
O drama histórico de Miguel Gomes, “Grand Tour”, será lançado nos cinemas russos em 13 de fevereiro de 2025, mas conseguimos conhecer um pouco antes o vencedor do Festival de Cannes. Neste material, falaremos sobre a grande viagem e entenderemos por...
A vida humana é um conjunto de situações caóticas. Elas podem ser chatas, tristes, simples ou complexas. E se tudo o que acontece ao nosso redor nem sempre é lógico e consciente, por que o cinema sobre a vida deveria ser compreensível? “Grand Tour” de Miguel Gomes é a prova direta disso. Mas, apesar de toda a complexidade do filme, ele ganhou o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes.

A trama se passa em 1918 na Birmânia Britânica. O funcionário público Edward (Gonçalo Waddington) está noivo de Molly (Cristina Alfaiate) há anos, mas o casamento nunca acontece. Toda vez o herói foge, e agora ele teve que atravessar quase toda a Ásia só para não ficar no altar. Mas sua noiva não é uma garota tímida dos romances do século XIX — ela está pronta para encontrar e seguir Edward nessa grandiosa turnê. Para Molly, a viagem parece um jogo de pega-pega, baseado na fé no amor.
“Grand Tour” é uma mistura de imagens de arquivo filmadas por Gomes em sua viagem pessoal pela Ásia e filmagens em estúdio em Lisboa. Por isso, as imagens em preto e branco do século XX são facilmente intercaladas com episódios coloridos com atributos modernos, como jeans rasgados ou motos novas.
Os vídeos da viagem pessoal serviram de base para a criação do enredo. O roteiro do filme foi escrito após o retorno do diretor para casa. Junto com a equipe, ele montou o filme como uma colcha de retalhos, preenchendo os intervalos da filmagem pessoal com uma história de amor inventada. A costura de tudo foi o livro de Somerset Maugham “O Cavalheiro na Sala de Estar”.
Este livro é sobre uma viagem pelo Sudeste Asiático. Neste livro, há duas páginas onde ele diz: “Conheci esse cara, um britânico, na Birmânia. E ele me contou essa história antes de se casar.” E essa história é parecida com o que você vê no filme. Esse cara, aparentemente, estava noivo há muitos anos, mas por algum motivo isso nunca aconteceu. E depois de sete anos de noivado, ela veio, e ele a esperava no cais em Rangum, e ele ficou com medo. E ele fugiu. Ele chegou a Cingapura, e lá já o esperava um telegrama dela dizendo: “Tudo bem, querido, eu entendo tudo e já estou indo.”
O filme é dividido em duas partes. Primeiro vemos a história de Edward e suas tentativas de fugir da noiva, e depois a viagem de Molly. Gomes mostra os eventos de diferentes ângulos, tornando o que acontece menos cômico. Se do lado do noivo as coisas são engraçadas, quando a noiva aparece na tela, pensamentos sobre autoengano e amor obsessivo causam confusão. A questão é que “Grand Tour” não é sobre amor, mas sobre fé.

Molly acredita que Edward a ama, que ela encontrará o noivo e se casará. Edward, ao contrário, não acredita no sucesso da união, os sentimentos de Molly lhe são estranhos, ele tenta fugir dela. Mas mesmo aqui Gomes faz um paralelo com o espectador. Quando assistimos “Grand Tour”, entendemos que é cinema. O diretor mostra isso deliberadamente. Fala-se do século XX, mas há inserções da modernidade, e no final mostram a equipe de filmagem, deixando claro que não é sério, que é uma piada.
O espectador tem que acreditar na história que é mostrada como ficção. As regras são anunciadas, e devemos jogar conforme elas. Gomes não usa esse recurso pela primeira vez. Em “Diários de Tsugua”, no final do filme, toda a equipe de filmagem entra em cena e discute como filmarão o filme.
Todos os deslocamentos são ligados por vozes em off. A ideia surgiu na fase de montagem, quando se descobriu que “Grand Tour” precisava de algo mais. Dependendo do país onde os personagens estão, o idioma da voz em off muda. Assim, as culturas e suas diferenças são mostradas. A propósito, a personagem Niok fala francês, o que nos remete à esposa francesa de Gomes.

O título do filme é uma viagem em todos os sentidos. Literalmente, quando se trata dos deslocamentos dos personagens; figurativamente, quando falamos da metáfora da viagem da alma humana e seu crescimento ou declínio moral. Além disso, o filme é apresentado como um documentário, e documentário não é uma viagem? A imagem verdadeira do lugar e do cotidiano, com a transição de local para local.
A turnê dos heróis não leva a um final feliz: o encontro que tanto esperamos não está destinado a acontecer. E o que poderia ter sido fica para a imaginação do espectador. Molly e Edward têm o mesmo final. Os heróis, separados um do outro, deitam-se no chão e fecham os olhos. Mas não é um belo desfecho para uma história sobre a impossibilidade do encontro?
Aqui, lembremos novamente da equipe de filmagem na última cena. A história termina, a música toca, e a Molly morta abre os olhos. O desejo de Gomes de mostrar que tudo o que acontece na tela é apenas um filme, de certa forma, é uma tentativa de reviver a heroína e dar fé ao espectador em um final feliz.

“Grand Tour”, apesar de toda a confusão, é uma colagem visual incrível. E a incompreensibilidade do filme é um reflexo direto da vida real e da confusão dos personagens principais. Eles mudam de local e tentam entender seus sentimentos e pensamentos. Uma criação surpreendente e atípica para o espectador de massa, que descreve com tanta precisão toda a complexidade da estrutura dos sentimentos e do mundo.
“Grand Tour” transita do passado para o presente, como uma pessoa que salta entre memórias. Existe em um espaço temporal, mas mentalmente passa para outro e sente nostalgia. O filme é como uma mistura de sonho e realidade, onde não está claro o que é ficção, o que é mentira e o que é verdade.
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