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Mergulhamos na história e analisamos um dos primeiros trabalhos do diretor do lendário 'Kung Fu Panda', Mark Osborne – o curta-metragem 'More'.

Em 1998, quando o estúdio Aardman Animation ainda não havia gerado no público um amor abrangente pela animação em plasticina com os filmes A Fuga das Galinhas e Wallace & Gromit, o animador Mark Osborne criou o curta-metragem em plasticina More. Atualmente, ele ocupa o 18º lugar no ranking dos melhores curtas-metragens de animação segundo o IMDb, o que não é por acaso. Vamos discutir por quê.

Enredo

Em uma cidade de um mundo cinzento, vive um inventor cujo dia a dia é um trabalho rotineiro em uma fábrica, montando um produto chamado Happy. Todos os dias, em seus sonhos, o inventor retorna a memórias coloridas de infância. Encontrando uma chama interior, ele decide criar um dispositivo que transmita esse sentimento. Os óculos chamados Bliss inundam as prateleiras das lojas, enquanto seu criador, tendo perdido as memórias, se transforma em um elemento sem alma da realidade.

More curta-metragem
Cena do curta-metragem 'More'

Diretor

Mark Osborne é um diretor cujo nome aparece nos créditos de poucos filmes, mas cada um deles certamente é conhecido. Afinal, é ele o responsável pelas memórias de infância da geração millennial, tendo dirigido Kung Fu Panda e contribuído para as aventuras daquele que... que vive no fundo do oceano.

Os apreciadores de animação não convencional, Osborne respeitou com uma interpretação ideologicamente bela de O Pequeno Príncipe, cujas imagens de bonecos são refinadas em grande parte porque a mecânica de trabalhar com modelos de bonecos, ainda que sob uma camada de plasticina, já havia sido plenamente utilizada 16 anos antes em More.

Características da produção do filme

Trabalhar com animação em plasticina no momento da criação de More já não era uma atividade desconhecida para Mark Osborne. Em 1993, Osborne dirigiu um clipe em plasticina para o músico "Weird Al" Yankovic da música Jurassic Park, e em 1994 fez o curta-metragem Greener, seguindo o modelo do qual More foi criado, encontrando com seu predecessor consonância não apenas nas técnicas de filmagem, mas também na semelhança externa dos personagens.

More Mark Osborne
Cena do curta-metragem 'More'

O curta-metragem foi o primeiro projeto filmado inteiramente com uma câmera IMAX, e o orçamento de produção, pago do próprio bolso de Osborne, foi de consideráveis $105.000. A redução do orçamento foi possível graças a contatos, pelos quais o diretor conseguiu a câmera e os serviços necessários para as filmagens da empresa Large Format Cinema Association. As filmagens não eram o trabalho principal de Osborne, por isso a criação levou quase um ano, considerando que a plasticina era apenas a cobertura dos bonecos utilizados. O diretor focou no enredo, que é uma síntese de componentes significativos.

Reflexões sobre o estado da sociedade

Se o enredo de Greener se concentra no isolamento do indivíduo dentro de paredes literais, onde meios mecânicos substituem a capacidade física (só os patos hospitalares que se colocam sozinhos e o peito mecânico que fornece leite já valem), o objetivo principal de More é mostrar o isolamento do indivíduo nas garras da despersonalização de uma sociedade afundada na rotina, onde as invenções substituem a realização espiritual.

Osborne demonstra um mundo cuja robotização é consequência de uma existência que obedece a configurações e leis artificiais. O enredo se concentra no tema da substituição do conceito de verdadeira felicidade. E esta está concentrada nas crianças, que não perderam a capacidade de ver o mundo através do prisma da sinceridade. As crianças representam a felicidade, encontrando-a em cada dia, independentemente da mise-en-scène, enquanto o adulto, com a idade, perde a espontaneidade e a amplitude da imaginação, enquadrando-se nos limites das condições duras de um mundo governado pela "estimulação do consumo" e pelo capitalismo.

