
No canal HBO, a quarta temporada da série antológica 'True Detective' terminou. Pela primeira vez, o show foi feito sem a participação de seu criador Nic Pizzolatto, mas apesar das visualizações recordes, 'Terra Noturna' (o subtítulo da temporada), i...
Acontece que a série 'True Detective' está celebrando seu décimo aniversário este ano. A icônica primeira temporada com Woody Harrelson e Matthew McConaughey ainda é excelente hoje, especialmente porque desde então nem mesmo o próprio Nic Pizzolatto conseguiu atingir o padrão que estabeleceu para si mesmo nas duas tentativas seguintes. No final, para a quarta temporada, o criador decidiu não retornar, atuando apenas como produtor executivo, enquanto a HBO confiou o show à mexicana Issa López, que, no ano do aniversário, decidiu mostrar a todos o quanto a primeira temporada (e também a segunda e a terceira) é melhor em comparação com a nova.
ATENÇÃO! O TEXTO CONTÉM SPOILERS, PORTANTO, SE VOCÊ NÃO ASSISTIU, TODA A RESPONSABILIDADE É SUA!
Qual é a história?
Na pequena cidade de Ennis, no Alasca, na véspera da noite polar, um grupo de cientistas desaparece misteriosamente das paredes da estação de pesquisa 'Tsalal'. Tudo o que foi encontrado na cena do crime foi uma língua cortada. A investigação do caso caberá à chefe de polícia local Liz Danvers (Jodie Foster), que todos ao redor odeiam por causa de seu caráter (exceto o jovem policial Peter Prior (Finn Bennett), que não apoia os outros). No entanto, quando a notícia sobre a língua chega à patrulheira Evangeline Navarro (Kali Reis), ela imediatamente se lembra do assassinato de uma ativista seis anos antes (a vítima foi brutalmente esfaqueada, espancada e teve a língua cortada como uma mensagem) e percebe que os casos estão relacionados, e se apressa em informar.
Danvers manda a ex-parceira dar meia-volta, convencendo-a a esquecer aquele caso terrível que não pode ser resolvido, mas Navarro, devido às suas convicções feministas, não vai desistir e pretende encontrar novas pistas sobre o caso que a perturba. Na própria cidade, as coisas também não estão nada bem: a água da torneira não é potável, a população está insatisfeita com a situação, alguns moradores veem fantasmas, e ainda por cima os cientistas são encontrados (graças a Fiona Shaw e seu Deus ex machina) nus, amontoados e congelados no gelo, com uma misteriosa espiral desenhada na testa de um deles (pum-pum-pum).
Inverno-mãe
'True Detective: Terra Noturna' é a mais pura inversão da primeira temporada. Os personagens centrais mudaram de gênero, a Louisiana sulista se transformou no Alasca setentrional, e as vítimas não são mais jovens garotas, mas um grupo de homens adultos. Foi assim que Issa López decidiu mostrar que as regras do jogo mudaram e a misoginia da série agora foi corrigida, mas (é uma pena que exista esse maldito 'mas') 'True Detective' não é amado porque conta histórias de investigadores brutais que capturam um psicopata para que garotas frágeis e indefesas não sejam mais mortas. A primeira temporada se tornou icônica porque todos os detalhes (do elenco e roteiro à direção e trilha sonora) se fundiram em um mecanismo perfeito e único. Ninguém a criou com o objetivo de humilhar alguém ou corrigir algum erro (ao contrário de...).

