Preview image

No dia 2 de novembro, o Kinopoisk lançou a tão esperada e desesperadamente anunciada 'adaptação do grande romance', que, no entanto, logo foi substituída por 'nova leitura'. Muitas publicações já insinuaram que filmar algo assim é um crime, e assisti...

Medo e Ódio em São Petersburgo: O Que Há de Errado com a Série 'Crime e Castigo'
Cena da série 'Crime e Castigo'

Antes de começarmos a discussão, é importante fazer uma ressalva. Chamar esta série de 'adaptação do grande romance' ou mesmo de 'nova leitura' já é um crime contra a humanidade e a arte. Portanto, somos forçados a chamá-la assim: série 'P'.

A base do enredo da série 'P' realmente corresponde, de forma mais ou menos adequada, ao conteúdo do romance, misturado com a imaginação dos criadores e algumas cenas prolongadas de outra obra do 'Grande Pentateuco' de Dostoiévski, 'Os Irmãos Karamázov'. Mas a 'nova leitura' não consiste apenas nessa mistura, mas também na transferência de todos os eventos para os dias atuais. Aqui se revela o primeiro defeito: as falas dos personagens, retiradas do original, não são estilizadas. Devido a esse recurso, possivelmente artístico, surge um conflito entre forma e conteúdo: a frase é construída à moda do século XIX, mas contém neologismos e, além disso, é dublada por um hipster idoso em cenário de supermercado ('P' é um trabalho extremamente malsucedido de Ivan Yankovsky).

Medo e Ódio em São Petersburgo: O Que Há de Errado com a Série 'Crime e Castigo'
Cena da série 'Crime e Castigo'

Embora esse conflito não seja o mais fatal e se possa tentar se acostumar. Afinal, as falas do romance combinam muito bem com o carisma de alguns atores (Boris Khvoshnyansky, Vladimir Mishukov), criando uma imagem, ainda que não no espírito dos heróis de Fiódor Dostoiévski. Mas no segundo episódio, os criadores se cansaram de estilizar suas próprias invenções como o original, então as falas do século XIX coexistem com frases modernas não processadas.

Recontar todos os desvios do enredo original é inútil, então vamos nos ater aos mais fatais. Em 'Crime e Castigo', Ródion era capaz de um ato bondoso, mesmo que se arrependesse depois. Era apenas um impulso instintivo e irresistível nele: 'E por que me meti a ajudar aqui? Será que devo ajudar? Tenho o direito de ajudar? Que eles se devorem vivos uns aos outros, o que me importa?'. Talvez seja sua própria natureza, sua educação ('Lembre-se, querido, como ainda na sua infância, quando seu pai era vivo, você balbuciava suas orações no meu colo e como todos nós éramos felizes então'). Na série, isso decididamente não existe, conscientemente. O Raskólnikov deles não ajuda Marmeládov, não ajuda a garota que 'Svidrigáilov' segue.

Medo e Ódio em São Petersburgo: O Que Há de Errado com a Série 'Crime e Castigo'
Cena da série 'Crime e Castigo'

Além da história sobre Jutchka (que Ródia conta do nada), na série 'P' há toda uma imagem de 'Os Irmãos Karamázov' — o diabo que aparecia a Ivan. Para que serve na série é uma pergunta pertinente, mas aqui as regras de sua permanência no mundo de 'P' são mais importantes. Se em Fiódor Mikhailovitch o diabo veio a Ivan ora em sonho, ora na realidade, aqui o personagem de Boris Khvoshnyansky é mais que físico, ele pode influenciar o mundo ao redor diretamente e suas ações têm consequências. Nem é preciso dizer que nada disso existia em 'Os Irmãos Karamázov'.

O diabo que apareceu a Ivan é ao mesmo tempo seu 'eu' secreto e demoníaco e o diabo no sentido literal, já que o tema da fé e da descrença ocupa um lugar central na poética do romance. Mas na série 'P', o diabo é antes um Mefistófeles, um tentador que ajuda Ródia a realizar sua teoria.

Medo e Ódio em São Petersburgo: O Que Há de Errado com a Série 'Crime e Castigo'
Cena da série 'Crime e Castigo'

Acontece que, se superarmos os espinhos das invenções e dos recursos estéticos inadequados, a série começa a levantar questões terríveis. No mundo de 'P', todo o assassinato parece ter sido encenado pelo diabo, e assim que ele abandona Ródia, Raskólnikov se arrepende literalmente no dia seguinte em uma crise histérica (lembro que o Raskólnikov de Dostoiévski só se arrependeu no final, já na prisão, em uma cena incrivelmente bela, como se atemporal, ressuscitando na segunda semana após a Páscoa). Acontece que o Raskólnikov deles não é culpado pelo assassinato excessivamente brutal (e realmente demoníaco)? Talvez, na absolvição de Ródion, os criadores tivessem alguma missão humanista exagerada, mas parece uma substituição das principais teses do romance.

No mundo de 'P', o diabo é uma circunstância externa, ele faz parte do ambiente, ditado por sua natureza externa e física. Mas Fiódor Dostoiévski era contra justificar as ações humanas pelo ambiente: '...tornando-nos melhores, corrigiremos o ambiente e o tornaremos melhor. Pois é só assim que se pode corrigi-lo'. Em seus romances, ele não buscava circunstâncias externas para responder à pergunta 'por que matou'. E os criadores sabiam disso, pois usaram citações do 'Diário de um Escritor'.

