
Em abril, foi possível ver nos cinemas o drama filosófico de Kim Ki-duk 'Primavera, Verão, Outono, Inverno... e novamente Primavera'. Contamos por que o filme, lançado em 2003, ainda não perdeu sua relevância e quais princípios éticos ele formula.
O cenário é o reservatório de Chusanji, no Parque Nacional das Montanhas Chuwangsan, na Coreia do Sul. É lá que se situa um templo budista onde um pequeno menino (Oh Yeong-su) é criado por um monge mentor (em uma das fases da vida, o próprio diretor interpreta o papel). Ele terá que passar por um difícil caminho de amadurecimento, conhecer a traição, o amor e a dor do mundo exterior, para retornar e ocupar o lugar de seu mestre. Uma trama bastante simples, sem uma dramaturgia complexa, e cujos elementos se encaixam em uma estrutura circular, como indicado no título. Nenhum mistério, nenhuma tensão emocional, nenhuma reviravolta inesperada na narrativa. Apenas uma observação calma e meditativa da vida cotidiana de dois monges — o mestre e o discípulo.

Os personagens aqui não têm nomes, mas isso não se refere à (minha amada) poética do mistério. A negação do 'eu', da própria história e individualidade (que é exatamente o que o discípulo adulto fará para se tornar monge) é um dos princípios fundamentais da filosofia budista 'Anatmavada'. Seguir os cânones do budismo não impede o autor de falar uma linguagem universal — a linguagem das imagens. As pessoas aqui são apenas pessoas, e mesmo a educação no templo não impede o menino de cometer violência, luxúria e assassinato. Mas a expiação deve ocorrer não no mundo material, mas no espiritual; é por isso que o pior castigo por matar uma cobra na infância são as dores de consciência que pesam como uma pedra no coração.

A filosofia de Kim Ki-duk é algo polar à filosofia dos existencialistas, com seu princípio de auto-subjetividade, 'morte de Deus' e super-homem. Em 'Primavera...', o destino é predeterminado pela própria natureza e sua ciclicidade. O homem, como parte da natureza, está igualmente sujeito a esse ciclo. Mas a dependência da natureza não rejeita um fenômeno como a 'natureza humana', que se manifesta, antes de tudo, na violência (na trama significativa do filme), e da qual o homem precisa se libertar após a expiação. Por exemplo, no final, o discípulo já adulto, que se tornou monge, tem seu próprio discípulo, que realiza as mesmas ações que ele mesmo fez na infância, na mesma época do ano. A natureza aqui é interpretada como algo de onde o homem se originou, e ela não tem poder sobre ele. O homem depende da natureza porque ele é parte dela.

Erich Fromm acreditava que 'o homem é o único animal para quem sua própria existência é um problema que ele precisa resolver e do qual não pode escapar. Ele não pode retornar ao estado pré-humano de harmonia com a natureza; ele deve continuar a desenvolver sua razão até se tornar senhor da natureza e de si mesmo'. São precisamente essas características 'humanas' e a natureza humana (como uma construção bastante constante, mas abstrata, segundo Fromm) que afastam o homem da própria natureza.
Uma ideia semelhante é transmitida por 'Primavera...': na fase em que o jovem descobre o erotismo, seu mentor diz em resposta às desculpas: 'não há culpa sua, é a natureza'. A luxúria é algo natural e, portanto, não é crime ou vício. Mas o assassinato não é justificado pelo mestre dessa forma; consequentemente, tirar a vida de qualquer ser vivo não é um processo natural. A violência é algo que existe no homem, mas não é dada pela natureza, portanto, ela e suas consequências têm uma conotação negativa e exigem expiação.

Ernst Cassirer escreveu: 'O momento inevitável da existência humana é a contradição. O homem não tem 'natureza' — um ser simples ou homogêneo. Ele é uma mistura bizarra de ser e não-ser; seu lugar está entre esses dois polos'. E embora esse ponto de vista não corresponda inteiramente aos princípios filosóficos de 'Primavera...', o herói aqui também passa a maior parte do tempo 'entre dois polos': entre sua natureza humana e a natureza em geral. É esse confronto que forma a parte significativa do filme: o menino percorre o caminho da livre expressão da natureza humana até sua expiação e renúncia. E se a única expressão dessa construção é a violência, pode-se dizer que 'Primavera...' também responde à ética do humanismo, cuja base é a moral e a proibição do assassinato.

Essas teses, formadas na interseção de conteúdo e forma, são compreensíveis para qualquer espectador. Conhecer ou não os princípios do budismo pouco influencia a percepção do lado filosófico do filme, porque o conhecimento permite aprofundar a carga ética de significado, enquanto a ignorância permite ver a rotina no templo sob o ângulo do 'estranhamento', o que intensifica a percepção das imagens.
'Primavera, Verão, Outono, Inverno... e novamente Primavera' não é apenas uma hora e meia de contemplação meditativa da natureza intocada e das ações rituais dos monges, nas quais se pode encontrar muito de fascinante e encantador. Este filme também afirma alguns princípios éticos, expressando-os de forma bastante clara. A base da divisão é a conexão do homem com a natureza externa e sua oposição à natureza humana. A inevitável ciclicidade da vida, que fundamenta todos os meios expressivos, torna o final previsível, mas o ponto forte de 'Primavera...' não está no enredo intrigante, mas sim nesse ritmo lento, quase hipnótico, e na explicação de regras simples da vida com exemplos simples.
Comentários
0Ainda não há comentários.
Entre para participar da conversa.