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Nos cinemas, é possível ver o melodrama 'A Natureza do Amor', lançado em 22 de fevereiro. Um filme que vale a pena assistir, mesmo depois de todos os valentines já terem sido dados. Mais sobre este filme desesperadamente inteligente em nossa resenha.

A professora de filosofia Sophie (Mégali Lepine Blondeau) aguarda um cargo de professora na universidade, briga periodicamente com o marido Xavier (Francis-William Rheault), também filósofo, ironiza cada nova namorada do irmão e tenta ser um apoio para sua mãe e para a mãe do marido. Ela ama o marido, mas não há paixão entre eles, e que paixão poderia haver — 'A Poética do Espaço' de Gaston Bachelard, que é exatamente o livro que Xavier dá de aniversário a Sophie, deve, claro, ser discutido com a cabeça fria.

Tudo muda quando Sophie vai para a nova casa de campo deles para colocá-la em ordem. O encarregado Sylvain, que deve fazer a reforma, acaba sendo, para dizer sem rodeios, um gato sensual. E ainda com espanhóis na ascendência (e isso numa região francófona do Canadá!). Mesmo uma amante de Platão (ou talvez especialmente ela) não tinha muitas chances, ainda mais quando, cinco minutos de tela depois, Sylvain convida Sophie para um bar para conhecer os vizinhos.

Cena do filme 'A Natureza do Amor' resenha Mégali Lepine Blondeau
Cena do filme 'A Natureza do Amor'

O enredo seguinte é fácil de prever: por um tempo, o romance de Sophie e Sylvain fica em segredo, mas logo ela não aguenta e confessa tudo ao marido na mesma casa de campo. Xavier vai embora com as malas naquela mesma noite, embora ainda à noite estivesse contando aos pais que ele e Sophie estavam pensando em ter filhos. Sophie tem uma chance de ser feliz com Sylvain. Sim, ele é de um meio completamente diferente, ouve Michel Sardou (Rosenbaum, traduzindo para nossa realidade), enquanto ela cita um Baudelaire qualquer, a mãe dele acredita em alienígenas e claramente tende à bebida, e o irmão dele trata a esposa no espírito das recomendações do 'Domostroy', mas ainda assim.

A narrativa clássica das comédias românticas, assim como dos melodramas, nos ensina que, mesmo que as pessoas não tenham nada em comum, o amor pode uni-las. Um senador pode se dar bem com uma empregada, um redneck pode mudar por uma intelectual de Nova York, Shrek pode ser feliz no pântano com a Princesa Fiona. Monia Chokri não nega essa possibilidade, apenas sugere olhar para a realidade de forma mais sóbria. É importante que ela não desencanta os melodramas clássicos, seu objetivo não é tirar os sonhos de infância de ninguém, mas sim oferecer uma narrativa alternativa, 'Maridos e Esposas' na ótica da teoria política, se preferir.

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Nadezhda Vasilyeva
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Sylvain e Sophie se dão bem juntos, mas no final, o que os une é apenas a paixão. Ela aprende a se olhar, especialmente seu corpo, através dos olhos dele, e ele confirma mais uma vez para si mesmo e para os outros que sempre foi mais inteligente do que um redneck típico. Com Xavier, Sophie também não estava mal, e seus encontros ao longo do filme só confirmam que o que realmente os une é tanto a comunhão de interesses quanto a semelhança de expectativas de vida e o nível cultural. No entanto, com tanta coisa em comum, eles não conseguem se conectar de verdade, sempre há uma ruptura em seu relacionamento.

Cena do filme 'A Natureza do Amor'
Cena do filme 'A Natureza do Amor'

Chokri, observando isso, pacientemente recontando verdades tristes e diálogos engraçados, uma série de encontros bem-sucedidos e nem tanto, encontros e noites em família, acaba se fazendo duas perguntas. O que é o amor? E se ele está de alguma forma ligado à união de duas pessoas, à formação de um vínculo estreito entre elas, de onde vem esse vínculo? Por que, por exemplo, ele não se forma entre Sophie e Xavier, embora tanto seu estilo de vida quanto eles próprios sejam tão parecidos?

São boas perguntas, digamos, para pensar, e se a primeira é mais abordada em inserções filosóficas, onde Sophie em seminários reconta as abordagens do amor de filósofos famosos — de Spinoza a bell hooks (a feminista americana sempre escrevia seu pseudônimo criativo em letras maiúsculas para que a atenção fosse dada às suas ideias, não a ela) — a segunda constitui na verdade todo o filme em toda a sua beleza triste.

Como muitas pessoas inteligentes, Chokri aparentemente queria fazer um pornô sobre o que a aflige, mas a bagagem cultural não permitiu. A comédia romântica, o erotismo, o melodrama, esses gêneros essencialmente pulp servem para ela como uma moldura conceitual, assim como os diálogos platônicos, para refletir sobre o que pode unir as pessoas modernas, se os trumpistas e os amantes da poesia francesa realmente vivem no mesmo país, ou se já são realidades completamente diferentes, e a chegada de Sophie a uma noite em família de proletários é o mesmo que a chegada de alienígenas?

Cena do filme 'A Natureza do Amor' resenha Monia Chokri Mégali Lepine Blondeau
Cena do filme 'A Natureza do Amor'

A simplicidade grosseira deles é estranha a ela, e a sensação inflada de estar sempre certo, tão comum entre os amigos de Sophie, é estranha a Sylvain. No final, os amantes não se conhecem tanto, mas começam a ver estranhos em seu próprio círculo. Ao se alienarem de sua própria família e amigos, os heróis não encontram apoio em nada. A solidão global, a possibilidade apenas de intimidade mecânica, a morte do amor na sociedade do espetáculo — todos esses motivos constituem 'A Natureza do Amor', um filme triste e honesto no espírito do Woody Allen maduro sobre como é difícil amar o outro quando não se consegue nem amar, muito menos encontrar a si mesmo.