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Chega aos cinemas o filme 'Vida', vencedor do Festival de Cinema de Berlim. Sobre por que vale a pena prestar atenção neste drama familiar de três horas — em nossa resenha.

Na trama do filme 'Vida', a idosa alemã Lissy Lunies (Corinna Farfuch, excepcional) morre de câncer — sem cuidados adequados, ajuda especial ou esperança de que alguém lhe traga um copo de água antes de morrer. O marido poderia trazer, mas por todos os sinais ele morrerá ainda antes: Gerd, mergulhado em demência profunda, passa seus dias restantes andando sem calças pelas ruas que já não reconhece. A tragédia dos dois idosos — solitários, infelizes, perdendo o contato com o mundo (para Gerd ele simplesmente não existe, e Lissy não consegue ligar para os filhos) — ocupa os primeiros trinta minutos do filme, e é, francamente, um espetáculo exaustivo (em algum lugar no registro de 'Amor' de Michael Haneke).

Os dois capítulos seguintes — no total são cinco no filme — são dedicados aos filhos de Lissy e Gerd, Tom e Ellen. Tom Lunies (Lars Eidinger, conhecido, em particular, por papéis excêntricos nas séries 'Babylon Berlin' e 'Irma Vep') é um maestro de sucesso, totalmente imerso nos ensaios de 'Morrer', sinfonia de seu amigo, o compositor Bernard (Robert Gwisdek). O autor não gosta de sua própria obra e adia constantemente os dois eventos mais importantes de sua vida — a estreia e o suicídio. A intriga principal é qual acontecerá primeiro.

Tom não consegue compartilhar plenamente o sofrimento do amigo: primeiro, ele sofre não sem prazer e continuamente, durante todo o tempo que se conhecem; segundo, a garota que Tom ama muitos anos após o término está se preparando para dar à luz uma menina. E não é dele. E é ele quem acabará cuidando dela. Ele atende às ligações da mãe, embora sem entusiasmo: eles não se amam, e ambos sabem disso. E ambos sabem que tudo vai acabar em breve.

Vida resenha
Cena do filme 'Vida' de Matthias Glasner

Ellen (Lilith Stangenberg, fascinante), a filha favorita de Lissy, aparece nas conversas dos personagens, mas não aparece na tela até a segunda hora. Mas aparece de forma grandiosa: alcoólatra, assistente de dentista, com excelente ouvido, voz e total falta de vontade de viver, ela acorda em um hotel no Leste Europeu, assustando os hóspedes que tomam café da manhã pacificamente e tentando entender o que está fazendo ali. Já na Alemanha, de ressaca, invariavelmente de óculos escuros, vai trabalhar, inventa histórias sobre o simpático dentista Sebastian (Ronald Zerfeld) e em algum momento o chama para um bar (beber juntos é mais divertido), após o que começam um romance.

Tom e Ellen não se comunicam, suas vidas seguem em paralelo, e cada desvio, cada encontro é uma catástrofe potencial, fonte de constrangimento e ódio. Provavelmente um pelo outro, mas talvez também por si mesmos. O filme é, em certo sentido, sobre esse amor total ausente. Os personagens conseguem encontrar amor e compreensão, mas sempre fora da família, em laços que eles mesmos criam. Ao longo de três horas, contrariando o esquema clássico de filmes sobre famílias desunidas (alguém, digamos, teria feito '11' sobre o mesmo tema), Lissy, Tom e Ellen não se aproximam, mas se afastam.

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Ivan Kilyakov
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O diretor Matthias Glasner não busca caminhos fáceis e estabelecidos. É um retrato de três horas da vida como, sente-se, o cineasta a conhece. Ele próprio teve um conflito com a mãe (ela disse, entre outras coisas, que ele não era Fassbinder, então ele não seria diretor), ele não fala com a irmã e, caracteristicamente, tem um amigo compositor. Essa autobiografia, essa vivência do filme, confere-lhe um encanto especial: é um filme difícil de assistir, mas ao mesmo tempo impossível de desgrudar.

Vida
Cena do filme 'Vida' de Matthias Glasner

O principal que o diretor consegue do ponto de vista formal é manter a tela de três horas dentro dos limites estabelecidos, não perder pequenos detalhes em meio a grandes ideias. O filme quase não toca no óbvio, não foca em banalidades; pelo contrário, é uma história cheia de vida e da mistura característica de situações absurdas e sublimes. No momento mais romântico da noite, Ellen tem que arrancar o dente de Sebastian com um alicate (grande cena, sem dúvida). Tom não chega ao funeral do pai porque, por algum motivo, pegou um carro elétrico no interior da Alemanha. Ellen fica bêbada e canta de forma surpreendente. A execução da composição 'Morrer' é interrompida por uma tosse ridiculamente alta na plateia.

As cenas centrais do filme estão geralmente ligadas à música. Tom, durante o ensaio, sugere diminuir o ritmo da obra de Bernard, tocá-la não por 15 minutos, mas por 25. A música soa diferente, a composição impressiona, o 'Morrer' lento de repente encontra um pulso. Algo semelhante faz Glasner. Permitindo que os personagens se movam em seu ritmo lento, triste ou, como no caso de Ellen, incertamente bêbado, ele encontra a entonação necessária. Em suas tristes longitudes e explosões inesperadas, 'Vida', com suas atuações, montagem e música, é até um pouco melhor do que com palavras, transmitindo a tragédia alheia de modo que ela involuntariamente se torna nossa.

A sensibilidade de Glasner aos detalhes nos faz ouvi-lo também nos momentos em que decide, pela boca de algum personagem, fazer uma declaração. Seja a discussão de Lissy e Tom sobre a natureza do amor, ou a discussão de Tom com sua ex sobre a atitude em relação ao suicídio — esses raros discursos programáticos são inseridos no filme com certa maestria. A tensão do ambiente em que os personagens discutem se transmite aos diálogos, à tensão conceitual entre posições que ou estão à beira da morte, ou pensam demais nela, e de uma forma ou de outra, falando sobre qualquer coisa, falam no final sobre ela.

Vida Matthias Glasner
Cena do filme 'Vida' de Matthias Glasner

A ideia chave do diretor também diz respeito à morte, mais precisamente à sua percepção. Ela está sempre perto, a vida pode facilmente se revelar para muitos nada mais que um processo de morrer. Isso é assustador, mas é dessa proximidade do destino, do limite final e do perigo constante de chegar muito perto dele, que nasce a arte. Todos os personagens principais — os três membros da família Lunies com seu excelente ouvido, o compositor depressivo Bernard e a pianista dedicada na orquestra — equilibram-se em algum lugar perto da linha de chegada das perspectivas de vida, e cada um lida com seu talento de forma diferente.

No entanto, para cada um deles, esse talento só floresce perto de algum limite, e só para ilustrar essa ideia simpática já valeria a pena filmar. Mas Glasner vai, talvez, um pouco além: no filme 'Vida', ele se interessa não tanto pelas realizações musicais dos personagens, mas pela vida deles, na qual quase todos carecem de um talento chave, embora não esteja claro qual. Essa estranha incompreensão comum é em algum momento verbalizada por Tom, dizendo que talvez a vida não seja para todos. Não é uma conclusão excessivamente reconfortante, mas quem busca consolo em dramas festivais alemães provavelmente errou de sala.