
No final de setembro, no serviço Max, terminou a primeira temporada da série «Cidade de Deus: A Luta Continua» — continuação direta do icônico drama criminal de 2002. Sobre o que aconteceu na vida dos personagens conhecidos e quais mudanças ocorreram...
A estreia da série «Cidade de Deus: A Luta Continua» ocorreu praticamente (faltando cinco dias) no vigésimo segundo aniversário do filme original de Fernando Meirelles e Kátia Lund. E embora os diretores não tenham muita relação com a sequência, ela não parece um projeto comercial forçado. Considerando que o próprio filme não perdeu sua relevância em duas décadas (sobre o qual escrevemos por ocasião do aniversário), a continuação, por sua vez, renova esse olhar e foca ainda mais nos problemas levantados pelo filme.
Em 30 de agosto de 2002, ocorreu a estreia do filme dos diretores Fernando Meirelles e Kátia Lund, «Cidade de Deus», em ampla distribuição, começando pelo Brasil (não consideramos a estreia no Canadá
Open materialQual é a história?
Rio de Janeiro, 2004. Na Cidade de Deus, em vinte anos, não se pode dizer que tudo mudou muito. Após a morte de Zé Pequeno, o controle da favela passou para os garotos locais, e eles foram acolhidos pelo traficante Curió (Marcos Palmeira). Por um tempo, a paz reinou na área, exceto quando corpos carbonizados de turistas são encontrados no território. Mas, fora isso, todos cuidam de seus afazeres. Por exemplo, Rocket (Alexandre Rodrigues) tornou-se um fotógrafo profissional especializado na Cidade de Deus, mudou-se para a cidade e agora pede para ser chamado pelo nome — Wilson (ninguém liga). Seu amigo Barbantinho (Edson Oliveira) ficou na Cidade de Deus, ganhou o respeito dos locais e planeja se candidatar ao conselho municipal para que seu bairro possa se desenvolver e prosperar.
Infelizmente, a vida pacífica logo será abalada pela libertação da prisão do filho adotivo de Curió — Bradock (Thiago Martins). Sob a influência manipuladora de sua advogada e amante, Gisa (Andréa Horta), o gângster começa a reivindicar territórios da favela. Um cheiro de nova guerra surge nos morros. Mas o pior é que a polícia, sob o comando do velho conhecido Reginaldo Cava (Maurício Marques), apelidado de Girino, pode intervir nas brigas dos bandidos locais, que de policial corrupto ascendeu a secretário de segurança do Rio de Janeiro.
Na cidade onde não há metrô
«Cidade de Deus» é um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro, que mostrou ao mundo o quão agudo é o problema da vida nas favelas no país. A continuação em série fala exatamente sobre as mesmas coisas, mas de uma perspectiva moderna. Embora a tela mostre 2004, o espectador deve perceber que isso é apenas um número. Na verdade, as ações poderiam facilmente ocorrer em 2024, mas os atores simplesmente não envelheceram tanto. E seria difícil observar aposentados em meio a brigas criminosas e tiroteios.

A propósito, é muito bom que muitos personagens da história original tenham retornado na continuação, e sejam interpretados pelas mesmas pessoas. Além de Rocket, Barbantinho, Bradock e Girino (sinceramente, parecem mais personagens de um drama criminal do que uma equipe de bonequinhos do «Magnet») na série estão presentes Berenice (Roberta Rodrigues), Cíntia (Sabrina Rosa) e mais alguns personagens terciários. É claro que não se lembra de quem é quem assim de cara, mas para isso há flashbacks com lembretes de Rocket, que também ajudam o novo público a se envolver na história.
A série «Cidade de Deus» começa com uma cena semelhante à abertura do filme original, onde em rápidos cortes aparecem gângsteres, policiais e, claro, galos de briga. Depois, Rocket, com suas palavras, nos transporta de volta no tempo, começando a contar a história de como o bairro foi novamente arrastado para a guerra.

