Preview image

No Apple TV+ terminou a minissérie «Todas as coincidências não são acidentais», pela qual é responsável a dupla vencedora do Oscar Alfonso Cuarón - Emmanuel Lubezki. Adicione a esses nomes Cate Blanchett e você terá o projeto dos sonhos. E como ele r...

«Todas as coincidências não são acidentais» (no original, o chamativo e mais preciso Disclamer) é a primeira série autoral na filmografia de Alfonso Cuarón (anteriormente ele apenas dirigiu episódios para programas alheios), que na carreira já provou tudo para todos há muito tempo e pode fazer projetos para seu próprio prazer.

E aqui ele convidou uma das melhores atrizes da atualidade, Cate Blanchett, colocou atrás da câmera seu antigo colaborador e também renomado profissional Emmanuel Lubezki (brincadeira? o homem ganhou o Oscar 3 anos seguidos!), fez-lhe companhia Bruno Delbonnel, a música foi composta pelo irmão de Billie Eilish, Finneas, e fez uma obra em parte experimental, em parte extremamente voltada para o público, intencionalmente levando os espectadores de volta ao seu explícito «E sua mãe também». Cuarón baseou-se no livro homônimo de Renée Knight, que na tradução russa ironicamente recebeu o título «Todas as coincidências são acidentais». Esse é o aviso.

Cate Blanchett Todas as coincidências não são acidentais
Cena da série «Todas as coincidências não são acidentais»

No centro da trama está Catherine Ravenscroft (Blanchett), uma jornalista de sucesso, esposa e mãe feliz. A vida da mulher parece idílica. Ela recebe mais um prêmio profissional prestigioso. E sua linda casa com janelas panorâmicas e um gato extremamente ativo. O marido (o irreconhecível Sacha Baron Cohen) a presenteia com vinho caro, e o filho (Kodi Smit-McPhee) se torna um homem independente, saindo de casa.

Tudo muda quando Catherine recebe o livro «O Estranho Perfeito» e percebe que essa história é sobre ela. Ou melhor, sobre o passado da mulher, que seus entes queridos desconhecem, e agora o mundo inteiro pode descobrir.

Cena da série «Todas as coincidências não são acidentais»
Cena da série «Todas as coincidências não são acidentais»

Para ser honesto, ao recontar, a série «Todas as coincidências não são acidentais» soa como a adaptação de um típico livro para donas de casa na idade de Balzac. Adultério de resort, amante jovem e ardente, intermináveis cenas de sexo que até deixam desconfortável (embora parecesse), morte misteriosa, remorso e assim por diante. Mas aqui é importante notar que Alfonso Cuarón usa magistralmente o formato serial à sua disposição para apresentar a trama de forma envolvente.

A genialidade e ironia do diretor são percebidas na frase que, como que de passagem, é dita no episódio de estreia:

Cuidado com a narrativa e a forma. Seu poder pode nos aproximar da verdade, ou pode ser uma arma poderosa de manipulação.

«Todas as coincidências não são acidentais» 2024
Cena da série «Todas as coincidências não são acidentais»

Adivinhe o que acontece a seguir? Correto, o diretor, através do formato do narrador não confiável e do choque entre flashbacks e a realidade atual (a propósito, filmados com métodos absolutamente diferentes, usando diferentes soluções de cor, luz e câmera, aqui Lubezki e Delbonnel se divertiram à vontade), ele manipula as emoções do espectador.

Nos primeiros episódios, tudo pode parecer óbvio e superficial, com um certo grau de intriga, mas ainda assim. E então, semana após semana, Cuarón nos levou a dar, se não um twist, pelo menos uma outra perspectiva sobre o que já foi visto e avaliado subjetivamente. Para que essas avaliações fossem, de fato, reconsideradas.

Narrativa, forma, manipulação – os três pilares nos quais a série «Todas as coincidências não são acidentais» se sustenta e funciona. E funciona melhor justamente quando se assiste a um episódio por semana, em vez de maratonar.

«Todas as coincidências não são acidentais» assistir
Cena da série «Todas as coincidências não são acidentais»

Quanto aos temas abordados, a infidelidade conjugal nem é o principal deles. É muito mais interessante observar as reações das pessoas que abrem os olhos para seus entes queridos, que elas pensavam conhecer profundamente. Além disso, é evidente o desejo de mostrar como a falsificação da verdade (ou a interpretação incorreta dos eventos) pode destruir a vida não de uma pessoa, mas de uma família inteira, literalmente num estalar de dedos (ou no clique do obturador, no contexto da história).

A primeira série por coincidência nas carreiras de Cuarón e Blanchett é uma grande sorte. E isso não é um acaso, mas um resultado natural de um trabalho bem feito, onde a atenção aos detalhes e o profissionalismo de todos os envolvidos, se não impressionam, causam genuíno respeito.

Trailer: