
Há muitos filmes sobre alienígenas que pousam na Terra e tentam conquistá-la. E se os extraterrestres não quisessem conquistar, mas sim assimilar? O que a humanidade faria? Em seu filme de estreia 'Contatos', Dmitry Moiseev mostra uma das possíveis v...
Em meados do século 20, alienígenas chamados biopags, apelidados de Vitaliks, pousaram na Terra. Estabelecendo-se, os visitantes extraterrestres começaram a produzir ativamente uma substância chamada prak. Segundo os cientistas, o prak poderia curar qualquer doença, então todos caçavam essa substância.
A protagonista Nina trabalha em um dos laboratórios que estudam os biopags. Mas ela mesma nunca teve contato direto com eles. A garota sonha em sair da cidadezinha esquecida, curar seu pai doente e viver em harmonia com seu namorado. Mas uma noite, Nina encontra um Vitalik pessoalmente e descobre algo sobre as criaturas alienígenas que nunca conseguirá esquecer.
Nos últimos anos, a ficção científica não é convidada frequente no cinema russo contemporâneo, e quando aparece, geralmente são declarações autorais de baixo orçamento sobre a humanidade através do extraterrestre. E 'Contatos', do diretor Dmitry Moiseev, é mais um exemplar do sci-fi indie russo que merece ser visto pelo maior número possível de espectadores.
O que impressiona neste filme? Muita coisa. Primeiro, salta aos olhos o quão detalhadamente é concebido o mundo alienígena habitado pelos visitantes. Somos apresentados a novos termos e vemos como a chegada dos colonizadores extraterrestres afetou a cultura e a vida na Terra. Tudo é filmado em estilo pseudodocumental, dando a sensação de que o diretor sabe algo sobre nossa história que não é contado nos livros oficiais.
Segundo, a escolha da locação. Filmar no interior da Rússia não é novidade, mas o sci-fi geralmente é filmado em grandes cidades para mostrar a escala da destruição em meio à metrópole. Como, por exemplo, em 'Atração' de Fyodor Bondarchuk. Ou pelo menos fazem inserções com noticiários falando sobre a escala do evento extraterrestre. Em 'Contatos', o cenário é um lugar esquecido por Deus nos confins do país, do qual nunca saímos. Isso adiciona tanto melancolia e desesperança à história quanto um senso de realidade e intimidade. O fantástico se aproxima do real, criando um tom único para o filme. No final, não perdemos a conexão com nosso mundo ao ver um alienígena ou naves espaciais no estilo de 'A Chegada' de http://Denis Villeneuve. O científico-fantástico se insere na realidade, em vez de nos levar nas ondas da fantasia.
Terceiro, o mínimo de computação gráfica. Apesar do orçamento reduzido, os autores criaram um boneco real de 50 kg, e depois usaram tecnologia para tornar os movimentos do Vitalik mais naturais. O design do alienígena lembra o personagem de 'E.T.' de http://Steven Spielberg, mas o visual final é resultado de vários esboços nos quais o diretor e sua equipe tentaram criar uma criatura ao mesmo tempo não assustadora e não bondosa. Assim nasceu Vitalik.
E houve muito trabalho com o boneco. Segundo Dmitry Moiseev, ele mudava de cor constantemente e precisava ser retocado regularmente, tinha o crânio perfurado e, além disso, às vezes caía sobre a atriz. E para mostrar a 'respiração' do humanóide nas cenas, três pessoas ficavam atrás do boneco soprando ar através de seringas.
Outro valor deste filme bastante melancólico e até apático é a variedade de temas. Aqui, representantes da igreja discutem com cientistas, e nenhum dos lados consegue encontrar uma resposta digna para a pergunta: por que os alienígenas vieram? Em torno desse tema, formou-se uma poderosa base de fãs de teorias da conspiração. Afinal, as pessoas gostam de acreditar em algo. Por isso, os alienígenas são literalmente 'ordenhados' para obter um líquido vital que supostamente cura tudo. E nas entrelinhas, sente-se uma sátira política e social. Mostra-se como o encontro da humanidade com uma raça extraterrestre mudou os primeiros, agravando muitos vícios e superstições.
Além disso, os alienígenas no filme não são apenas objetos de estudo, mas também sujeitos que influenciam os humanos. Apresentadores de TV assustam e alertam que o contato com Vitaliks causa desejo de mudar de vida, abandonar as regras impostas pela sociedade, fugir desse caos. E isso pode ser uma crítica a qualquer propaganda, por exemplo, às normas sociais que não levam em conta as particularidades individuais. Essa ideia, como a maioria das outras, é geralmente apresentada no filme através de humor, imagens e situações cômicas. Mas quando a risada acaba, as lágrimas vêm aos olhos.
Mas o principal leitmotiv que percorre todo o filme como um contorno nítido é humanista. Sejamos mais bondosos, cuidemos e respeitemos uns aos outros. Essa mensagem sincera é percebida em cada ação da protagonista interpretada por Irina Salikova, em cada respiração alienígena de Vitalik, até mesmo na tristeza e desesperança que cercam todos os personagens do filme. Mais uma vez, lembram-nos que filmes sobre alienígenas são sempre filmes sobre pessoas. E se a humanidade perdeu o contato entre si, que conversa sobre extraterrestres pode haver? A profundidade do drama em 'Contatos' reside justamente na ausência de comunicação profunda e próxima. Ninguém ama ninguém de verdade, ninguém está sinceramente ligado a ninguém, e qualquer contato é mais um acordo que se mantém enquanto for vantajoso.
Dmitry Moiseev admitiu que a ideia do filme nasceu de uma única ideia: uma mulher cuidando de um alienígena doente. E sobre isso ele construiu toda a ação relativamente intensa envolvendo bandidos e experimentos ilegais. Mas os conflitos e incidentes ainda ficam em segundo plano; eles não conseguem superar a sinceridade e, de certa forma, a ingenuidade da declaração autoral principal. Afinal, o amor altruísta pela humanidade é uma característica necessária da personalidade humana, sobre a qual se constrói sua bússola moral e graças à qual nossa civilização tem chance de sobreviver por mais algumas centenas de anos. E em tempos difíceis, quando a misericórdia e a compaixão saem de moda, é importante que alguém nos lembre do que é importante.
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