Os espectadores são mergulhados no mundo das favelas brasileiras, onde os moradores comuns vivem praticamente todos os dias como num barril de pólvora. Aqui, as pessoas temem que o frágil acordo de paz seja quebrado e que haja novas vítimas. Ao longo dos anos, o povo da Cidade de Deus aprendeu a sobreviver e se acostumou com a ideia de que as autoridades, do alto do Cristo Redentor, realmente não se importam com seus problemas, e ninguém, sem interesse pessoal, tentará fazer algo de verdade. Portanto, se algo precisa mudar, é por conta própria.
Os clubes e eventos esportivos dependem de entusiastas, e os jovens oscilam entre o crime e as tentativas de se destacar. Fora dos morros, os moradores são tratados como cidadãos de segunda classe, e os eventos sangrentos no território da favela sempre ocupam a primeira página dos jornais e são amplamente discutidos na TV. Até a filha de Rocket, Leca (Lullen Castro), que canta rap sensual e dança twerk, diz ao pai que suas fotos tiradas com risco de vida são «carne negra» que outras pessoas olham e se alegram por não viverem assim. De certa forma, essa ideia se aplica à própria série.
Dificilmente os deuses nos favorecerão
Vinte e dois anos atrás, o filme de Meirelles e Lund conseguiu criar ressonância e levar o governo a começar a lidar com a questão das favelas. Hoje, o estúdio O2 Filmes (que fez todos os projetos do «universo cinematográfico das favelas brasileiras») em parceria com a HBO decidiu novamente pegar o megafone e declarar em alto e bom som que o problema ainda está longe de ser resolvido. Nas favelas ainda é muito perigoso, pois o tráfico de drogas e o banditismo prosperam. Grupos armados controlam territórios, e a escolha dos jovens, como já foi dito, é pequena (para os locais, é um conto de fadas infantil sobre uma vida boa). Mas isso nem é o pior, pois na série o maior medo não são os criminosos, mas as incursões policiais, coordenadas com as autoridades.
Em 21 de dezembro de 2023, nas plataformas START e Wink, foi ao ar o episódio final da, provavelmente, série mais popular do ano passado, «A Palavra do Garoto. Sangue no Asfalto». Agora que a exibição
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Desta vez, «Cidade de Deus» mergulha mais na política. Os policiais corruptos foram apenas a ponta do iceberg, pois as raízes dos problemas vão muito mais fundo no governo. E não é à toa que as batidas são mais assustadoras do que as brigas de gangues, pois, nas palavras de Rocket, os criminosos nos morros pelo menos têm famílias e amigos, enquanto os homens da farda não têm nada a perder no território da favela. Portanto, os tiroteios com eles são muito mais violentos do que as guerras do tráfico.
Se abrirmos os noticiários do Brasil, artigos sobre inúmeras vítimas nos morros durante operações policiais (incluindo civis e turistas!) podem ser encontrados num estalar de dedos. E não importa a década: anos 80, 2000 ou 20, pois são apenas números no calendário. É surpreendente que esse quadro mostre que os gângsteres maus têm mais honra e bom senso do que as forças policiais (ou seja, os criminosos são o mal menor). E é uma pena que, em todas essas brigas entre autoridades e grupos, as pessoas comuns, que se encontram literalmente entre dois fogos, sejam as que mais sofrem.

No geral, «Cidade de Deus: A Luta Continua» é um projeto quase ideal para transmitir a pauta atual, pois além das questões de violência policial e corrupção, aborda temas como desigualdade social, tolerância, feminismo, humanismo e até relacionamentos familiares. Mas o principal é que todo esse coquetel se encaixa organicamente na história da série e nenhum dos aspectos parece fora de lugar, intrusivo ou excessivamente moralizante, como costuma acontecer no cinema moderno.
Qual é o resultado?
«Cidade de Deus: A Luta Continua» é uma excelente sequência que dá continuidade digna à história original. Ela traz os espectadores de volta à Cidade de Deus através dos anos para reafirmar os problemas que ainda estão na ordem do dia não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil. Embora a série não alcance o predecessor icônico, ela cumpre bem suas funções principais, afinal, não foi à toa que foi renovada para uma segunda temporada antes mesmo da estreia do episódio final. Bem, a história realmente tem para onde se desenvolver, então esperamos que os criadores não baixem o nível de qualidade, e talvez até tragam de volta algum velho conhecido (Alice Braga e Matheus Nachtergaele seriam um presente).
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