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O detetive noir chinês 'Only the River Flows', do diretor Wei Shujun, sobre um investigador que tenta capturar um assassino em série na China dos anos 1990, estreou nos cinemas russos. Como a abundância de simbolismo e a figura do narrador não confiá...

Anos 1990, uma pequena cidade no sul da China. Certa noite, a notícia do assassinato de uma idosa conhecida como Quatro na margem do rio abala a cidade. Investigadores locais começam a desvendar o caso, que ganha novos detalhes, testemunhas e suspeitos. Paralelamente, ocorrem mais dois assassinatos na cidade que, à primeira vista, não têm relação entre si.

'Only the River Flows' é uma adaptação do conto de 1987 de Yu Hua, 'O Erro Junto ao Rio', dirigido por Wei Shujun. Em 2023, o filme foi exibido no Festival de Cannes na seção 'Un Certain Regard'. Yu Hua é um amante do absurdo e do pós-moderno, e o filme incorpora as características distintivas dessas correntes. Embora o filme tenha feito algumas alterações na trama, adicionando novos personagens ou linhas narrativas, o principal é que ele transmite de forma muito sutil o espírito da China daqueles anos. O diretor nos apresenta a vida, os costumes e as tradições da população chinesa dos anos 1990 através do prisma das tragédias pessoais dos personagens, seus conceitos de bem e mal, e pequenos momentos do cotidiano.

Only the River Flows

Temos um investigador local tentando resolver uma série de assassinatos, começando pelo homicídio de uma idosa. Inicialmente, parece que capturar o criminoso é o principal motor da trama, mas quanto mais a história se desenrola, mais evidente fica que a questão central é como é ser um assassino. Somos cada vez mais envolvidos pela história pessoal do protagonista, que se perde numa teia de memórias não confiáveis e vagueia pelas ruas escuras da cidade em busca da verdade. Mas existe uma verdade objetiva no mundo? Ou tudo depende do ponto de vista?

A teatralidade e a ilusão dos eventos são sugeridas desde o início, ao colocar a delegacia num antigo cinema. O diretor Wei Shujun oferece várias pistas, pisca e insinua, fazendo-nos duvidar do que é real e do que é fruto da mente febril de um narrador não confiável. Somos suavemente envolvidos por uma névoa de confusão e nos perguntamos: o que vimos é realidade ou sonho? Tudo depende de através de cujos olhos estamos vendo: os olhos do policial ou os olhos do assassino?

O filme é repleto de simbolismo, que funciona tanto para a compreensão da essência da história quanto para o autoengano. O rio não está no título por acaso: na imagem dos fluxos incessantes de água está escondida uma dica de como melhor perceber o que acontece na tela. E o ditado 'Tudo flui, tudo muda' ganha significados adicionais neste filme.

Only the River Flows

Nas obras de Yu Hua, a música ocupa um lugar importante. E no filme, o acompanhamento musical é usado para intensificar o impacto emocional, mergulhando-nos cada vez mais no turbilhão de emoções. As pausas e os sons atrasados, que parecem tentar constantemente alcançar os eventos na tela, acrescentam tensão e nervosismo. E tudo isso é temperado com um visual atmosférico que cria quadros esteticamente belos, que encantam e hipnotizam.

O detetive noir chinês 'Only the River Flows' é um filme sem pressa, que ao mesmo tempo engana e confunde muito, embora não haja enigmas complexos aqui. Algo pode causar perplexidade e dúvidas sobre o que é verdade e o que é fantasia. E o final, que lembra pela abertura o final de 'A Origem' de Christopher Nolan, acrescentará motivos para debate. No final, saímos do cinema com uma sensação de leve confusão. Parece que entendemos o que o diretor (e também o escritor) quis dizer, mas ao mesmo tempo cada um pode ter sua própria resposta.

'Only the River Flows' estreia nos cinemas da Rússia em 27 de junho, distribuído pela A-One Films.