Preview image

'A Mentira Perfeita' é um belo exemplo de thriller ou algo mais?

No dia 10 de agosto, chega aos cinemas russos o filme 'A Mentira Perfeita' de Sylvain Decloux (originalmente 'Grandes Esperanças') com as estrelas do cinema francês contemporâneo Rebecca Marder ('Meu Crime', 'Casos Extraconjugais') e Benjamin Lavernhe ('Jeanne Du Barry', 'The French Dispatch', 'Trocando de Lugar') nos papéis principais. 

Cena do filme 'A Mentira Perfeita'
Cena do filme 'A Mentira Perfeita'

É um filme-engano no sentido mais elegante: por um bom tempo, você terá a impressão de estar assistindo a um thriller clássico com viés político, mas o final lembrará que você está vendo um filme francês. 

Por essa reviravolta na trama, vale a pena assistir 'A Mentira Perfeita', mas não é o único motivo.

Sobre o que é o filme?

A jovem e ambiciosa Madeleine (Rebecca Marder) e seu namorado infantil e romântico Antoine (Benjamin Lavernhe) entram em uma discussão verbal com um simples fazendeiro da ilha da Córsega, que termina com a protagonista matando o último. Mas, como o casal apaixonado tem uma carreira política de sucesso pela frente, eles decidem esconder seu envolvimento no incidente e deixar a cena do crime. 

Soa como um POV de 'House of Cards' ou 'True Detective', mas o diretor Sylvain Decloux desenvolve a história à francesa. Separados pelo estresse do assassinato, Madeleine e Antoine seguem caminhos profissionais diferentes: ela mantém seus objetivos e sonhos anteriores, ele escolhe o caminho mais fácil. No entanto, Antoine, mimado pela vida, não consegue aceitar o sucesso de Madeleine e decide entregar a ex-amada à polícia.

Cena do filme 'A Mentira Perfeita'
Cena do filme 'A Mentira Perfeita'

Por que assistir?

A estrutura do filme é clássica. Até o desfecho, pode-se literalmente contá-la pelos esquemas dos livros de Linda Seger, e aqui até dá vontade de criticar o filme por sua pureza pedante (o que quase nunca se espera de diretores franceses). 

A sensação é reforçada pelo trabalho de câmera simples, até ascético, de Julien Hirsch ('10 Minutos Mais Velho: O Violoncelo') e, às vezes, por recursos visuais amadores (a imagem do fazendeiro morto que persegue a protagonista, a marca molhada na camiseta de Madeleine que repete o local do ferimento no peito, etc.).

No entanto, tudo é corrigido pelos protagonistas bem escritos e perfeitamente interpretados.

Madeleine

Madeleine, interpretada por Rebecca Marder, é uma anti-heroína ambígua: inteligente, astuta, determinada, apaixonada. 

Cena do filme 'A Mentira Perfeita'
Cena do filme 'A Mentira Perfeita'

É muito valioso quando o autor não entrega ao espectador toda a história pregressa do personagem de bandeja para explicar todas as ações de forma óbvia, mas sim sugere com talento, sem encher o ar com detalhes desnecessários. 

Madeleine é exatamente esse tipo de personagem. Uma garota do interior, um pouco envergonhada de sua origem, que deseja uma vida melhor para si e para pessoas de sua mesma classe social. Ela está disposta a jogar sujo para isso, mas não é alheia à empatia e à humanidade.

Antoine

Benjamin Lavernhe é capaz de surpreender. Apesar de Antoine no roteiro ser um infantil rico um tanto caricato, no filme ele é interpretado com amor e talento surpreendentes. Nele, você claramente reconhece aquele ex-namorado da sua melhor amiga – um tóxico terrível para quem ela sempre volta (spoiler: Madeleine não é essa sua amiga).

Decloux também consegue abordar o conflito de gerações. Não, ele não revelará nada de novo, mas mostrará perfeitamente a semelhança entre dois mundos sociais – por mais que queiramos a separação, nos sentindo em perigo, voltamos para a casa paterna. Os protagonistas fazem o mesmo. 

Post image
Cena do filme 'A Mentira Perfeita'

E a parte visual?

Apesar de ter caracterizado o trabalho de Hirsch como ascético, isso não significa que seja ruim. O filme é muito bonito e agradável aos olhos. Composição equilibrada e movimentos suaves de câmera, iluminação bem trabalhada, especialmente nas cenas noturnas.

Além disso, a solução visual se desenvolve paralelamente à trama, o que, sinceramente, não se espera de um filme assim. Não apenas a paleta de cores muda, mas também os ângulos e planos. Claro, não veremos 'Mr. Robot', mas a imagem consegue agradar.

E quanto às questões sociais?

Aqui está tudo bem. O filme, em estilo godardiano, não esquece de onde vem, então uma das ideias principais é, claro, social. 

Pessoalmente, como espectadora, aprecio a maneira como 'A Mentira Perfeita' demonstra os problemas atuais de seu país. Ao contrário do cinema de autor francês a que estamos acostumados, Madeleine não observa com esnobismo o que acontece no país (o que, aliás, Antoine faz), nem se lança cegamente às supostas barricadas do regime estabelecido. 

Cena do filme 'A Mentira Perfeita'
Cena do filme 'A Mentira Perfeita'

Ela não é uma caricatura, embora o personagem, devido à idade, não seja isento de maximalismo e ingenuidade. E você acredita nela, e a perdoa completamente por aquela mentira perfeita.

Veredito

'A Mentira Perfeita' é um bom thriller de verão. Ele não deixará você ficar entediado e será uma excelente alternativa aos blockbusters excessivamente dinâmicos e chamativos. É uma história inteligente, com homenagens às lendas do cinema (a 'Persona' de Bergman, por si só!), uma imagem agradável e temas atuais. Ao mesmo tempo, o filme não mergulha em simbolismo profundo e alegorias, o que o torna um companheiro leve para uma noite.

No entanto, não espere algo excepcional do filme de Decloux. Apesar de 'A Mentira Perfeita' ter sido líder de bilheteria na França no ano passado, não é um filme de investigação, e mesmo em seu gênero, dificilmente revelará algo novo para um cinéfilo ávido. 

Trailer: