
Em ampla distribuição, ainda é possível ver o novo filme de John Woo – 'Fúria Silenciosa', no qual o diretor se importa mais em se expressar do que em criar mais um filme de ação impactante.
O exemplar pai de família Brian Godlock () se prepara para passar o Natal com a família. No auge da festa, no bairro problemático onde Brian mora, um violento tiroteio irrompe entre duas gangues rivais. Uma bala perdida fere mortalmente o filho pequeno de Brian, e o pai, em choque, tenta alcançar os bandidos para se vingar. Essa perseguição termina mal para ele também – Brian leva um tiro grave na garganta e perde a voz para sempre.
Alguém na Apple TV+ claramente adora ficção científica, transformando o streaming em um paraíso de projetos sci-fi. Recentemente, a plataforma lançou a série 'Silo' sobre um mundo pós-apocalíptico, ond
Open materialAlgum tempo depois, o protagonista do filme recebe alta do hospital e volta para casa, onde tudo ainda o lembra da trágica perda. Brian afoga a tristeza na bebida, não se comunica com a esposa, que, aliás, tenta estabelecer uma vida, senão igual, pelo menos normal, considerando tudo o que caiu sobre a cabeça de uma família decente. Brian, por sua vez, assiste TV sombriamente e, às vezes, visita a delegacia sem sucesso, na esperança de que os assassinos de seu filho sejam pegos. Mas o tempo passa, as autoridades encolhem os ombros, e então Godlack decide fazer justiça com as próprias mãos, dando aos criminosos um ano de vida. Até o próximo Natal.

O diretor de filmes de ação cult John Woo retornou com um longa-metragem americano após longos 20 anos. Durante todo esse tempo, o diretor, claro, não ficou parado e dirigiu nada menos que blockbusters de grande orçamento em sua terra natal, a China (por exemplo, o magnífico 'A Batalha dos Penhascos Vermelhos'), aprimorando sua maestria em visualização. Isso o envolveu tanto que, em seu novo filme 'Fúria Silenciosa', um filme de ação direto e compreensível, com os quais Woo começou sua carreira, ele decidiu apostar no efeito visual, eliminando todos os diálogos do filme. O resultado é algo entre uma ópera sombria e sangrenta e um filme mudo do início do século XX, mas com ajustes para os dias de hoje.
Não, 'Fúria Silenciosa' não é completamente desprovida de fala humana; caso contrário, o espectador moderno simplesmente não entenderia o filme. Aqui, a TV murmura periodicamente, os médicos falam baixo, a música do veterano de Hollywood Marco Beltrami aumenta a tensão, a esposa de Brian (Catalina Sandino Moreno) tenta desesperadamente conversar com ele, mas recebe apenas um silêncio gelado. E os sons mais altos, com toda a justiça, vão para a principal característica do gênero – guinchos de pneus, tiros ensurdecedores, vidros quebrados e o som surdo de corpos caindo de grandes alturas.
A intenção de Woo de contar a história principalmente visualmente é compreensível. Na era de 'John Wick' (feito segundo os preceitos de Woo) e 'Missão: Impossível', o diretor precisava de um artifício notável, uma ideia não convencional, para destacar seu filme dos demais. Isso serviu principalmente como ponto de partida na campanha publicitária do filme – um filme sem diálogos.

No mais, 'Fúria Silenciosa' não decepciona as expectativas depositadas nela. Ou seja, se o espectador vai ver John Woo, ele o encontra. Lutas magistralmente coreografadas, uma sinfonia louca de perseguições e tiroteios, o drama profundo de um pai inconsolável transformado em uma máquina de matar refinada, entre as cenas de ação (mas desta vez, essas cenas são mais longas do que o normal – Woo não esconde o sentimentalismo que vem com a idade), e, claro, as mise-en-scène caracteristicamente elaboradas antes dos confrontos iminentes. Aquilo que Woo sempre soube fazer e praticou, mantendo um ritmo constante e evitando correria desnecessária. Só que desta vez, por algum motivo, ele dispensou os pombos. E parece que isso é um mau sinal.
Quem mais sofreu com esses truques cinematográficos foi o ator sueco Joel Kinnaman, que não só teve que realizar parte das acrobacias, mas também manter constantemente a tensão no rosto, expressando a emoção necessária em cada momento (a melhor, claro, era a fúria silenciosa).
Woo não poupou seu herói nem um pouco. Brian é um trabalhador comum: cerveja à noite e reuniões familiares perto da lareira nos feriados. Ele não tem passado militar ou reputação de ex-agente especial. Godlock teve que começar do zero, dominar todos os tipos de armas em pouco tempo (aprendendo no YouTube), aprender a dirigir como um dublê e treinar seu corpo até se tornar uma mola de aço pronta para disparar a qualquer momento. E Kinnaman lidou bravamente com a tarefa.

Curiosamente, aqui John Woo engana um pouco o espectador, que está pronto para acreditar que um vingador desesperado pode derrotar o inimigo com alguns golpes precisos. Logo no primeiro confronto sério, Brian mal escapa com vida, e a tentativa de salvar um policial ferido termina em fracasso. Woo não se ilude. 'Fúria Silenciosa' não é apenas um filme de ação espetacular, é também seu diagnóstico dos dias atuais. As pessoas estão divididas, não há onde esperar ajuda, as famílias se desfazem, a justiça não triunfa e a verdade não tem voz.
No final, Brian se torna um participante do mesmo tipo de tiroteio que matou seu filho, mas ele não pensa mais nisso. Nem no fato de que sua esposa, que perdeu um filho, pode perder também o marido, e que a gangue eliminada é apenas uma entre milhares. Woo não é a primeira vez que coloca um ponto de interrogação no final de seu filme, mas desta vez ele parece muito maior e mais pesado.
Comentários
0Ainda não há comentários.
Entre para participar da conversa.