
No dia 14 de fevereiro, estreia nos cinemas a melodrama erótico 'Desobediente', a resposta nacional a '50 tons de cinza' com Alexander Petrov no papel principal. Sobre por que este filme, atrasado sete séculos, evoca pensamentos não sobre amor, mas,...
A estudante de ecologia Elvira (Anastasia Reznik), a titular desobediente, dedica todo seu tempo livre à proteção da natureza – ensina as pessoas a alimentar patos, salva cães, apoia o namorado em sua iniciativa de salvar galinhas. Mas numa bela manhã, ela enfrenta uma tarefa titânica – proteger a floresta de Bitsevsky do desmatamento.
Quem quer derrubar a floresta para construir o arranha-céu Bitz-Tower (sim, sério, Bitz-Tower, e com formato claramente fálico) é o jovem milionário e inovador Matvey Rysak (uma ideia significativa foi colocada – Rysak, obviamente, remete a garanhões), interpretado por Alexander Petrov. E como a floresta de Bitsevsky, conforme anunciado no filme, são os pulmões de Moscou, Petrov aqui está, de certa forma, poluindo o ar. E parece que essa não é a pior ideia para o filme, mas depois descobre-se que o coração do herói é de ouro, assim como suas mãos (em todos os sentidos), e todo o resto, desculpe, também.
Para salvar o parque, a estudante faz um acordo com o herói de Petrov: se ela viver uma semana com o milionário, cumprindo todos os seus desejos, e depois quiser ir embora, ele desistirá de construir seu arranha-céu na floresta. Parece simples – querer sair do poder alheio? Mas o herói de Petrov sabe que, na Rússia, as mulheres não se separam de homens no poder por 20 anos, especialmente se eles as exploram como objetos.

Já na premissa – estudante e jovem milionário, preferências sexuais específicas deste, contrato legal – vêm à mente involuntariamente os '50 tons de cinza', cuja resposta russa seria 'Desobediente' (na verdade, é uma cópia, não uma resposta, algo como a indonésia 'Lady Terminator' em relação ao filme de Cameron). Se não fosse pela intenção dos autores de intitular o filme como um pornô ruim, poderíamos sugerir '50 tons de moral cinzenta', pois – e é estranho dizer – o filme 'Desobediente' é ruim não por ser um filme ruim, mas por ser imoral, o que é perceptível até em comparação com o original americano.
A diferença fatal entre 'Desobediente' e '50 Tons' está não tanto no erótico (embora Dornan como Richard Gere para millennials seja mais convincente que Petrov), mas no político: a heroína de Johnson é de classe média, e na Rússia não existe classe média, então grande parte do conflito que movia a trama original se perde. Para Anastasia Steele, o relacionamento com o milionário significava perda de liberdade e, portanto, era uma ideia duvidosa; para Elvira, o relacionamento com Petrov não significa perda de liberdade, porque, desculpe, o que perder? E toda a atratividade ou não atratividade se resume exclusivamente à sexualidade de Petrov. Isso, claro, é um problema.
Além disso, o contrato de Grey e Anastasia era um conjunto de regras claramente definidas, enquanto o contrato de Matvey e Elvira serve principalmente para encontrar uma imprecisão legal – o ato sexual é proibido, mas a masturbação, por exemplo, não – e é usado não para estabelecer as condições do relacionamento, mas para induzir na heroína a síndrome de Estocolmo, que, no âmbito da substituição de importações, já deveria ser renomeada para síndrome de Moscou.
O contrato de Matvey com Elvira é baseado na firme compreensão de que, na Rússia, uma vez na escravidão, poucos se esforçam para sair dela, e neste caso, por quê? Calor, conforto, chocolate branco (não pergunte), a oportunidade de rir na cara dos policiais de trânsito que ousaram parar o milionário e sua acompanhante, que atravessaram meia Moscou na velocidade de uma nave espacial. Nesse sentido, um filme que trata tão acriticamente os privilégios daqueles que, por terem nascido na família certa, gozam não de poder, mas de impunidade, faz com que torçamos pelos policiais de trânsito, e isso é quase um milagre. Embora se em algum momento do filme Moscou fosse atacada por Godzilla, as simpatias de muitos espectadores certamente estariam do lado dele.
'Desobediente' lembra o filme 'Leviatã', onde o protagonista é o próprio Leviatã, e a desigualdade de classes, o fosso econômico, a impotência de uns e a onipotência de outros não são realidades tristes da vida, manifestações de injustiça global, resquícios de uma estrutura social feudal, mas, em geral, um sonho, quase características da cidade de Deus. Os autores idolatram a riqueza, o dinheiro se torna objeto de desejo sexual, a revista Forbes substitui a Playboy, e a libertação sexual de Elvira, um tropo obrigatório nesses filmes que ilustra o autoconhecimento, aqui aparece em grande parte como uma transição de classe.
Ao mesmo tempo, as 'pessoas pequenas', que no filme são principalmente desagradáveis (como o reitor) ou engraçadas (como o vizinho do namorado de Elvira), têm direito à sinceridade, direito de serem até um pouco tocantes, de fazerem tortas 'como na infância', e mais – têm direito de existir, o que, na visão dos criadores, já é uma grande e imerecida graça. O problema é que, depois deste filme, a vontade de existir é ainda menor do que antes.

Nos seus melhores momentos, 'Desobediente' lembra uma nova temporada de 'O Solteirão', dirigida pelo diretor de videoclipes de Egor Krid ao som da rádio Energy, e nessa qualidade dá até para assistir, e quando aparece o xingando Yan Tsapnik, é difícil não assistir – observar um grande artista (a série 'O Último Ministro' é prova disso) é sempre agradável, embora a falta de seletividade de Yan Yurievich possa incomodar. Mas nos outros momentos, que são mais numerosos, o filme lembra não um anúncio de aparelhos de barbear, como '50 tons de cinza', mas uma adaptação da versão pornô do Domostroy, e não apenas as conquistas do pensamento da nova esquerda e das feministas da terceira onda, mas até as ideias das sufragistas parecem algo inovador diante desse espetáculo.
Aqueles que aguentarem até o final provavelmente se lembrarão da mãe, talvez de Deus, talvez de Michel Foucault com sua ideia sensata de que as práticas amorosas estão intimamente ligadas às práticas de poder. No final, e isso não será um grande spoiler, Matvey Rusak amarra sua amada e amorosa Elvira na técnica shibari e a suspende, proporcionando prazer a ambos, enquanto o colega de Elvira, pobre e, portanto, pouco atraente (a sexualidade no filme está intimamente ligada ao tamanho da carteira), em montagem paralela, se satisfaz sozinho.
É fácil pensar que este é o final de um filme de Lars von Trier – 'A Casa Que Jack Construiu', por exemplo. Lá, o herói também ganhava confiança, promovia seu estilo de vida, e tal. Mas Jack precisava matar mulheres, a vida era difícil, o fim estava próximo, o inferno era terrível, enquanto aqui o inferno é habitado e bem cuidado, e nem precisa matar ninguém – todos já estão mortos, e involuntariamente parece que, nem deste lado nem do outro da tela, isso nunca vai acabar.
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