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Chegou aos cinemas 'Dois, Três, Demônio, Vem!', uma declaração de gênero moderadamente envolvente sobre como não se deve perturbar os mortos. Sobre o terror popular que muitos (sem pensar, ao que parece) chamam de melhor do ano – na nossa resenha.

Os distribuidores nacionais nos surpreenderam novamente não apenas com um filme ocidental da moda, mas também com uma localização interessante. O melancólico 'Talk to Me' ('Fale comigo') se transformou no ousado 'Dois, Três, Demônio, Vem!', no espírito dos chamados de Candyman. Desta vez, a distribuição não é responsabilidade da 'Exponenta', então não é 'Invocação do Mal: Espíritos', mas ainda assim merece um aperto de mãos do tradutor. Especialmente considerando que não há demônios reais no filme. 

Este é um filme sobre fantasmas. Adolescentes do ensino médio (atores australianos que, aliás, realmente parecem adolescentes, e não como de costume – com calvície) gravam TikToks de sessões espíritas caseiras. Eles se reúnem na casa de amigos, encontram voluntários para conversar com os mortos e dão a esses voluntários uma mão de cerâmica para apertar, cuja origem provavelmente será tema de uma sequência (já em preparação) e que aparentemente pertenceu a alguém não muito bom. Os fantasmas sempre vêm, e o principal é pedir que 'entrem' em você. Mas o tempo seguro da sessão espírita é estritamente limitado – não mais que um minuto e meio, caso contrário, as almas dos mortos podem ficar para sempre com quem as invocou.

Um dia, ao grupo de amigos amadores do paranormal se juntam suas colegas de classe – Mia (Sophie Wilde), que está em depressão após a morte da mãe, e a sensata Jade (Alexandra Jensen, a versão australiana de Thomasin McKenzie). Com elas vem (contra a vontade de Jade) o irmão desta, Riley, de 11 anos. Quando Mia aperta a mão mágica, ela começa a tremer, aponta para Riley e diz que ele pertence aos fantasmas. 

Nessa premissa, o melhor é a própria mão estendida do nada, que dá vontade de apertar. A sessão espírita já não é uma ideia marginal e complicada, mas algo bastante natural. Num mundo onde ninguém está disposto a estender a mão a adolescentes solitários – nem para ajudar, nem para cumprimentar – até essa serve.

Dois, três, demônio, vem!
Cena do filme 'Dois, Três, Demônio, Vem!'

No geral, é bastante assustador, embora os irmãos Philippou evitem o terror puro e imotivado – por trás da fixação específica de Mia por fantasmas está, claro, um trauma não processado e o mistério da morte da mãe. Essa fixação em traumas é mais uma concessão à era dos pós-terrores do que uma necessidade narrativa, mas alguns por causa disso apressaram-se em comparar 'Dois, Três, Demônio, Vem!' com 'Hereditário'. Se isso é Ari Aster, então 'Se Beber, Não Case!' é um drama existencial. Embora nesse cenário, por que não.

Depois disso, nada de especial acontece; os adolescentes continuam se reunindo para festas espíritas, e nisso reside, em teoria, a principal diversão que o filme oferece: adolescentes possuídos tremem de forma monótona, dizem coisas enigmáticas e de vez em quando riem maldosamente. Às vezes – e esses são os melhores momentos do filme – as sessões se tornam realmente interessantes: um fantasma com fetiche por pés (chupam pés!), um fantasma que adora beijar cachorros na boca, e por aí vai. É uma pena que, na maioria das vezes, mandem pessoas chatas para o inferno, e o minuto e meio de vida recém-concedida elas também não usam de forma muito original.

Seria, aliás, uma ideia curiosa para um terror, mas, primeiro, algo assim já foi feito em muitos lugares, e segundo, os autores evitam cuidadosamente pensamentos em geral. A metáfora de tentar se conectar com fantasmas como uma dependência química é o melhor que o filme oferece, e embora seja uma boa ideia, chega um momento em que eles a explicitam de forma direta, e fica tudo muito chato.

A comunicação com os mortos pode realmente viciar; o passado geralmente é um pouco mais simpático que o futuro, mas no filme tudo se resume a uma euforia física banal pela possessão de um fantasma. As tentativas de desenvolver outra linha – sobre a tentação de preferir os mortos aos vivos – falham, embora nesse contexto haja uma cena notável: quando, perto do final, a protagonista encontra um falso pai. 

Essa cena e mais algumas boas descobertas (com a mão, novamente) nos fazem acreditar que os diretores têm um grande futuro, mas nada pode nos fazer nos importar tanto assim com esse futuro. Embora, em uma coisa, os irmãos Philippou estejam certos: as sessões espíritas devem mesmo ser limitadas a um minuto e meio. Assistir por mais tempo a diretores iniciantes tentando invocar 'O Exorcista' no cenário de terrores adolescentes já é bastante insuportável.