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Amigos são aquelas pessoas que criticam seus ex de graça, roubam qualquer coisa de qualquer um para você, superam qualquer dificuldade só para te agradar e, no final do dia, estão prontos para subir no balcão do bar e dançar uma dança vergonhosa, se...

Quem não gosta de assistir a um filme que desperta nostalgia ou empatia repentina por personagens que nunca conheceu na vida? Quando um personagem nos é próximo, nos vemos em suas ações, isso ecoa em nossa alma. E assistir a um filme ou série se transforma em uma conversa com um amigo próximo (ou uma ida ao psicoterapeuta, dependendo da sorte).

A nova dramédia ‘Relações Platônicas’ da Apple TV+ é quase um espelho da nossa vida, no qual cada um pode ver algo seu. Aqui, o cinema imita a vida de tal forma que dá vontade de apontar o dedo para a tela como Leonardo DiCaprio em um meme e gritar que eu também estive lá, que também fiz essas loucuras. Por isso, resolvi fazer uma seleção das (na minha opinião) loucuras mais sinceras que Sílvia (Rose Byrne) e Will (Seth Rogen) fazem. E essas loucuras podem ser familiares a cada um de nós, mesmo que ainda não tenhamos 40 anos, como os amigos inseparáveis da série.

Provavelmente, nem todos concordarão com essa visão de ‘Relações Platônicas’. Para alguns, a série pode parecer, por exemplo, exagerada, imatura ou simplesmente sem graça. Se você não concorda com a opinião da autora da seleção, pode parar de ler. Provavelmente, essas situações não despertarão nenhum eco em você.

Episódio 1 — ‘Piloto’

Abraços estranhos

Vocês combinam de se encontrar em um café, não se veem há anos, e até passa pela cabeça a ideia de reconhecer a pessoa, caso ela tenha mudado muito fisicamente... Se isso é familiar para você, também será familiar o terrível constrangimento do primeiro encontro de Will e Sílvia após anos separados. Quando vocês se olham e a mente está vazia: não sabe o que perguntar, então corre para contar e mostrar fotos dos filhos/cachorros/gatos/amigos/selfies com Keanu Reeves/gesso na perna/fuga de vacas selvagens e... a lista é interminável.

Despejamos um no outro fatos secos, eventos estranhos, falamos sobre a família e seguimos a lista de parentes, porque se ficarmos em silêncio, a pausa que surge nos fará sentir um constrangimento ainda maior, boca seca e mãos suadas.

E em 15 minutos vocês já estarão na porta do café para se despedir, porque esses 15 minutos duraram uma eternidade. E vocês, ao mesmo tempo, não sabem o que fazer com esse constrangimento e simplesmente se cansam da amabilidade e sinceridade exageradas e fingidas.

Episódio 2 — ‘O Lagarto Gandalf’ (2 cenas de uma vez)

Escolhendo uma casa

Se for para tomar decisões importantes, que seja com uma pessoa próxima, como um amigo. Afinal, ele pode dizer na hora certa que você está louco no seu desejo e nem percebe o quanto enlouqueceu.

Provavelmente, um investimento arriscado de dinheiro pode ser a compra de uma casa, especialmente se for um antigo asilo, onde ainda paira aquele cheiro característico e nos corredores há andadores abandonados. É engraçado e triste, mas essa é a realidade da escolha de Sílvia, que conta com a ajuda de Will.

Mas, por outro lado, uma cozinha própria no quarto de cada criança, um vaso sanitário com barras de apoio e um pato debaixo da cama são coisas úteis. Se ao menos o reboco não caísse do teto e não cheirasse a mofo, daria para viver como no paraíso.

Nessa situação, com certeza é preciso o conselho sensato de um amigo, que consiga avaliar a magnitude do desastre. E, primeiro, tirar uma boa sarrada, para depois salvar seu orçamento e, de quebra, sua alma desesperada.

