
'Defeitos', um pequeno filme da competição do festival indie Sundance, chega ao lançamento digital. Sobre por que vale a pena prestar atenção neste filme – em nossa resenha.
Ben (Justin H. Min) sonha com uma carreira de roteirista e, com sorte, de diretor. Por enquanto, ele se contenta em ser gerente de um cinema de arte e namora a ligeiramente mais bem-sucedida Miko (Ellie Maki), que ajuda a organizar festivais de cinema locais. Em sua vida, há também a amiga ligeiramente menos misantropa Alice (Sherry Cola), com quem frequenta os mesmos lugares, toma café e reclama da vida. Após dias tão intensos, à noite Ben assiste a filmes clássicos – de 'Bom Dia!' de Ozu a 'Frances Ha' de Baumbach (dá para notar o disco no sofá!). Parece que seu infantilismo melancólico pode durar para sempre, mas Miko, cansada de suas brigas constantes, de repente vai para Nova York estudar cinema, Alice tenta cada vez mais mudar de vida, e o cinema impopular está cada vez mais perto de fechar.
Sem Miko, Ben vagueia por São Francisco em busca de ouvidos disponíveis, mas só encontra mais problemas. As ligações para a namorada terminam em desastre, e suas tentativas de explicar a todos no mundo que eles vivem errado e não entendem nada o levam a uma solidão ainda maior.
'Defeitos' é um daqueles filmes em cartaz cuja descrição pode começar com referências imediatamente reconhecíveis. É um cinema silencioso – 'A Primeira Noite de um Homem' para millennials e 'Frances Ha' para garotos; entre os importantes, lembra-se de 'A Pior Pessoa do Mundo' (que algumas pessoas, e o autor desta resenha não está sozinho, consideram o melhor filme do ano passado), e, mais recentemente, da moderadamente notável 'Amanda', que esteve em cartaz no verão, e, entre os grandes, 'O Coração Partido' de Elaine May. Com este último filme, a estreia de Randall Park (artista conhecido, entre outros, por um papel secundário na Marvel) tem muito em comum: um protagonista de moral duvidosa, uma trama fluida e, claro, tentativas não tanto de realizar o sonho americano, mas de entender em que ele consiste.

Nesse contexto, é difícil chamar Ben de um personagem muito original, mas os criadores tentam dar a ele alguma individualidade além do amor pelos clássicos e suéteres de tricô. Um motivo importante do filme, por exemplo, é que Ben não se importa nem um pouco com sua origem asiática e ri das tendências de Hollywood em aumentar a representatividade. Ao ver em um festival de cinema um remake de gosto duvidoso de 'Uma Linda Mulher' com artistas asiáticos, ele não se alegra com a representatividade, mas ri do filme ruim.
É a partir dessas pequenas observações que se constrói este cinema modesto e divertido. Os autores querem falar sobre muitas coisas ao mesmo tempo, e conseguem com graus variados de sucesso (embora os melhores filmes clássicos também pequem por isso – por exemplo, o maravilhoso filme de Truffaut, 'Beijos Roubados', que Ben deveria assistir). Um tema importante – a busca de Hollywood pela representatividade total em detrimento da qualidade dos projetos – é bem explorado e com bom gosto: da rejeição total dessa prática, Ben passa primeiro a uma paciência contida e depois a uma compreensão tocante. Alguns temas talvez mais interessantes, por outro lado, são apenas mencionados de passagem, embora não sem sucessos.
O relacionamento tóxico de Ben com Miko e outras duas garotas (uma delas, aliás, é interpretada de forma notável por Debby Ryan – uma descoberta) é, por um lado, bem e precisamente mostrado, mas, por outro, parece ter muito pouco espaço. Embora em relação a Miko o filme se permita um sarcasmo bastante decidido: essa garota progressista em todos os aspectos se aprofunda tanto no autoconhecimento e no amor-próprio que acaba não notando mais ninguém. O herói a acusa de hipocrisia, e é difícil dizer que ele está errado.
Ao mesmo tempo, Ben é, claro, ele próprio um abusador hipócrita e terrivelmente imperfeito. Ele ri do conceito de relacionamentos românticos porque ninguém está disposto a assistir com ele pela décima vez 'Os Incompreendidos'; ele reclama da vida o tempo todo sem tentar mudá-la; ele critica com justiça todos ao redor, recusando-se a olhar para si mesmo. Como muitos millennials, Ben observa a vida muito bem, mas vive mal, e seus comentários sarcásticos sobre o cotidiano acabam sendo mais interessantes do que a própria vida. As anotações nas margens da história, em algum momento, sobrepõem o texto principal.

Pode-se criticar essa situação no âmbito da narrativa – e essa imersão em si mesmo realmente não torna o filme mais interessante – mas, no fundo, é uma observação importante sobre a contemporaneidade. O herói de 'A Primeira Noite de um Homem' se entediava com a vida, com seu ambiente, com o absurdo dos sonhos, mas não tinha a opção de não viver dessa forma. Já o herói do nosso tempo, ao contrário, cansado do estilo de vida de sua classe, pode se excluir de sua reprodução, mas parece privado da possibilidade de realmente reinventar sua vida. Essa incerteza existencial ecoa também o desenraizamento cotidiano dos migrantes, mesmo que de terceira geração, de suas origens.
Para ser honesto, 'Defeitos' não desenvolve essa ideia e para no meio do caminho. Mas, no final, este cinema incompleto nos ensina o principal: que merecemos ser julgados não pelos nossos piores atos e piores momentos, mas por quem queremos ser. Mesmo que nem sempre consigamos. É assim que provavelmente devemos tratar este filme: ele tem, perdoem o trocadilho, alguns defeitos, e muitos momentos da trama carecem de profundidade, mas ainda assim podemos ver neste filme não uma versão asiática de 'A Primeira Noite de um Homem', mas algo maior. Mesmo que, em alguns pontos, não tanto.
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