Se analisarmos pelo que a grande maioria elogia a série, podemos chegar a uma tese: 'Em vez de homens estúpidos, agora temos mulheres fortes em primeiro plano, que as atrizes interpretaram perfeitamente na tela. Se você não gosta disso, então você é tão rude e sexista quanto o criador da série, Nic Pizzolatto, que nas redes sociais se permite muito'. É estranho, será que em nosso tempo uma ótima série é definida pela ótica feminina e boa atuação, e a insatisfação e crítica do criador em relação à pessoa que estragou sua criação é um comportamento inaceitável? Por essa lógica, se lhe venderem um iPhone falso, as reclamações devem ser dirigidas a Steve Jobs, e não a quem lhe passou a falsificação.
Não nego de forma alguma que o elogio a 'Terra Noturna' em certos pontos é merecido. Mulheres fortes são legais, e as atrizes realmente atuam de forma magnífica. Jodie Foster e a brilhante Fiona Shaw são simplesmente irresistíveis, e por Kali Reis nem se diria que até recentemente ela era boxeadora e não atuava no cinema.
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Open materialTambém entre os pontos positivos da nova temporada está o excelente cenário. As ruas frias de Ennis, as paisagens geladas, o permafrost e a noite 24 horas na tela criam uma atmosfera sombria realmente adequada para a nova temporada. E a trilha sonora é magnífica, especialmente a abertura estilosa ao som de Billie Eilish (embora isso já seja subjetivo, claro). Mas, apesar de todos esses pontos positivos, a temporada tem muito mais problemas, e todos eles são extremamente sérios.
As geleiras não derreterão
Se olharmos para a série globalmente, 'Terra Noturna' é a temporada mais fraca. Em primeiro lugar, simplesmente trocar homens por mulheres não é suficiente para fazer tudo funcionar. Essas mulheres precisam ser personagens interessantes e não unidimensionais. O caso de Danvers e Navarro é extremamente ambíguo: há uma tentativa de profundidade e contradição, mas quando chega a hora do golpe, nada realmente muda e ambas as heroínas permanecem no ponto de partida, o que mata toda a empatia e desperta um sentimento de repulsa. Considerando o tom feminista da série, é engraçado que o único personagem positivo e sensato seja o herói de Finn Bennett, que tenta fazer a coisa certa, mas devido às exigências de sua chefe inadequada na pessoa de Danvers, perde sua família, afundando no trabalho.
Em segundo lugar, a conexão de 'Terra Noturna' com a primeira temporada é realmente muito estúpida, como Pizzolatto observou. O símbolo da espiral persegue as heroínas durante toda a temporada, mas não leva a lugar nenhum, permanecendo apenas um fanservice idiota. O mesmo acontece com os Tuttles (a família por trás do culto do Rei Amarelo da primeira temporada), cujo sobrenome foi inserido no roteiro como se fosse por brincadeira. De passagem, nos dizem que 'Tuttle United' patrocinou as pesquisas na estação, mas é só. Não haverá mais informações. Aproveite a easter egg. A propósito, 'o tempo é um círculo plano', você sabia? Se na primeira temporada não foi possível lembrar disso, aqui na segunda vez deve ficar gravado na memória.





Mas a conexão mais feia é a inclusão na trama do pai de Rust Cohle, ou melhor, seu fantasma. Em um dos episódios, descobrimos que a personagem de Fiona Shaw teve um caso amoroso com Travis Cohle, que sofria de leucemia e cometeu suicídio há alguns anos, indo para o frio. O corpo do homem foi encontrado pela patrulheira Navarro, mas isso não poderia ter acontecido fisicamente, porque o velho Cohle estava morrendo de uma doença terrível já em meados dos anos 90 (o personagem de McConaughey voou para vê-lo no Alasca em um dos episódios), e a ação de 'Terra Noturna' ocorre no final de 2023.
Pergunta: se Rust voou para ver seu pai moribundo em 1995, e em 2012 ele estava definitivamente morto, como a patrulheira Navarro poderia ter encontrado seu corpo, se ela aparenta ter 35-40 anos? Resposta (provavelmente): o tempo é um círculo plano.

Com base nisso, podemos concluir com segurança que Issa López, sem sequer estudar completamente o lore da série, decidiu conectar sua história com a primeira temporada exclusivamente por fanservice, na esperança de que todos apreciassem o quanto ela é boa. Mas quando ficou claro que não deu muito certo e que o respeito de Pizzolatto e dos fãs não viria, a diretora ficou chateada, e as pessoas começaram a se indignar: como assim o criador não pode gostar de uma fanfic baseada em sua obra? Acontece que Nick é uma pessoa muito má por se permitir expressar sua própria opinião, chamando a temporada de 'estúpida', porque na verdade ele deveria ser grato por uma continuação tão magnífica que corrigiu seu erro misógino pessoal.
Essas noites loucas
No entanto, tudo o que foi descrito acima nem sequer são os principais problemas da série, porque a principal crítica diz respeito ao roteiro. Além disso, podemos facilmente fechar os olhos para algumas convenções, como o fato de os heróis dirigirem com as janelas abertas no frio ou andarem constantemente com os casacos abertos e sem chapéu. E o fato de 'Terra Noturna' ser montada a partir de vários outros projetos ('O Enigma de Outro Mundo', 'Wind River', 'Passagem de Dyatlov' e, claro, a primeira temporada de 'True Detective') também não importa, porque a questão não é essa. A história em si só intriga nas primeiras uma hora e meia de episódio, e depois disso assistir se torna desinteressante (para um detetive, isso é um problema extremamente grande). A trama fica parada no mesmo lugar, e os episódios duram uma hora (ou mais), o que simplesmente cansa.
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As ações mínimas começam apenas no final. O resto do tempo é dedicado a alguns conflitos absurdos e tramas secundárias que mal se encaixam sob o mesmo teto da história principal, fazendo com que 'Terra Noturna' estale pelas costuras, quase incapaz de segurar tudo o que López quer discutir. Há uma tentativa de levantar questões ecológicas, mas ela é abruptamente cortada no final. Também parece mostrar o cotidiano dos povos indígenas do Alasca, mas o tema não é bem desenvolvido, levando quase à romantização do suicídio, e praticamente toda a população aparece diante do espectador como pessoas hostis e psicologicamente doentes. Sobre os temas de feminismo e LGBT* (os segundos, claro, são cortados na Rússia), fico calado, tão ridícula é a forma como são apresentados sob uma luz de pauta.
Mas a cereja do roteiro é o final, que, em teoria, deveria resolver tudo o que se acumulou nos cinco episódios anteriores, mas no final não suportou a pressão e não apenas rachou sob o peso dos ramos não resolvidos da trama, mas também concluiu a história da maneira mais estúpida possível, enterrando de vez o potencial das duas protagonistas.

