
Recentemente, a Academia Americana de Cinema anunciou os indicados ao Oscar. Pelo título de melhor filme internacional, concorrerá o novo filme do diretor Wim Wenders, 'Dias Perfeitos', sobre a vida de um faxineiro de banheiros de design em Tóquio. V...
Diante de nós está Hirayama. Ele ganha a vida limpando banheiros de design em Tóquio e, nas horas vagas, vai ao banho público, come em diferentes lanchonetes, lê e anda de bicicleta. Para ele, é importante fazer bem o seu trabalho e que ninguém perturbe sua rotina estabelecida. Parece que sua vida consiste em uma rotina cansativa, sem nada interessante ou verdadeiramente significativo. Mas, na verdade, cada um de seus dias é perfeito.
O diretor alemão Wim Wenders, que em 1987 se destacou no mundo com o filme 'O Céu sobre Berlim', 6 anos após seu último filme 'Mergulho', finalmente lançou uma nova obra — 'Dias Perfeitos'. Com este trabalho, o diretor alemão parece expressar seu profundo amor e gratidão ao Japão, e o país retribui: 'Dias Perfeitos' foi indicado ao Oscar pelo Japão na categoria de 'Melhor Filme Internacional'.
Ao começar a assistir ao filme, pode-se pensar que poderia ser não um filme de ficção, mas sim um documentário intitulado 'Alguns Dias na Vida de um Faxineiro de Banheiros no Japão'. Nos primeiros trinta minutos, somos imersos no ritmo tranquilo da vida de Hirayama, interpretado por Kōji Yakusho. Embora pareça que ele não está atuando, mas vivendo esse personagem, experimentando todas as suas emoções como se fossem suas.
Cada quadro aqui é como um poema não dito, e todo o filme é saturado de poesia do cotidiano. Nem o herói nem a câmera do operador têm pressa; eles se movem calmamente em seu próprio ritmo, absorvendo os momentos da vida. Em termos de sensação, isso lembra muito os filmes de Jim Jarmusch, que busca a beleza em cada dia, desfruta da rotina e da simplicidade dos dias comuns, quando nada de sobrenatural acontece na vida. A vida é bela aqui e agora, então viva-a com prazer — é o que Jarmusch nos convida a fazer, e essa mesma mensagem é captada em 'Dias Perfeitos'.
O herói usa cada minuto livre para admirar o balanço das folhas, os reflexos nos vidros, o jogo de sombras e os padrões de vapor nas janelas. Ele gosta de observar o louco local na rua e espiar os transeuntes ou vizinhos aleatórios no banco do parque. Além disso, no filme não há muitas conversas; o diálogo principal ocorre dentro do próprio herói, e seus melhores interlocutores são livros e música. Hirayama parece um personagem analógico perdido no mundo digital do século XXI: seu estilo de vida causa perplexidade nos outros, ele não se encaixa nos padrões da sociedade moderna. Mas para ele isso não importa, ele se sente confortável consigo mesmo. E é nisso que reside o segredo do seu dia perfeito.
Ao mesmo tempo, o filme tem um conflito interno que atinge Hirayama quando sua rotina habitual é perturbada. Isso não pode ser chamado de clímax no sentido tradicional, mas graças a certos eventos, fica mais claro como o herói consegue desfrutar de cada dia, amar seu trabalho e estar em paz consigo mesmo e com os outros.
O filme não dá nenhuma explicação sobre as razões pelas quais o protagonista escolheu esse estilo de vida. Mas parece que o passado neste filme não importa, pois a vida é o que está acontecendo conosco agora. E a princípio parece que Hirayama tem uma vida muito previsível e despreocupada. Mas Wim Wenders, no momento certo, mostra de forma muito sutil e bonita que o sorriso sincero de cada dia custa um esforço ao herói. E que ser feliz é uma escolha pessoal de cada um, e não uma coincidência de circunstâncias.
Gostaria de destacar especialmente a imagem incrivelmente bela do filme: pores do sol e amanheceres pitorescos, paisagens noturnas, cenas com folhas farfalhantes, como se estivéssemos sentados em um parque, e não em uma sala de cinema, vistas fascinantes de Tóquio, filmagens aconchegantes de lanchonetes e ruas locais. E as músicas que tocam aqui só aumentam a sensação de beleza geral e cordialidade, acrescentam significados adicionais ao que acontece na tela ou simplesmente alegram o coração com melodias familiares. A música no filme é um personagem separado, que está sempre por perto: apoia, consola, evoca um sentimento de nostalgia e lembra coisas agradáveis e boas. Parece que Wim Wenders ama muito o cinema de Jim Jarmusch.
Muitas vezes tentam nos convencer de que a felicidade está nas pessoas ao redor, que só outro pode te dar o que dará sentido à sua vida. Wim Wenders discorda disso. Seu 'Dias Perfeitos' é um filme sobre a solidão escolhida, que traz prazer e ensina a desfrutar de cada momento vivido. É sobre harmonia interior, que permite encontrar significado no cotidiano, não buscar a alegria, mas viver nela. Viver aqui e agora — isso é o que importa. E é muito simbólico que no final do filme toque a música 'Feeling Good'.
P.S. Dizem que no filme é possível ver o próprio Wim Wenders, então fique de olhos bem abertos. E não deixe de assistir aos créditos até o fim, pois lá você encontrará a explicação de uma palavra japonesa muito bonita, que adicionará mais emoção à sua experiência.
A distribuidora cinematográfica A-One lança 'Dias Perfeitos' de Wim Wenders em ampla distribuição na Rússia em 1º de fevereiro.
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