema da solidão e da perda estava com o mestre desde o início de sua carreira. Seja em «Ela e Seu Gato», onde a heroína, embora entre em depressão, encontra forças para lidar e perceber que ama este mundo. Ou em «Vozes de uma Estrela Distante», onde os personagens experimentam separação e perda, mas ainda acreditam que um dia se encontrarão.
Vale dizer que, além do pesado enredo romântico, Shinkai conduz como leitmotiv o tema do sonho infantil e agora sua perda. Aqui também podemos incluir o problema do amadurecimento. Os sonhos de superar o topo da torre em um avião caseiro desmoronam quando os heróis deixam de ser estudantes. Mesmo que no final os personagens consigam superar o topo da torre, tudo isso é acompanhado por uma explosão iminente, pois os heróis se tornaram uma espécie de OVNI para os soviéticos, o que dá carta branca para atirar sem aviso. Não seria isso uma metáfora para o fim da infância e do sonho infantil inatingível? Ou talvez seja um sinal de que todos os objetivos foram alcançados? Quem sabe.
O anime «Além das Nuvens» absorveu os principais pilares da obra de Makoto Shinkai, sobre os quais se sustentarão seus futuros trabalhos lendários. O diretor sonha com o espaço e reflete sobre temas de amor e solidão, presentes em cada um de seus filmes. Mas Shinkai não seria Shinkai se tivesse criado sua estreia sem tudo isso, não é mesmo?
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