
Em 20 de junho, um dos trabalhos mais reconhecidos do Studio Ghibli foi relançado – o anime de aventura "A Viagem de Chihiro" de Hayao Miyazaki. Sobre o mundo fascinante do folclore japonês e a conexão deste anime com a tradição antiga, leia em nosso...
A protagonista de "A Viagem de Chihiro" é a menina Chihiro, que está passando por uma crise devido à mudança de sua família para outra cidade. Essa crise se manifesta em seu pessimismo, ansiedade e impaciência. Mas, de acordo com as leis de Vladimir Propp (afinal, é um conto de fadas mágico), Chihiro mudará ao enfrentar dificuldades.

A caminho da nova casa, a família vagueia por florestas cheias de algo sobrenatural e encontra uma cidade deserta. Lá, uma bruxa transforma os pais da menina em animais, e a própria Chihiro é forçada a ficar em outro mundo para salvar sua família. Esse episódio é inspirado na crença popular kamikakushi, na qual um espírito sequestra uma pessoa e só a devolve muitos anos depois. Algo como a "captura de almas pelo anticristo" ocidental, só que não tão trágico e irreversível. Kamikakushi também sugere que o espírito pode roubar o nome da pessoa, o que acontece com Chihiro e seu amigo Haku.

A bruxa Yubaba é inspirada no espírito demoníaco Yama-uba. Este yokai é monstruoso na mitologia, mas no trabalho de Miyazaki, embora seja a principal antagonista, ela não representa o mal puro. O avô Kamaji é outro herói cujo protótipo foi um yokai demoníaco. Tsuchigumo – um espírito sinistro semelhante a uma aranha – na tela de "A Viagem de Chihiro" se transformou em um velho rabugento.
A irmã gêmea de Yubaba, Zeniba, pratica onmyōdō (tradicional ensinamento ocultista japonês, uma mistura de taoísmo, xintoísmo, budismo, filosofia chinesa e ciências naturais), pois pode invocar shikigami. No anime, eles são representados como pássaros de papel que perseguem Haku. Se tentarmos encontrar um análogo ocidental para shikigami, seria o familiar.

No entanto, o mundo também está cheio daquelas criaturas míticas que não estão no folclore. Por exemplo, os susuwatari – espíritos da fuligem. Eles apareceram pela primeira vez no trabalho "Meu Amigo Totoro" e se tornaram parte do mundo criado pelo autor. Outro herói que não tem análogo é o Sem Rosto. O próprio Hayao Miyazaki o descreveu assim: "Há muitas pessoas como o Sem Rosto entre nós. É o tipo de pessoa que quer se agarrar aos outros, mas não sabe quem é. Eles estão em toda parte".
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Além disso, este anime não se refere apenas à tradição japonesa, mas também à ocidental. Há muitas histórias em que uma menina adolescente entra em outro mundo: "Alice no País das Maravilhas", "Coraline e o Mundo Secreto", "O Mágico de Oz". Aqui também há um Espelho próprio, que muda Chihiro, e a heroína, por sua vez, muda o mundo mágico.
A música de Joe Hisaishi cria um contraste com essa realidade mágica. Ela não é nada de conto de fadas, mas sim épica. Sob as composições que acompanham a corrida de Chihiro pela ponte, pode-se facilmente imaginar o duelo de Aquiles e Heitor da "Ilíada" ou a tempestade da "Odisseia".

Na tradição antiga, as viagens ao outro mundo também não eram raras. Em termos de tom, a obra mais semelhante a "A Viagem de Chihiro" é "As Rãs" de Aristófanes. Nela, os protagonistas vão ao submundo, sofrendo vários reveses. Esta obra ainda contém traços de comédia e tragédia, pois na época a comédia ainda não se separara de seu gênero primordial. As rãs viviam no rio Aqueronte, através do qual Caronte transporta as almas para o outro mundo. No anime, há um episódio semelhante, só que em vez de um rio, uma ponte, e em vez de rãs antigas, um sapinho mítico Aogaeru, que assustou Chihiro.
Outro topos eterno para a arte ocidental é Virgílio – um tipo de personagem observador-guia que explica as regras do mundo e atua como companheiro. Em "A Viagem de Chihiro", Haku atua como Virgílio, mas sua presença não se limita apenas a essa função, pois ele influencia diretamente o destino de Chihiro.

Se dividirmos este enredo em unidades, podemos descobrir paralelos estruturais, invariantes e combinações de funções. E embora Vladimir Propp tenha escrito que apenas os contos folclóricos possuem essa regularidade, ela pode ser aplicada até mesmo a um anime moderno com tradições japonesas. Os universais culturais não são totalmente incorporados aqui, e a estrutura da obra consiste principalmente não em um conjunto de funções, mas paralelos e tipos ainda existem.
Isso não indica secundariedade ou empréstimo deste enredo; ele é relevante e fundamentalmente novo, pois elementos estruturais idênticos estão presentes em todas as obras. Entre as funções utilizadas estão: "O agressor causa dano ou prejuízo a um membro da família", "O herói é testado, interrogado, atacado etc., preparando assim o recebimento de um meio mágico ou ajudante" (Chihiro recebe o bolinho mágico nigadango da Divindade do Rio), "O herói é transportado, entregue ou levado ao local do objeto de busca". Além disso, "A Viagem de Chihiro" é emoldurado pelas tradições de uma cultura específica e, graças à sua natureza animada plástica, gera muitas associações livres, tornando a percepção simples e única ao mesmo tempo.

É essa simbiose do japonês e do ocidental, do fictício e do inspirado pela tradição, do radicalmente novo e do arquetípico que torna "A Viagem de Chihiro" uma obra próxima ao espectador e sempre atual. Como na maioria dos trabalhos de Miyazaki, este anime tem muitas facetas: exploração da cultura através do prisma do conto de fadas; busca de tipos, enredos e paralelos; contemplação do mundo peculiar dos espíritos e yokai – cada um escolhe por si mesmo.
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