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Chegou em formato digital 'O Lobisomem', novo terror do diretor do aclamado 'O Homem Invisível'. Sobre o que resultou essa nova tentativa de adentrar o território dos lobisomens — em nossa resenha.

Na trama do filme 'O Lobisomem', Blake (Christopher Abbott) recebe a notícia de que seu pai, desaparecido há muitos anos nas florestas do Oregon, foi finalmente declarado morto. Ele decide viajar com a família para a cabana de caça onde passou a infância. No caminho, sofrem um acidente e o homem é mordido por uma criatura desconhecida. Fugindo do local do acidente, ele, sua esposa Charlotte (Julia Garner) e sua filha Ginger (Matilda Firth) se trancam na casa em ruínas. Logo Blake percebe que foi infectado pela chamada 'febre da montanha', que as tribos locais chamavam de 'rosto de lobo'.

Cena do filme 'O Lobisomem'
Cena do filme 'O Lobisomem'

Em 2004, dois formandos de uma escola de cinema de Melbourne conseguiram com dificuldade financiamento para transformar seu trabalho de conclusão de curso em um longa-metragem de terror. Assim nasceu a franquia 'Jogos Mortais', que fez sucesso comercial e conquistou o público. Posteriormente, James Wan, diretor do filme, daria início às séries cinematográficas 'Sobrenatural' e 'Invocação do Mal', tornando-se um cineasta e produtor de terror mundialmente famoso. Já Leigh Whannell, roteirista fixo de 'Jogos Mortais' e 'Sobrenatural', teve que esperar muito mais por seu 'momento de glória' pessoal como diretor.

Ele só entrou no centro das atenções em 2018, quando o filme de ação sci-fi 'Upgrade' foi lançado. O filme foi tão frequentemente comparado a 'Venom', naturalmente em desfavor deste último, que isso já se tornou um meme e um ditado popular. O próximo projeto de Leigh Whannell foi o techno-thriller 'O Homem Invisível', onde o enredo clássico de H.G. Wells foi modificado sob a influência do movimento #MeToo. A ficção científica com um comentário atualizado não só agradou aos críticos, mas também arrecadou bem nas bilheterias. E se a Covid-19 não tivesse afetado os cinemas, esse valor poderia ter sido ainda maior.

Seu novo trabalho — um remake do clássico terror de George Waggner 'O Lobisomem' — inicialmente deveria fazer parte do 'Universo Sombrio' da Universal, mas depois o estúdio abandonou esses planos. No entanto, mesmo considerando o fato de que o filme se tornou uma obra independente, ele não escapou do destino de todas as tentativas anteriores de lançar essa franquia.

Cena do filme 'O Lobisomem'
Cena do filme 'O Lobisomem'

O problema central do filme reside no fato de que Leigh Whannell não conseguia decidir o que estava filmando — um entretenimento de gênero ou uma isca sobrecarregada de significados para críticos. Na tentativa de pegar dois coelhos com uma cajadada só, 'O Lobisomem' não alcança nenhum dos dois. Tanto o público quanto a imprensa não apreciaram o filme. O truque que o diretor fez há cinco anos em 'O Homem Invisível' não funcionou uma segunda vez.

A interpretação do filme pode ser feita de várias maneiras. Nesse aspecto, não se pode dizer que seja completamente desinteressante. O personagem de Christopher Abbott é a personificação da 'nova masculinidade'. Blake é um pai e marido reflexivo, que não esconde seus sentimentos, gosta de cuidar da casa e passar tempo com a filha. Acima de tudo, ele tem medo de se tornar como seu pai, que tinha um temperamento rude e uma abordagem militar na educação. Por uma ironia do destino, ele terá que se tornar exatamente assim para proteger seus entes queridos.

A personagem de Julia Garner, por sua vez, é o oposto completo do marido sensível e caseiro. Ela prefere o trabalho, enquanto a família fica em segundo plano. Encontrando-se em condições extremas, quando a vida de seu filho está em jogo, a mulher é forçada a ativar o instinto materno.

Cena do filme 'O Lobisomem'
Cena do filme 'O Lobisomem'

É improvável que 'O Lobisomem' seja um apelo ao retorno da distribuição tradicional de papéis, onde o homem é o 'protetor' e a mulher a 'guardiã do lar'. Pelo menos, esse motivo não combina com o filme anterior do diretor, no qual a protagonista foge da escravidão doméstica. Na verdade, a mutação lupina metaforicamente remete não ao despertar da masculinidade, mas à manifestação da hereditariedade, algo que o personagem de Abbott tanto temia.

O principal mistério do filme: será que Blake conseguirá preservar os traços individuais de sua personalidade e não se tornar uma cópia exata de seu pai? A atitude dialética de Leigh Whannell em relação à posição dos homens no mundo moderno abre um vasto espaço para todo tipo de interpretação. Então por que o filme, em sua maioria, não agradou aos jornalistas ocidentais? O fato é que os críticos também são espectadores, que não podem ser alimentados apenas com significados.

Cena do filme 'O Lobisomem'
Cena do filme 'O Lobisomem'

Infelizmente, 'O Lobisomem' é completamente insustentável como terror. Claro, pode-se elogiar a novidade pelas atuações e pela maquiagem decente, mas seus méritos terminam aí. A única parte realmente tensa e assustadora foi o prólogo da história, enquanto a ação principal é insípida e estereotipada. Dois terços do filme são uma perseguição na escuridão total com uma fonte de luz quase imperceptível.

Algumas cenas do filme não são nada mais que uma referência ao quadro 'Quadrado Negro' de Malevich, pois é tão difícil enxergar algo nessa penumbra que dá vontade de uivar de raiva. Considerando o que Leigh filmou antes, a escassez visual do novo trabalho é, talvez, a maior surpresa deste último. 'O Lobisomem' não tem mais nada para surpreender vocês, espectadores, e especialmente os fãs do diretor.

Cena do filme 'O Lobisomem'
Cena do filme 'O Lobisomem'

Esperamos que essa passagem confusa sobre valores familiares e homens-lobos não destrua a carreira do cineasta, e que ele não deixe a colina de Hollywood com um 'bilhete de lobo'. Em meio ao fracasso de bilheteria do filme, a notícia de que a Universal vai financiar 'O Lobisomem' de Robert Eggers soa como uma zombaria cáustica contra Whannell, que outrora prometia.

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