Relações Platônicas, Seth Rogen, Rose Byrne

Ex na fogueira

Terminos são sempre desagradáveis e dolorosos, e o divórcio, pior ainda. Nesses momentos, o ombro amigo é mais necessário e importante do que nunca. E se o amigo ainda fizer uma acrobacia circense e passar pela portinha do cachorro para invadir a casa dos outros ilegalmente, então ele não tem preço.

Will e Sílvia, como dois adolescentes, entram na casa da ex-mulher dele para supostamente pegar as coisas que ele não consegue buscar há semanas. E, por acaso, dão de cara com a ex. Após uma discussão em voz alta, os heróis saem de fininho da casa, e Sílvia, pelo amigo, leva sorrateiramente um troféu — o lagarto favorito dele, Gandalf. E, claro, no caminho, eles detonam a ex de Will, pois amigos de verdade sempre se apoiam, mesmo quando a culpa é deles.

Relações Platônicas, Seth Rogen, Rose Byrne

Episódio 3 — ‘Festa Corporativa’

Passeio com o vento

Se você quer se distrair, se sentir jovem e despreocupado (especialmente aos 40 anos), pode simplesmente pegar uma patinete elétrica e sair pelas ruas da cidade. Melhor ainda se fizer isso na companhia de um amigo. Vocês passam juntos no drive-thru de hambúrguer, chutam outras patinetes, quebram lixeiras, ficam putos, aceleram e batem em alguma coisa, e depois, cansados, mas felizes, sentam no asfalto. A patinete elétrica te leva a qualquer lugar, e o que importa não é onde, mas com quem.

Relações Platônicas, Seth Rogen, Rose Byrne

Episódio 5 — ‘O Namorado da Minha Esposa’

Dois carneiros são uma força

Se você é casada, mas tem um melhor amigo homem, às vezes surgem situações estranhas. Para evitá-las, é bom que o marido e o amigo sejam amigos. Por isso, o marido de Sílvia decide conhecer melhor Will e o convida para um jogo de beisebol com os colegas. Lá, eles têm que passar um pouco de vergonha para tirar uma foto juntos para Sílvia. O constrangimento é tanto que tudo acaba em danças bêbadas no balcão do bar, árias de ópera e danças estranhas no estilo robô.

Mas, na verdade, não é preciso ser casado para sentir todo o embaraço de situações assim: quando estranhos tentam ser amigos por causa de uma pessoa em comum. E se tudo termina em danças no balcão do bar, então, provavelmente, vocês se esforçaram bem e conseguiram construir algumas pontes para não se matarem no futuro.

Episódio 6 — ‘26 é Sério’

Naves espaciais na minha cabeça

Quanto mais velhos ficamos, mais ouvimos piadas sobre tios velhos que gostam de mulheres mais novas (embora seja impróprio contar isso para crianças). Para isso, até inventaram um ditado especial: ‘cabelos brancos na barba, diabo na costela’ — tão ruim é a situação.

Não é de surpreender que Will, de 40 anos, tenha decidido encontrar consolo nos braços de uma estudante que apreciou seu esforço para se rejuvenescer, além de seu amor pela imaturidade e roupas estranhas e cafonas. A juventude subiu à cabeça do personagem de Seth Rogen, a tal ponto que nem mesmo os discursos convincentes de Sílvia o trouxeram de volta à realidade. Afinal, ele tinha uma profunda conexão espiritual com sua jovem paixão.

E só uma performance vibrante da música Nicki Minaj — Starships trouxe Will de volta à terra de repente. E ele percebeu que a lombar já doía, que era difícil festejar a noite toda sem parar, e que a diversão louca geralmente cansa mais do que energiza. E a conexão profunda ele confundiu com o brilho e a novidade de um relacionamento intenso. Claro, juventude é um estado de espírito, mas aos 40 anos já é mais difícil ignorar o rangido nos joelhos e as olheiras.

Relações Platônicas, Seth Rogen, Rose Byrne