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Em alguns cinemas russos ainda é possível ver o filme 'A Teoria dos Números Primos' — um filme francês sobre matemáticos, que foi exibido há um ano na programação fora de competição do Festival de Cannes. Os heróis deste filme tentam provar o Teorema...

Condição

Marguerite Hoffmann (Ella Rumpf) vive em Paris e escreve sua tese sobre progressões aritméticas de números primos. Anda pelo campus de chinelos, reflete sobre matemática durante caminhadas, à noite no dormitório só trabalha e, quando trabalha, não consegue parar. Em suma, existe em sua própria realidade: desde o ensino médio, pensa principalmente em números e fórmulas, e agora literalmente vive pela ciência, tentando resolver um dos problemas mais ambiciosos da matemática moderna — provar o Teorema de Goldbach (a tal teoria dos números primos que dá título ao filme, e que em 2024 ainda não foi provada).

Um, dois, três, quatro, cinco: resenha do filme 'A Teoria dos Números Primos'
Cena do filme 'A Teoria dos Números Primos'

Quem a ajuda é seu orientador — um professor um tanto distante e rigoroso, que trabalha no mesmo tema e fará de tudo para entrar na história da ciência (interpretado por Jean-Pierre Darroussin — não só vencedor do César, mas também marido da diretora Anna Novion: ele participa de todos os projetos dela, e este não é exceção). E a École Normale Supérieure de Paris — uma das principais universidades do país — torna-se um cenário muito orgânico para essa rotina: mostrada de passagem através de salas de aula lotadas, um refeitório barulhento e grupos de estudantes (majoritariamente masculinos), a universidade parece um ponto de partida peculiar para a descoberta de algo novo — seja conhecimento científico ou a ainda desconhecida vida adulta.

Pergunta

Tudo estaria bem, mas a partir de certo momento, o mundo construído por Marguerite começa a desmoronar: primeiro, o orientador convida outro doutorando (Juliette Frison), que estudou em Oxford e trabalha na mesma teoria; depois, durante uma apresentação de seu trabalho, a jovem cientista (junto com a plateia que a ouve atentamente) descobre um erro em seus cálculos e percebe que tudo o que fez nos últimos anos não vale nada.

Um, dois, três, quatro, cinco: resenha do filme 'A Teoria dos Números Primos'
Cena do filme 'A Teoria dos Números Primos'

A virada é surpreendentemente brusca: esse erro literalmente risca toda a carreira científica de Marguerite; o professor abandona sua orientanda, e ela percebe que está tudo perdido. E, se é realmente assim, a decisão mais lógica é romper com a ciência e a universidade, e agora ela terá que responder a perguntas de outra natureza: como viver daqui em diante, como ganhar a vida, se emoções são compatíveis com a matemática e se existe vida fora da ciência.

Solução

Claro, 'A Teoria dos Números Primos' acaba sendo um filme sobre matemáticos, e não sobre matemática em si: o espectador médio, durante uma hora e meia, olha para fórmulas complexas, ouve palavras rebuscadas, se impressiona com as conquistas da ciência moderna, mas não entende nada disso — exceto que os personagens são, aparentemente, gênios. Obviamente, isso não seria um grande problema se Novion tivesse desenvolvido bem a história humana, na qual ela foca, do ponto de vista psicológico — mas, ao contrário da protagonista, a diretora resolve sua tarefa de forma bastante medíocre.

Um, dois, três, quatro, cinco: resenha do filme 'A Teoria dos Números Primos'
Cena do filme 'A Teoria dos Números Primos'

A história da crise da jovem cientista se reduz, em 'A Teoria dos Números Primos', a uma antítese comum: há a protagonista (muito inteligente, antissocial e completamente 'maluca' por causa da matemática), e há o mundo que não a entende, mas no qual ela terá que viver. Em vez das aulas na universidade, agora ela precisa jogar mahjong nos bairros chineses — lá, Marguerite, naturalmente, vence todos e ganha muito dinheiro. A mãe da heroína (Clotilde Courau) obviamente não aprova esse ganha-pão, e a colega de apartamento (Sonia Bonny Eboumbou) pega alguns milhares emprestados para pagar o aluguel, mas, como esperado, gasta tudo consigo mesma.

É curioso que jogos de azar e matemática apareçam juntos no cinema de 2023 mais de uma vez: lembremos, por exemplo, de 'Vamos a Macau' de Roman Mikhailov — uma coincidência de enredo com 'A Teoria dos Números Primos': um filme russo sobre pôquer, dirigido por um cineasta que antes era doutor em ciências físico-matemáticas e depois começou a fazer cinema, lançando cinco filmes em dois anos (incluindo este).

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Um, dois, três, quatro, cinco: resenha do filme 'A Teoria dos Números Primos'
Cena do filme 'A Teoria dos Números Primos'

O desejo constante de Marguerite de 'ordenar o mundo com a matemática' parece um tema que poderia ser desenvolvido e desenvolvido, mas Anna Novion não se detém por muito tempo: o mais importante, aparentemente, é fazer uma bela história sobre uma heroína que no início não conseguia nada, e depois um final feliz. O principal é fazer o espectador acreditar nisso — mas, se a previsibilidade da ação se soma à sensação de que você nem entende direito o que os personagens estão fazendo, pode não ser fácil.

A Teoria dos Números Primos: o que era para ser provado

'A Teoria dos Números Primos' é filmada como se sem destaques visuais: apenas uma imagem parece claramente formulada na tela — as paredes do apartamento onde Marguerite, como num quadro universitário, coloca seus cálculos. É nessas paredes que os personagens principais existem — cercados por uma escrita que se assemelha a hieróglifos egípcios. Ella Rumpf e Julien Frison, diga-se, interpretaram seus personagens de forma muito viva, e ambos foram indicados ao prêmio César como 'atores promissores' por seu trabalho neste filme (e Rumpf até levou a estatueta).

Um, dois, três, quatro, cinco: resenha do filme 'A Teoria dos Números Primos'
Cena do filme 'A Teoria dos Números Primos'

Claro, 'A Teoria dos Números Primos' não pode ser chamado de um filme totalmente desajeitado — é, antes, um cinema comum, não muito notável, que conseguirá encontrar seu público. Se quiser, Anna Novion fez uma adaptação do estereótipo sobre pessoas que estudam matemática — e, junto com isso, uma história sobre competição no meio acadêmico e amor, que parece ser ainda mais importante que o Teorema de Goldbach. O filme terminará de forma bastante idealista, mas o idealismo, ao contrário do clichê, pode ser perdoado ao filme (como a qualquer outro melodrama). A juventude, pelo menos, perdoará: se não tudo, pelo menos os sonhos ingênuos.

Trailer: