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Uma história intimista em ocre, que cativa com a sua estagnação melancólica, ou uma metaficção desdentada onde o enredo ofusca o encanto da imagem? O que é “Cidade dos Asteroides”?

Wes Anderson é sempre Wes Anderson. Ele é a sensação de desligamento da existência por trás de uma cortina de filtros de cores suaves. Ele é um mergulho na imagem teatral do mundo real. Acarinhado e criticado pelo público e pela crítica, Anderson continua sempre um viajante que descreve, de forma peculiar, microcosmos que vivem dentro dos limites do mapa político.

Cidade dos Asteroides” é a história de um desses microcosmos no sudoeste dos EUA. Jovens astrónomos e as suas famílias reúnem-se para o festival anual em Asteroid City – uma cidadezinha perto de um campo de testes nucleares, cuja única atração é um fragmento de asteroide. Mas tudo isto é uma peça de teatro, cujas fases de criação são narradas ao espectador por um apresentador-guia (Bryan Cranston) num programa de televisão.

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Cena do filme “Cidade dos Asteroides”

A consistência de “Cidade dos Asteroides” é como areia movediça. Composta por múltiplos elementos e camadas, difere do fenómeno natural apenas pelo facto de sugar mais rapidamente quanto mais o espectador é imobilizado pela falta de dinâmica na trama e pelo acompanhamento monótono do quase irreconhecível Alexandre Desplat. E emergir à superfície das cores amortecidas da peça em formato amplo, dividida em atos, que em si mesma é parte de uma metaficção, só é possível através do mundo a preto e branco da televisão de formato estreito, que por vezes se entrega a tais efusões de pensamento que se insinua a sensação de uma influência invisível de Lynch, hipnotizando monotonamente com a voz narrativa de Anderson: “Não acordarás se não adormeceres”.

E estão todos absolutamente a dormir: a atriz Midge Campbell (Scarlett Johansson), cansada da vida; o fotógrafo de guerra Augie Steenbeck (Jason Schwartzman), que, três semanas após a morte da esposa, é forçado a contar finalmente o sucedido aos filhos; as suas filhas encantadoras, mas como que saídas dos corredores do hotel Overlook, identificando-se com o extraterrestre e o sobrenatural; e o gerente do hotel vazio, onde até uma ponte semi-triste sobre a autoestrada leva a lugar nenhum.

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Cena do filme “Cidade dos Asteroides”

Para lugar nenhum… Parece que tudo na história de Anderson leva para lá, pois enquanto a câmara faz cabriolas entre as imagens a preto e branco e as coloridas, foca o olhar do espectador com a centralização do plano, flutua, gira e dita ao observador o que precisa de ser examinado mais detalhadamente, para onde virar a cabeça, o conteúdo enche-se de uma estagnação dolorosa, da qual ninguém pode escapar às amarras do seu pequeno mundo interior. Esses mundinhos são os quartos onde as personagens se hospedaram: o quarto de revelação e a casa de banho. E apenas através de pequenas janelas, dispostas simetricamente umas em relação às outras no plano, pessoas simétricas na sua tristeza interior podem abrir-se. Mas só um pouco, pois mesmo os diálogos repletos de obviedade demonstram o cansaço da existência.

– Você não está aqui.
– Nós não estamos lá.
– Estarei quando chegar.

No filme, não há conclusão, seja do que for. As personagens não atingem os seus objetivos, ou mal os tocam: a perseguição com tiroteio é interminável, a banda de country simplesmente permanece no mesmo sítio, o pai não decide o futuro das filhas, e o avô desiste das tentativas de mudar o local de enterro da mãe delas, o cheque para o vencedor do concurso foi entregue fora do ecrã, a casa queimada não foi totalmente reparada, até o terreno comprado, ao que parece, não foi realmente comprado.

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Cena do filme “Cidade dos Asteroides”

Mas é nisto que reside o encanto do filme, a sua essência. Não se pode acusar o realizador de falta de ideias no filme, porque no meio do “nada” que leva a “lugar nenhum”, cada um se torna um pouco mais capaz de encontrar aquilo que pode agitar o “vazio” da vida. A sede de descoberta, as teorias da conspiração, o amor e até um extraterrestre que, para não perturbar o sono geral, se comporta como um gatinho medroso mas travesso. E para que o ser humano possa notar a oportunidade de sentir algo novo, precisa de um pequeno descanso, uma pequena quarentena num lugar tranquilo.

De uma só vez, Anderson não só justificou a reviravolta da trama, como também brincou com o cliché da política militarista dos EUA, bem como com os costumes dos próprios americanos, que, por exemplo, mesmo na mais pequena praça conseguem instalar um parque de diversões com roda gigante e algodão-doce.

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Cena do filme “Cidade dos Asteroides”

E depois? Quando o abalo temporário acalma, os cenários coloridos esvaziam-se e a vida volta ao seu curso normal, será que o espectador regressa ao ponto de partida de um cinema sem sentido? Será que o realizador criou apenas uma imagem encantadora que obriga as personagens a marcar passo, tanto literal como figuradamente? Por mais estranho que pareça, ao contrário de “”, Wes Anderson fez um filme de significado muito coeso. Descrevendo a fuga da realidade, ele próprio é uma forma de descansar e não a notar durante, pelo menos, duas horas.

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Varvara Ulianenok
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