
Nos cinemas nacionais, 'Irmãos', um drama francês sobre amor fraternal, traumas de infância e o preço da liberdade.
Em 1948, dois irmãos, Michel e Patrice, fogem de um orfanato onde foram colocados por sua mãe voluntariosa e egoísta. Os meninos não podem voltar à instituição, pois se culpam pela morte do diretor (na verdade, ele já estava morto), e decidem viver longe da civilização, na floresta. Muitos anos depois, o irmão mais velho, Patrice (Mathieu Kassovitz), foge novamente para o interior do Canadá, e o mais novo, interpretado por Ivan Attal, parte em sua busca.
O filme 'Irmãos', como indica o título no início, é baseado em fatos reais. Pode-se criticar o filme por as ações na linha do tempo passada dos personagens não parecerem suficientemente verossímeis. Mas, por outro lado, a licença artística aqui se justifica, pois reflete uma visão infantil e um tanto romantizada das coisas, que filtra parte do negativo e transforma a sobrevivência de rua em uma espécie de aventura, nos 'melhores anos da vida'.

Por mais paradoxal que pareça, o retorno à vida na civilização trouxe consequências quase mais pesadas para os heróis do que a própria estadia longe dela. Enfrentando as limitações da liberdade e a separação, o que mais temiam, os irmãos continuavam mentalmente a retornar àqueles tempos relativamente despreocupados em que caçavam juntos e viviam em uma cabana de folhas e galhos.
'Irmãos' é um filme sensível e emocional que, curiosamente, não é tanto sobre a experiência traumática do amadurecimento precoce em condições difíceis, mas sobre como esconder o trauma e transformá-lo em segredo pode prejudicar uma pessoa. Por isso, o passado complexo é mostrado em tons claros e nostálgicos, enquanto o presente opressivo é em tons suaves e frios. Os flashbacks no filme são extremamente organicamente entrelaçados na trama principal e não soam como banalidades dramatúrgicas.

O principal destaque do filme são, claro, os próprios irmãos. A dupla em cena de Attal e Kassovitz é tão convincente que não deixa dúvidas sobre o amor fraternal de seus personagens. Eles foram encarregados de interpretar heróis que, mesmo na idade adulta e tendo sucesso na carreira, ainda permanecem eremitas entregues apenas um ao outro, selvagens e solitários. É a sua interação tocante que pode provocar fortes emoções no espectador. Já o principal mérito do diretor Olivier Casas é ter conseguido fazer um filme vivo e sincero, livre de sermões e da explicitação do óbvio; mesmo os clichês característicos de histórias semelhantes não soam falsos.
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