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Este ano, 'Ella Encantada' completou 20 anos desde seu lançamento. Contamos sobre as metáforas e procuramos inconsistências lógicas no filme de Tommy O'Haver.

Em 2004, estreou nos cinemas o filme Ella Encantada, de Tommy O'Haver, mais uma releitura livre da história da Cinderela. Madrasta má, meias-irmãs desagradáveis e um príncipe encantado. O que mais uma história de conto de fadas precisa? Racismo, feminismo e escravidão. Tudo o que se encaixa perfeitamente no espírito da pauta moderna.

O filme é baseado no romance de fantasia homônimo de Gail Carson Levine, que foi bem recebido pelos leitores na época, ao contrário da adaptação cinematográfica. Apesar da encantadora Anne Hathaway, em 2004, 'Ella Encantada' foi um fracasso de bilheteria.

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Cena do filme 'Ella Encantada'

Na primeira infância, uma fada presenteou a pequena Ella com o 'dom da obediência' — a heroína faz tudo o que mandam. Após a morte da mãe, o pai se casou novamente, e na casa apareceram uma madrasta má e duas irmãs desagradáveis. Elas rapidamente descobrem o segredo de Ella e começam a usá-lo a seu favor, forçando a garota a ser uma escrava pessoal, que pode roubar joias do mercado, buscar flores e romper uma amizade de longa data com uma amiga.

Não é surpresa que Ella se canse desse tratamento. Ela parte em busca da fada Lucinda para quebrar a maldição e viver em paz. No caminho, conhece o elfo Slannen, que sonha em ser advogado, e sequestra o príncipe Char. Em uma companhia unida, eles viajam pelo reino e observam a discriminação contra criaturas mágicas.

Anne Hathaway em 'Ella Encantada'
Cena do filme 'Ella Encantada'

Ella não se parece com a Cinderela no sentido tradicional. Ela não é tímida, nem modesta, não fica quieta esperando ser resgatada das garras da madrasta má. A heroína tem uma posição cívica ativa, vai a protestos, sabe se defender e responder com firmeza, mas se torna uma 'Cinderela' por causa de seu 'dom da obediência'.

Não é difícil para ela ir pessoalmente resolver os problemas, então a heroína parte calmamente em busca da fada Lucinda para se libertar do feitiço. O 'dom da obediência' de Ella é uma metáfora para pessoas que têm medo de dizer 'não'. Ela equilibra perfeitamente na fronteira entre 'rebeldia' e 'submissão', algo comum em adolescentes. Quer-se liberdade, mas é preciso corresponder ao que esperam e pedem: submeter-se ao sistema e sufocar o espírito rebelde.

Por pouco Ella não adotou a filosofia de sempre dizer 'sim', como o personagem de Jim Carrey.

Filme 'Ella Encantada'
Cena do filme 'Ella Encantada'

A figura da fada Lucinda é uma metáfora para pessoas que fazem o bem à força. Ela sinceramente acredita que o 'dom da obediência' é realmente um dom, pois quem não sonha com um filho ideal que dorme sob comando? Mas quem pensa nos problemas que ele enfrentará na vida adulta?

Em 'Ella Encantada', a pauta moderna é facilmente lida: trabalho escravo, racismo e discriminação. Por exemplo, os elfos têm apenas um caminho na vida: ser músicos e alegrar os outros. Tornar-se advogado não é possível. Já os gigantes são destinados exclusivamente a trabalhar nas plantações.

A propósito, é aqui que surge um dos problemas do filme: não está claro para qual público ele foi feito. Por um lado, 'Ella Encantada' é um conto de fadas engraçado e gentil, cheio de piadas e danças ao som de Queen, mas por outro, aborda temas adultos e piadas obscenas. Uma criança não entenderá a pauta e o humor, enquanto um adulto, embora os perceba, achará o enredo muito direto e chato.

'Ella Encantada' 2004
Cena do filme 'Ella Encantada'

Os heróis bons e maus são compreensíveis desde o primeiro minuto do filme, e o desfecho é óbvio. Portanto, é difícil dizer para qual público o filme foi feito. 'Ella Encantada' não é 'Shrek', que equilibra habilmente na fronteira e agrada a todas as idades. É, antes, uma tentativa não muito bem-sucedida de combinar todos os temas urgentes.

Devido ao quão inadequada parece essa 'combinação', o filme se assemelha mais a um conto de fadas paródico no estilo de 'Épico Movie' (2007), mas nem chega a esse nível. Há pouco humor e grotesco, e não dá para levá-lo a sério como uma obra séria — falta um bom enredo, personagens e ideia.

A lógica em 'Ella Encantada' também é problemática. Por exemplo, por que ninguém tentou parar Lucinda? Em um mundo com indícios de totalitarismo, onde monitoram meticulosamente as criaturas mágicas e impõem limites, ninguém fiscaliza os abusos das fadas. Ou seja, qualquer fada pode voar pelo país, entrar na casa de qualquer um, fazer feitiços e não ser punida? Talvez as fadas sejam uma classe privilegiada e criaturas mágicas ideais. Isso já cheira aos anos 30 do século passado.

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Cena do filme 'Ella Encantada'

A questão de por que ninguém quer parar o terror de Lucinda provavelmente permanecerá filosófica, assim como por que quase ninguém notava a obediência de Ella. Na vida real, se alguém cumpre ordens sem questionar, isso levanta suspeitas, mas os personagens do filme acreditam sinceramente que ninguém percebe. Ninguém, exceto, claro, os antagonistas!

O príncipe Char parece ser tão cego quanto os personagens. Ao lado, um tio que causa caos no reino, proclamando trabalho escravo e discriminação, e o herói fica sinceramente surpreso com isso. Esses problemas podem ser atribuídos à questão de por que o enredo é tão ruim e para quem o filme foi feito.

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'Ella Encantada' Hugh Dancy
Cena do filme 'Ella Encantada'

Mas se fecharmos os olhos para as inconsistências e não nos apegarmos aos detalhes, podemos apreciar 'Ella Encantada', que ainda é lembrada 20 anos depois. O filme é gentil, interessante e, às vezes, engraçado. Basta ver a cena em que a heroína Anne Hathaway dança ao som de 'Somebody to Love' do Queen.