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Nos grandes ecrãs ainda é possível ver o drama da realizadora indiana Payal Kapadia, que ganhou o grande prémio no último Festival de Cinema de Cannes. Contamos o que o azul de Mumbai esconde e onde, afinal, procurar a luz.

Nas ruas de Mumbai, há um fluxo contínuo de rostos, histórias e destinos. A princípio, o quadro acolhe a todos sem distinção, mas logo do caleidoscópio colorido emergem três heroínas: Prabha (Kani Kusruti), Anu (Divya Prabha) e Parvati (Chhaya Kadam). Todas as três são enfermeiras. Após o trabalho, elas precisam atravessar o denso crepúsculo azul para chegar em casa. Enquanto isso, a câmera continua observando impassível as marés e refluxos da corrente urbana da vida.

Noturno no Azul: Crítica do Filme 'Tudo que nos Parece Luz'
Cena do filme 'Tudo que nos Parece Luz'

A própria cidade, Mumbai, é um dos personagens do filme. O diretor mergulha o espectador nas selvas pulsantes da metrópole com métodos de cinema não ficcional. O que não surpreende — Payal Kapadia tem dois documentários em seu currículo. Ela não cria sua Mumbai, mas a observa, e essa admiração pela cidade viva lhe dá alma. A música aqui nasce do metrônomo do rangido surdo do trem, da construção incessante e, principalmente, do zumbido das vozes que criam uma melodia ao ritmo industrial.

Noturno no Azul: Crítica do Filme 'Tudo que nos Parece Luz'
Cena do filme 'Tudo que nos Parece Luz'

Mas nesse coro, nem todos conseguem encontrar seu lugar: a cidade se expande, cresce como um organismo vivo, rejeita o que é desnecessário. Assim, por exemplo, o destino de Parvati se quebra: ela é despejada do apartamento onde viveu por vinte anos. O marido da mulher morreu e levou consigo o conhecimento de onde estavam os documentos de sua casa. E sem papel — bem-vinda à rua. O país honra a tradição, mas a burocracia ainda é mais forte. Mas as outras heroínas também precisam sobreviver neste lugar, mesmo que não percam suas casas.

Mumbai esconde em seu labirinto Anu e Shiaz (Hridhu Haroon), cujo amor vive com o motivo de 'Romeu e Julieta'. Os 'Capuletos', que professam o hinduísmo, enviam à filha fotos de pretendentes, sem suspeitar que Anu não pretende se casar. Os 'Montéquios' não deixam o filho sem supervisão: a família muçulmana ortodoxa de Shiaz não aceitaria uma noiva tão emancipada, ainda mais de outra religião. Encontros acústicos tocantes levam os heróis à questão de seu próprio futuro, que até recentemente lhes parecia muito distante. Nas palavras de Anu, surgem 'liberdade' e 'fuga' decididas. Shiaz não possui tal coragem, mas confia em sua amada. Na amiga Prabha, tais intenções causam irritação: 'Do destino não se foge'.

Noturno no Azul: Crítica do Filme 'Tudo que nos Parece Luz'
Cena do filme 'Tudo que nos Parece Luz'

Afinal, a própria Prabha nunca tentou fugir do destino. Parece que foi o destino que fugiu dela. A heroína foi dada em casamento muito jovem a um estranho. Mas sem ter tempo de experimentar a vida de mulher casada, ela ficou sozinha — o marido foi para a Alemanha trabalhar. Prabha congelou na espera enquanto romances, construção de família e a própria vida passavam por ela.

Em sua melancolia, não há amor perdido, há apenas 'dever' e 'moralidade' fundamentais — na forma como ela os entende. Sua libertação será incomum. Na costa de uma pequena vila, para onde Prabha ajudou Parvati a se mudar, um barco encalhará; no barco, haverá um homem inconsciente. Prabha o ajudará a recobrar os sentidos, para depois reconhecê-lo como seu marido. Claro, não é seu cônjuge. É apenas uma fantasia, a materialização do desejo mais forte. Mas mesmo esse encontro ilusório a ajudará a se libertar, a renunciar ao passado que, na verdade, também era uma quimera.

Noturno no Azul: Crítica do Filme 'Tudo que nos Parece Luz'
Cena do filme 'Tudo que nos Parece Luz'

Nessa entonação agridoce do filme reside sua magia. Não uma saudade pegajosa em que se afunda e perece, mas uma melancolia sutil que se dissolve no cotidiano. Pequenas tragédias estão escondidas aqui atrás de uma névoa azul com cheiro de roupa de cama limpa, no ar eletrificado antes da tempestade. 'Tudo que nos Parece Luz' é uma pequena cozinha em um apartamento alugado, abarrotada de caixas de temperos, frutas secas, toalhas e inúmeras bugigangas que dão vida a este lugar.

Nos últimos dois anos, o cotidiano no cinema tem se tornado cada vez mais objeto de observação, influenciando a entonação e a estrutura do filme. De uma repetição compulsiva de situações padronizadas, ele se transforma em um fluxo infinito, cheio de beleza especial. Se em David Fincher o cotidiano se escondia nas emendas de montagem ou se transformava em ondulação com sinal de 'menos', em Wim Wenders a rotina substitui o enredo, ditando a dramaturgia quase sem intervenções externas. Se em Darren Aronofsky ele se estetiza, expressando o estado psicológico interno do herói, Celine Song não constrói o cotidiano, liberando o poder de sua eloquência. Payal Kapadia também não tenta domar o que se forma espontaneamente. Ela libera espaço para a contemplação, permitindo que as coisas e o ambiente existam por si mesmos.

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Cena do filme 'Tudo que nos Parece Luz'

A segunda parte do filme dá às heroínas esperança de uma vida diferente. Na vila para onde Parvati se mudou, o rugido da chuva se transforma no murmúrio das ondas. O azul é substituído pelos trópicos. A bateria eletrônica da cidade não marca mais o ritmo; em vez dela, uma canção de ninar da natureza selvagem. Ao deixar a cidade, as mulheres se libertam de sua influência. Mas a observação do cotidiano permanece; só que em vez das paredes brancas da clínica, há uma casa de madeira macia, e em vez do mosaico urbano, uma praia deserta. Quando as ilusões da cidade foram lavadas pelas chuvas, as três mulheres puderam se aproximar verdadeiramente. A franqueza com os outros leva inevitavelmente à franqueza consigo mesmas. As heroínas ajudam umas às outras, ao mesmo tempo que se aceitam.

'Tudo que nos Parece Luz' não busca a beleza, mas a encontra facilmente. Brilha no apartamento escuro um pequeno caderno de poemas. Brilha o rosto de Anu sob o céu baixo de tempestade. Brilha o azulejo padronizado na cozinha do apartamento alugado. Por dentro, brilha o próprio quadro, não importa o que contenha. A própria vida pode se tornar luz, com todo o seu caleidoscópio de pequenas coisas, basta olhar com atenção.