
Nos cinemas, encontra-se o melancólico faroeste de Viggo Mortensen 'Os Mortos Não Causam Dor'. Sobre por que o segundo projeto de direção do ator é um grande sucesso, contamos em nossa resenha.
Vivien Le Coudy (Vicky Krieps) está prestes a deixar seu pretendente em São Francisco. Ele é um chato inimaginável e sempre terrivelmente satisfeito consigo mesmo. Ela cresceu na França e, quando criança, sonhava em ser Joana d'Arc. Agora, ela está pronta para ir embora com ele para lugar nenhum, o que é extremamente ousado, dada a posição das mulheres na sociedade americana dos anos 1860.
O imigrante dinamarquês Holger Olsen (Viggo Mortensen), um marceneiro excepcional e veterano da Guerra Dinamarquês-Alemã, está visitando São Francisco na mesma época, desejando ver o fim do mundo — a costa do Oceano Pacífico (o motivo do oceano como fim da terra, em geral o motivo do limite, é um dos principais no filme). Ele encontra Vivien exatamente nesse período estranho de sua vida. E eles não se separam por um tempo — o diretor Mortensen não se negou o prazer de interpretar o amor à primeira vista com uma das atrizes europeias mais interessantes de sua geração.

Sua história de amor é difícil de chamar de complicada, mas também não é simples. Ele levou Vivien para o estado vizinho de Nevada, onde morava em uma casa abandonada nos arredores, e ela assumiu a administração da casa enquanto Olsen construía celeiros para pessoas ricas, nunca conseguindo construir o seu próprio. Para não depender do amado, Vivien conseguiu um emprego no salão local. Seu destino foi feliz, mas, como toda vida na fronteira, é uma vida no limite. Infortúnios, mortes, paz.
O primeiro a ruir foi o mundo, e Olsen partiu para a Guerra Civil Americana. Ele já era um pouco velho para isso e não devia nada aos Estados Unidos para defender sua unidade, mas conhecia a guerra e queria ajudar a derrotar a escravidão. Vivien podia entender os pensamentos nobres de Olsen, mas não podia ajudá-lo, assim como ele não podia ajudá-la. Ao ir lutar por uma causa justa, ele deixou Vivien sozinha em um mundo de homens que não aceitam a recusa daqueles em quem não sentem força. Naturalmente, isso não terminou bem.
'Os Mortos Não Causam Dor' é um filme de ricas raízes cinematográficas. Podemos lembrar 'Matar ou Morrer' de Zinnemann e 'Josy Wales - O Fora da Lei' de Eastwood, mas acima de tudo, o filme é herdeiro ideológico de 'McCabe & Mrs. Miller' de Robert Altman (Mortensen admite seu amor por essa obra-prima impressionante). O que une o filme de Altman a 'Os Mortos' não é apenas a imagem de uma heroína forte (aqui, Vicky Krieps; lá, Julie Christie), mas também o tom geral, bastante único, e, claro, um certo paralelismo nos finais. Neste último, pode-se ver, aliás, quanta esperança o diretor Mortensen realmente deixa ao público onde poderia ter enterrado de vez os sonhos alheios.

O cinema de Mortensen é um daqueles filmes (ultimamente há menos do que gostaríamos) que podem ser recontados, mas não fará sentido: perder-se-á demais. E não se trata de sua estrutura pesada — a trama leve é embaralhada em uma combinação complexa de flashbacks, flashforwards e algumas memórias muito distantes (até aparece um cavaleiro medieval!) — mas da entonação surpreendente que o diretor conseguiu encontrar. Separada dela e da beleza impressionante das locações, dos rostos dos atores, da escala das paisagens, das nuances que sustentam tudo, este cinema desaparece quase completamente.
Claro, no filme também se pode ver uma propaganda política a favor dos valores democráticos e contra o patriarcado. Alguns fazem isso com prazer. E, de fato, o diretor Mortensen obviamente acredita que as mulheres devem ter direitos e que os ladrões, digamos, devem ir para a prisão, mas há, em primeiro lugar, a esperança de que mesmo entre os críticos nacionais ele não seja o único a pensar assim; e, em segundo lugar, parece que ele não se limita a essa mensagem.
Com uma interpretação tão simplificada, é fácil privar o filme de seu encanto (e nem é preciso assisti-lo para isso), mas isso não é exatamente um problema do filme em si. 'Assassinos da Lua das Flores', por exemplo, também é, no fundo, sobre como matar índios é ruim, mas quanto perde uma pessoa que, após assistir, decide parar nessa verdade elementar. Mortensen não é Scorsese, mas em seu novo filme ele certamente superou a si mesmo. 'Os Mortos Não Causam Dor' é mais confiante, mais profundo, mais sutil que sua estreia; é um raro salto qualitativo, embora silencioso — como todo milagre modesto, é mais fácil não notá-lo do que alegrar-se com ele.

Este é um cinema de momentos impressionantes, não de cenas. Mortensen observa o comércio de peixe. Krieps fareja ratos mortos. Um veterano se prepara para uma nova guerra. Um pianista toca música do Norte em um bar pertencente a simpatizantes do Sul. Da floresta surge um cavaleiro a cavalo, do deserto, um inimigo. Alguém vai embora, alguém retorna, e alguém nunca mais volta. Na tristeza silenciosa deste filme, surpreendentemente, não há vulgaridade: é um faroeste triste e terno que, no entanto, não se permite dissolver em lágrimas, nem permite que seus heróis se afoguem em autopiedade.
Pelo contrário, como nos melhores filmes do gênero, a vida na fronteira é cruel, mas ainda assim segue em frente. Os heróis sempre veem o limite dessa vida — o fim da terra, do país, da liberdade — mas mesmo quando o encontram (como no maravilhoso final), continuam fazendo algo. Os heróis de Krieps e Mortensen são difíceis de chamar de felizes, mas vivem como podem. E mostram, no fundo, que mesmo em terra estranha, no mundo cruel da fronteira, é possível viver com dignidade.
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