
Em 19 de outubro, foi ao ar o episódio final do curto anime 'Uzumaki', baseado no mangá cult de Junji Ito. À primeira vista, pode parecer que esta é a primeira adaptação decente das obras do autor, mas não recomendamos alimentar ilusões otimistas, po...
O anime 'Uzumaki' é baseado no mangá homônimo em três volumes do Junji Ito, famoso mangaká que trabalha com horror há mais de 35 anos. Suas obras já foram adaptadas várias vezes, tanto em live-action ('Tomie' e o próprio 'Uzumaki') quanto em anime ('Junji Ito: Collection' e 'Junji Ito: Maniac'), mas, infelizmente, algo sempre impedia os criadores de fazer um trabalho decente. Parecia que desta vez tudo daria certo, mas todas as esperanças foram repentinamente levadas por um redemoinho.
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Qual é a história?
Na cidade de Kurouzu, coisas estranhas começam a acontecer do nada. O primeiro a notar algo errado é o estudante Shuichi, que sugere que sua namorada Kirie fuja. O rapaz tem motivos para suspeitar: redemoinhos constantes, vórtices cada vez mais frequentes e seu pai, que está perdendo a sanidade, obcecado pela ideia da espiral. A amada também parece notar essas estranhezas, mas não leva a sério a ideia de partir. O casal não volta a essa ideia sensata nem quando Azami, colega de classe de Kirie, desenvolve um buraco na metade da cabeça onde antes havia uma cicatriz, e o pai de Shuichi comete suicídio na banheira, torcendo o próprio corpo em espiral.
Depois, fica ainda mais absurdo e repugnante: pessoas-lesma, cobras entrelaçadas (e não só), cabelos vivos que se enrolam, e muito mais. As estradas se torcem, impedindo qualquer um de fugir de Kurouzu, e a cidade e seus habitantes se tornam dependentes da linha curva característica, que se reflete em tudo, causando tanto metamorfoses físicas quanto loucura geral. Shuichi dá a esse fenômeno o nome de 'Maldição da Espiral'. Ninguém pode escapar dela, então os protagonistas só podem resistir com todas as forças e tentar desvendar o mistério.
Tudo entrelaçado, mas não predeterminado
'Uzumaki' foi anunciado pela primeira vez há cinco anos, em 2019, antes da pandemia. Desde então, a adaptação caiu no inferno da produção, e o lançamento foi adiado várias vezes: ora por causa da maldita pandemia, ora pelo desejo dos criadores de aperfeiçoar tudo. Os autores garantiram que davam enorme atenção ao visual, tentando aproximar a imagem do original.
Claro, após tantos anos de espera, as expectativas do público foram às alturas. Especialmente porque foram anunciados apenas quatro episódios, embora a obra original tenha três volumes de 200 páginas cada (material suficiente para uma temporada padrão de 10 a 12 episódios). Naturalmente, surgiram receios de que boa parte do mangá seria cortada, pois é difícil 'encaixar' seiscentas páginas em quatro episódios, mesmo com duração não padrão (até 34 minutos). Mas o problema principal não foi o material cortado. Essas compressões podem ser perdoadas se a adaptação for bem feita em outros aspectos, o que infelizmente não é o caso desta adaptação.

Inicialmente, foi anunciado que o título seria produzido pelo estúdio Drive, que lançou com sucesso a terceira temporada de 'Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo!' este ano. No entanto, na estreia, descobriu-se que o primeiro episódio foi feito pelo estúdio Fugaku, praticamente desconhecido. Mas que diferença faz, se 'Uzumaki' começou muito bem? Desde os primeiros minutos, nota-se que o anime foi bem trabalhado: animação em preto e branco meticulosamente detalhada, com elementos de rotoscopia e atenção aos detalhes, em perfeito equilíbrio com a atmosfera sombria de absurdo, uma leve sensação de ansiedade e desconforto com o que está acontecendo. À primeira vista, os criadores conseguiram se aproximar do estilo de Ito e transferi-lo para a tela, preservando quase todo o charme da obra original.
Mas todas as impressões positivas e as expectativas de cinco anos dos fãs vão por água abaixo já no segundo episódio. Acontece que não foi apenas a Fugaku que trabalhou na série: eles fizeram apenas o início e o final. O meio (segundo e terceiro episódios) ficou a cargo do estúdio Akatsuki, e a animação cai drasticamente (Akatsuki sempre dá um jeito de estragar Uzumaki).
Você diz uma coisa, ele responde com espiral
O contraste na qualidade é literalmente como 'descer em espiral'. Não é surpresa que, após essa reviravolta na arte, a internet se encheu de críticas e insatisfação, e a classificação dos usuários começou a cair drasticamente (antes do segundo episódio, a nota no MyAnimeList era acima de 8 de 10, e no momento da escrita deste material, é 6.2/10).






