
Estreia nos cinemas o drama erótico francês "Casa dos Prazeres" sobre uma escritora que se emprega em um bordel para coletar material para um novo romance. Sobre por que isso não é tanto erotismo, mas um esboço sociológico – em nossa resenha.
Emma, uma jovem escritora que terminou seu segundo romance, muda-se com a irmã para Berlim e começa o terceiro. Será sobre trabalhadoras de bordéis, sobre as quais muito já foi escrito e, claro, tudo mentira. Para chegar ao fundo da questão – seja da prostituição, seja de si mesma – Emma consegue um emprego em um bordel (na Alemanha, eles são legalizados). De mente aberta, ela não vê nada de errado nisso, ao contrário de sua irmã e de seu amante – um escritor casado que ficou em Paris.
No início, Emma trabalha em um bordel mais simples e barato, mas com esse material, é claro, não se escreve um romance – as colegas não confiam nela, os clientes ocasionalmente preferem cocaína a ela. Então ela consegue um emprego em um bordel de luxo – a "Casa" – que dá nome ao filme no original. Lá, em um espaço que combina quartos fechados para encontros com clientes, sem luz natural, e uma cozinha e área de estar lindamente iluminadas, Emma (sob o pseudônimo de Justine) trabalha, conversa com novas amigas e escreve constantemente em seu diário.
E há muito o que escrever: uma prostituta envelhecida relembra a juventude e como escolheu essa carreira; outra trabalhadora se esforça em ritmo stakhanovista por falta de dinheiro em casa; e uma colega ganha mais que todas porque é dominatrix e, como se diz, muito requisitada. De vez em quando, esses diálogos interessantes na cozinha – a parte mais cativante do filme – são interrompidos por cenas de sexo com clientes que, devido à iluminação de neon, lembram clipes de rap de narguilé, mas filmados, em alguns momentos, com certo humor.
Mais um parágrafo nesse estilo bastaria para resumir "Casa dos Prazeres" até o fim, mas não faz muito sentido – como toda autoficção (e esta é uma adaptação do romance autoficcional de Emma Becker), o filme começa onde o autor quiser e termina onde o espectador desejar.
Pode-se ver nesse filme uma romantização dos bordéis – Emma quase é estuprada algumas vezes, e suas colegas sofrem tentando juntar os cacos de suas vidas, mas isso não impede ninguém de ver uma romantização dos bordéis. E quando impediu? Mas é importante dizer: a prostituição é apresentada no romance como uma questão de escolha que deve ser respeitada. Nem sempre é assim na realidade: a coerção à prostituição, a exploração do trabalho infantil, o envolvimento nesse negócio por engano – tudo isso existe e certamente merece ser descrito. Mas a escritora Becker e a diretora Annissa Bonnefont escolhem outra ótica e, mesmo nela, não fogem da realidade – algumas cenas difíceis de digerir estão presentes em "Casa".
"Casa dos Prazeres" também pode ser interpretado como um esboço sociológico sobre como, ao fazer observação participante (estudando uma comunidade por dentro; método da ciência sociológica), é fácil se envolver a ponto de se confundir. Emma é uma observadora eterna, mas também uma participante. Suas colegas, sua família, ela mesma, no final – ninguém consegue traçar a linha onde termina o romance e começa a vida.
No entanto, talvez valha a pena ver neste filme algo mais. Acima de tudo, uma história sobre como uma garota sofreu e conquistou algo significativo através do sofrimento. Sobre como uma pessoa pode transformar sua vida não apenas em uma performance (isso seria prosaico demais), mas em material para uma grande narrativa, um romance sério. Da vida desprovida de sentido e de uma história sem qualquer moral especial, talvez seja possível extrair algo importante, e isso é certamente reconfortante.
Outra questão é que Emma, em sua narração em off, extrai pensamentos, para dizer o mínimo, nada originais, e em algum momento no último terço já não se sabe ao certo se ela tem algo a dizer. Por outro lado, o que há para dizer. Aqueles que não sabem que o bordel é a melhor metáfora do capitalismo tardio não vão a esses filmes, e para nós, os outros, tudo está claro mesmo sem palavras.
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