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A frase 'o homem é o lobo do homem' ganha um subtexto adicional na ficção científica autoral 'O Reino Animal', que chega aos cinemas. O longa francês mostra como as pessoas se transformam em animais, mas acabam sendo mais humanas do que os 'sobrevive...

Diante de nós, um mundo que lembra o nosso, com uma exceção — as pessoas se transformam em criaturas híbridas com animais. Uma doença peculiar não afeta a todos indiscriminadamente, mas seletivamente. E não há cura para essas mutações no corpo. Para entender a verdadeira escala (não geográfica) da tragédia, observamos a história de uma família, onde a mãe já se transformou, e o pai (Romain Duris) e o filho (Paul Kircher) cada um à sua maneira tenta lidar com as mudanças inevitáveis.

A solidão é um dos principais temas que preocupam as pessoas há séculos. A euforia do século 21 com o surgimento da internet, que permite fugir desse sentimento desagradável, está desaparecendo, e dá lugar à percepção de que nos tornamos ainda mais isolados do que antes. Solidão na multidão, rejeição e incompreensão dos sentimentos e pensamentos alheios, desejo de mudar a si mesmo para se encaixar — isso é familiar a todos. E preocupa especialmente as pessoas nos últimos anos, quando o mundo se aproxima cada vez mais do limite do qual parecia querer fugir.

A ficção científica autoral 'O Reino Animal' se destacou no Festival de Cannes de 2023, onde foi o filme de abertura da programação 'Un Certain Regard'. E é uma escolha muito acertada, pois o longa combina elementos de vários gêneros: distopia social, body horror, romance de formação e drama familiar. Mas se tentássemos caracterizar 'O Reino Animal' em uma palavra, eu escolheria 'solidão'.

O Reino Animal

O diretor Thomas Cailley examina sutilmente esse sentimento sob diferentes ângulos. A primeira coisa que ele aborda é a não aceitação na sociedade daquelas pessoas com metamorfoses, que são forçadas a fugir e se esconder na floresta. Caso contrário, enfrentariam anos de sofrimento e isolamento em uma sociedade onde não há mais lugar para elas.

Este filme também trata da solidão pessoal de cada um de nós, causada pela incompreensão nos relacionamentos com os entes queridos, pela incapacidade de estabelecer contato, de se expressar e não ser punido por isso. Ser diferente e ainda assim ser amado, ou pelo menos respeitado. E as mutações, que aparecem repentina e seletivamente, são como uma metáfora para a luta interna que ocorre em cada um de nós quando escolhemos nos adaptar à sociedade ou defender nossa singularidade.

Além disso, o filme fala sobre o medo de ficar sozinho, que é mostrado principalmente através da história do pai e do filho. Eles tentam não apenas aceitar o que aconteceu com a mãe/esposa, mas também resolver seus problemas não ditos. Superproteção e separação — talvez uma das palavras mais frequentes em podcasts sobre psicologia, e em 'O Reino Animal' o diretor não se esquece de lembrar as dificuldades nas relações entre pais e filhos. Como dizem, se você ama, deixe ir.

De forma bastante superficial, mas ainda assim, Thomas Cailley aborda também a solidão profissional através da personagem de Adèle Exarchopoulos. Trabalhando como policial, ela é forçada a engolir piadas inadequadas de seus colegas homens e se sentir deslocada nessa atmosfera masculina.

O Reino Animal

'O Reino Animal' é um filme muito pessoal, apesar de os eventos se desenrolarem em escala de diferentes locais, pessoas e até esferas da sociedade. O autor compartilha sua ansiedade, medos e pensamentos sobre para onde nosso mundo pode caminhar. E embora seja ficção científica, há muito que é compreensível e real para nós agora.

O autor literalmente expõe a ideia de que o crescente sentimento de solidão e desconexão entre as pessoas não leva a tentativas de se aproximar, de entender os outros. A solidão gera ódio e ainda mais incompreensão, que intensificam essa solidão, resultando em um círculo vicioso. E a saída dele, como Thomas Cailley acredita, é aprender a ouvir os outros, ser mais gentil e entender que nossas diferenças são o que nos torna melhores.

Assista 'O Reino Animal' nas telonas a partir de 30 de novembro. Agradecemos às distribuidoras A-One e Russian World Vision pelo filme.