Infelizmente, não podemos evitar spoilers fortes, portanto, se você não assistiu e não quer saber o final, recomendamos pular diretamente para o bloco com a conclusão.
No final, descobre-se que a ativista foi morta por um grupo de cientistas, o que foi acidentalmente descoberto por mulheres faxineiras comuns, que então decidiram fazer justiça com as próprias mãos e tirar a vida dos próprios homens. Sob a mira de armas, os criminosos pesquisadores foram colocados em um contêiner, levados para a neve, forçados a se despir e ordenados a correr nus na escuridão da noite.
Em sua defesa, as novas criminosas inventaram uma desculpa de que suas vidas foram tiradas pela própria ativista (ou melhor, seu espírito), pois se ela quisesse mantê-los vivos, os teria mantido, já que nada impedia os cientistas de voltar e se vestir (zero obstáculos, exceto uma multidão de mulheres com armas de fogo), mas a morta ainda assim decidiu levá-los. Se você quer saber como os detetives seguiram o rastro das faxineiras, foi com a ajuda de uma intuição maravilhosa da chefe de polícia, que praticamente sem pistas adivinhou o que fazer e teve muita sorte (resumindo, López não se preocupou nem um pouco).

Depois de ouvir essa história maravilhosa, sob a qual todos os culpados pelo assassinato dos cientistas entram na sala com pompa e orgulho, os policiais Danvers e Navarro simplesmente vão embora e decidem deixar as moças em paz, concordando com sua versão. Tipo, homens estúpidos e cruéis mereceram uma morte de cachorro dessas. Essa cena, na concepção, deveria revelar o 'poder feminino' em toda a sua glória. Mostrar mulheres fortes, unidas e capazes de se defender, mas no final a série se torna muito pior por causa dela. E a questão aqui não está nem de longe nas mulheres.
Os personagens de Foster e Reis ao longo de toda a temporada demonstram o quão repugnantes são como policiais e pessoas. Eles estão prontos para matar e falsificar depoimentos para evitar punição. Em 'Terra Noturna', há uma sugestão de que esse erro será refletido e as heroínas mudarão, mas ao longo de 6 episódios a situação só piora. No final, temos duas mulheres acabadas que matam quem precisam, incriminam quem precisam, inocentam ou soltam quem precisam, e mentem onde precisam.

Além disso, no final, eles simplesmente consideram o linchamento local como um método de punição justa devido ao 'poder feminino', fechando os olhos para um assassinato em massa brutal cometido por mulheres em conluio prévio. Se isso é feminismo e seus princípios pelos quais 'Terra Noturna' é elogiada, então eu prefiro ser um 'sexista que acredita que todos devem ser iguais perante a lei, independentemente de gênero, orientação, nacionalidade e outras diferenças'. Ao apoiar e elogiar tais ações, as pessoas retornam aos tempos dos bárbaros. Como dizia o slogan da primeira temporada: 'O homem é o animal mais cruel'? Issa López nos provou isso mais uma vez, pois em 'Terra Noturna' quase todos se encaixam nessa tese, e em particular os detetives Liz Danvers e Evangeline Navarro.
Qual é a conclusão?
Honestamente, não está claro por que foi necessária a vinculação à marca 'True Detective' (na verdade, é claro que o objetivo é puramente capitalista, mas ainda assim), se era possível remover todas as conexões com a primeira temporada, refinar o roteiro para uma boa história, trabalhar nas tramas secundárias e personagens, reescrever o final, manter o título 'Terra Noturna', e teria ficado muito melhor e mais interessante. Mas no final, a nova temporada é uma fanfic de segunda categoria tentando agradar o maior número possível de pessoas, mas todos sabemos que se você é amigo de todos, não é amigo de ninguém.
Já se sabe que o projeto foi renovado para uma quinta temporada e que Issa López será novamente a responsável (o que é compreensível, a temporada foi a mais assistida de toda a série). Mas nem sempre os números de visualizações e bilheteria são o melhor indicador. No IMDb, o episódio final estabeleceu um recorde completamente diferente — a menor avaliação do público em todas as quatro temporadas, e isso também é motivo para reflexão (embora sempre haja a saída conveniente de chamar todos de sexistas). Dizem que a hora mais escura é antes do amanhecer, então resta esperar que 'Terra Noturna' seja exatamente essa hora, e não os primeiros dias de uma longa noite polar que não terá fim à vista.
*O movimento LGBT é reconhecido como extremista e proibido na Federação Russa.
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