Medo e Ódio em São Petersburgo: O Que Há de Errado com a Série 'Crime e Castigo'
Cena da série 'Crime e Castigo'

Devido ao fato de que na série o conflito interno é transferido para o mundo externo, esse recurso parece uma absolvição de Ródia tanto pelo assassinato quanto por sua teoria. Mas 'ao tornar o homem responsável, o cristianismo reconhece sua liberdade'. Na série 'P', por um lado, o lado luminoso da personalidade de Raskólnikov, que ele suprimia com a obsessão por ideias, é descartado; por outro lado, há essa imagem purificadora do herói — o diabo, que instigava, ajudava e tentava.

Essa substituição não só não tem nada a ver com a poética de 'Crime e Castigo', como também contradiz diretamente a fonte original. Ao pegar as imagens de Dostoiévski, ajustando-as a uma vaga ideia do romance, os criadores construíram teses diretamente opostas, distorcendo a própria essência da obra.

Medo e Ódio em São Petersburgo: O Que Há de Errado com a Série 'Crime e Castigo'
Cena da série 'Crime e Castigo'

Além disso, por que eles roubaram as falas de Dmitri Karamázov 'não fui eu que matei, não fui eu que matei'? Afinal, se falarmos de duplicidade, são exatamente Ivan e Ródia que podem ser chamados de heróis hetero-idênticos, constituindo uma certa série tipológica nas obras de Fiódor Mikhailovitch (que abrange também seus outros trabalhos). Os autores descobriram essa identidade, mas a distorceram. Ivan também é um 'homem com teoria', mas ele tem uma questão moral mais complexa; o diabo dele foi chamado para revelar sua culpa indireta na morte do pai, seus motivos e impulsos inconscientes que ele escondia e negava, era sua identidade sombria, de forma alguma ligada ao mundo físico. Nem é preciso dizer que Raskólnikov não tinha culpa inconsciente ou indireta que precisasse descobrir em si mesmo?

Sinceramente, espero que o diabo tenha entrado nesta série para mostrar que os criadores são pessoas muito cultas e de alto intelecto, e que não houve tempo para pensar nessas questões. Mas o resultado foi uma polêmica direta com o autor, pois no mundo de 'P' não há nada de luminoso, apenas escuridão. Tudo o que era luminoso no original foi removido ou substituído. Além disso, o luminoso, literalmente divino, também estava em 'Os Irmãos Karamázov', ocupando o mesmo lugar que o demoníaco, porque na poética de Dostoiévski esses conceitos são binários.

Medo e Ódio em São Petersburgo: O Que Há de Errado com a Série 'Crime e Castigo'
Cena da série 'Crime e Castigo'

Se supormos que o diabo pode aparecer a todos os heróis típicos de Fiódor Mikhailovitch, pessoas com uma ideia, então por que, perdoe-me Deus, ele apareceu a Dúnia? No mundo de 'P', ela também tem alguma teoria ou ideia? Ela também é uma 'assassina' direta ou indireta? Essas travessuras nas páginas do roteiro e símbolos e imagens pretensiosos e vulgares (como a afogada na casa dos Svidrigáilov) deixam claro que os criadores geraram inconscientemente essas questões terríveis. Se as principais teses da 'nova leitura' são tão rebuscadas e superficiais, provavelmente não houve tempo para esse discurso... Ou algo mais.

A falta de jeito geral da série 'P'; a decoração malsucedida (devido ao conflito entre forma e conteúdo); diálogos estranhos e forçados sob o barulho das ruas; tempo de tela preenchido com Deus sabe o quê; imagens e citações de 'Os Irmãos Karamázov' que não são integradas nem estilística nem logicamente; montagem incoerente, lembrando melodramas do canal 'Rússia-1' — estão longe de ser todos os defeitos do projeto. Mas também houve pontos positivos. Às vezes, os aspectos negativos são amenizados por um belo trabalho de câmera e um acompanhamento musical encantador, com uma atmosfera onírica que corresponde ao estilo do romance.

Medo e Ódio em São Petersburgo: O Que Há de Errado com a Série 'Crime e Castigo'
Cena da série 'Crime e Castigo'

Que respeito básico pode haver pelos criadores da série, como autores, se na série não há nenhum respeito básico pelo criador do romance? Durante a exibição, fica uma pena que isso não seja uma genial autoironia pós-moderna com um toque de nova sinceridade, mas simplesmente um trabalho repugnante que tenta desmascarar todas as ideias do autor do romance original. No mundo da série 'P', tudo o que é sujo e baixo existe no vácuo. Não é relativo, porque existem apenas aspectos selvagens e sombrios, apresentados de forma exagerada e completamente pouco convincente.

Além de tudo, as obras de Fiódor Dostoiévski são próximas porque apresentam não apenas a identidade demoníaca do homem, mas também a oposta, a luminosa. Sua pesquisa e compreensão dos menores movimentos, desvios e estados de espírito da alma humana têm poucos paralelos.

Se o objetivo da adaptação era descartar tudo o que é luminoso e santo no romance, e rebaixar, vulgarizar todos os personagens, tornando-os caricaturas planas de si mesmos, então, sem dúvida, foi alcançado. E se esta unidade de arte é um reflexo da sociedade, da alma humana atual e o resultado de uma 'nova leitura', então, certamente, estamos cada vez mais longe de Deus.