O produtor Jason DeMarco até se desculpou e tentou se justificar dizendo que foram 'passados para trás', mas não especificou por quem (a postagem foi deletada). Ele também disse que havia três caminhos possíveis após esse incidente: esquerda — não terminar e não lançar 'Uzumaki'; reto — terminar apenas o primeiro episódio e lançá-lo, deixando o projeto incompleto; direita — lançar todos os quatro episódios com todos os defeitos e plena consciência da reação esperada. Como se pode perceber, escolheram ir para a direita.
Parece que a opção de levar mais tempo para refinamento e buscar financiamento adicional nem foi considerada, o que é estranho, dado os vários adiamentos. Será que Adult Swim e Production I.G, creditados, não poderiam ajudar de forma alguma? É difícil acreditar que o orçamento de uma tigela de arroz para dois episódios era a única saída.

Naturalmente, em meio ao colossal fracasso na animação, outros problemas começam a se destacar, que uma imagem de qualidade poderia ter mascarado. Em termos de ideia, 'Uzumaki' é uma reflexão do autor sobre a insignificância do homem diante de algo poderoso e inexplicável. Mesmo nas situações mais loucas, as pessoas continuam tentativas sem sentido e às vezes absurdas de adiar o inevitável, tentando dar uma explicação racional para tudo. Pelo menos era assim no original, com 20 capítulos de 30 a 40 páginas cada. Na adaptação, todo o horror gradual da obra original se transforma em uma bagunça amassada de eventos superestranhos com reações completamente ilógicas dos personagens.
O que no mangá fluía suavemente de uma situação, no anime acontece em paralelo, sobrepondo-se. Por causa disso, os personagens muitas vezes parecem estúpidos e não naturais, pois agem sem motivação. Mesmo sem ler o original, fica claro que a história se tornou fragmentada e confusa após o trabalho no roteiro, ou que na tela (e, consequentemente, no mangá) simplesmente acontece um absurdo injustificado sob o disfarce de body horror. Considerando as referências a Lovecraft e Carroll, algumas ideias originais, não parece que o problema está na obra original, então a conclusão sobre um trabalho malfeito com o texto é automática.

Como resultado, 'Uzumaki' não parece uma obra filosófica séria que causa desconforto com sua atmosfera assustadora (com isso, o recente 'A Substância' lida muito melhor), mas sim um sonho típico com febre de 39,5 ao som do poema 'Canção Torta' de Korney Chukovsky.
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Open materialQual é o veredito?
'Uzumaki' é mais um projeto fracassado baseado no mangá do cultuado Junji Ito. Parece que as adaptações do autor, assim como a cidade de Kurouzu, estão sob a 'Maldição da Espiral'. Não importa qual obra seja escolhida para adaptação, ou quem a faça, tudo se torce de forma que os fãs, com razão, ficam insatisfeitos. Talvez no futuro alguém consiga quebrar a maldição e resolver o enigma de transferir o material complexo para a tela com o mínimo de danos, mas certamente não este ano. Honestamente, provavelmente nem no próximo. Eu recomendaria não ficar de olho no calendário, para que o milagre seja inesperado e realmente vire a cabeça.
P.S. No anime 'Uzumaki', todos os episódios, exceto o primeiro, têm cenas pós-créditos, então não os pule.
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