More Mark Osborne
Cena do curta-metragem 'More'

Uma das formas de interpretação de Osborne é a reflexão sobre a transmissão da essência. O espectador é levado à conclusão de que o herói usou mal o fogo que estava dentro dele. Por um lado, há um desejo errôneo de colocar a alma em meios auxiliares, em vez de irradiar através de si mesmo, e por outro, a busca pela monetização da sua alma, que leva à perda de identidade.

O inventor sente vida dentro de si, mas Osborne deliberadamente não dá chance ao herói. Parece que as memórias no início do filme ele vê através das lentes dos óculos criados posteriormente. Cria-se uma certa ilusão de vinheta – a maior parte da tela é preta, e as crianças são mostradas em fragmentos através de um pequeno círculo, que serve como personificação do distanciamento do personagem da possibilidade de retornar ao estado colorido da infância.

É interessante que o curta-metragem, lançado há 26 anos, encontra sua relevância justamente agora, quando a sociedade moderna, forçada a viver um "dia da marmota" em cidades cheias de arranha-céus "formigueiros humanos", encontra felicidade justamente em meios auxiliares, não é à toa que os óculos homônimos enchiam as prateleiras das lojas.

Mas, como nas realidades existentes, a substituição do vazio da alma pela felicidade artificial dos objetos (que, aliás, Osborne retrata com cores extravagantes e algumas imagens alucinógenas não saudáveis) não dura para sempre, então um novo objeto toma seu lugar. E mesmo os óculos "Bem-aventurança" inventados por Osborne, que aumentavam a realidade, recentemente deixaram de ser ficção, encontrando seu reflexo nos óculos lançados pela corporação da maçã.

Cena do curta-metragem 'More'
Cena do curta-metragem 'More'

Trabalho com cor

Para mostrar a despersonalização do mundo, Osborne usa tons de cinza, monocromia, na qual o único elemento colorido intencional são as caixas dos produtos Happy e Bliss. Quando o inventor vê memórias em sonhos, as crianças são mostradas através do prisma da mesma cor amarela que mais tarde aparecerá nas caixas. Assim, transmite-se a imagem de uma vida que já não tem um toque de realidade, embora ainda esteja latente dentro do personagem. Os óculos criados pelo inventor mergulham em um mundo hiperbolicamente colorido, onde as cores são artificiais, como a realidade criada pelos óculos. A naturalidade da cor é vista pelo espectador apenas quando, no final, crianças vivas aparecem na tela como símbolo de emoções reais.

Música da banda New Order

Como acompanhamento musical do curta-metragem, foi escolhida a composição Elegia da banda New Order, gravada em 1985 e associada pela geração mais jovem à série Stranger Things. O estilo da melodia coincide com o conteúdo significativo do enredo – a monotonia do trabalho do inventor é consonante com a circularidade da composição. Mas outra paralelo é mais interessante: na literatura inglesa, "elegia" é um lamento pelos mortos. A composição foi declarada pela banda como uma gravação em memória do vocalista da banda Joy Division, Ian Curtis, enquanto o uso da melodia no curta-metragem pode ser interpretado metaforicamente – um lamento pelos sentimentos perdidos.

Conjunto de impressões e crítica

O filme recebeu críticas elogiosas do público e da crítica. 'More' ganhou mais de dez prêmios de cinema, mas não chegou ao Oscar, que foi para o curta-metragem 'Bunny'. Mas até hoje, o trabalho de Mark Osborne continua a corresponder às tendências da modernidade, apesar de o curta-metragem ter 26 anos. Atualmente, poucos se surpreendem com IMAX e animação em plasticina (e até mesmo inteiramente criada para baratear a produção pelo mesmo princípio de 'boneco em plasticina'), mas 'More' é capaz de interessar tanto pelo estilo de execução quanto pelo conteúdo significativo.

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