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Pelo papel em 'Tár', Cate Blanchett recebeu um prêmio em Veneza, o Globo de Ouro e uma indicação do Sindicato dos Atores dos EUA. E muitos já preveem seu Oscar, chamando a personagem do filme de seu melhor trabalho de atuação. Por que o Oscar para Ca...

Lydia Tár é uma maestrina mundialmente famosa que alcançou feitos inéditos na carreira, sem esquecer a vida pessoal. Tornando-se a primeira mulher maestrina da Orquestra Filarmônica de Berlim, restou-lhe o último e principal objetivo: gravar a Quinta Sinfonia de Gustav Mahler. Começam os preparativos, os ensaios com a orquestra, enquanto Lydia dá masterclasses nas melhores instituições musicais, conversa com pessoas influentes do mundo da arte, cuida da filha adotiva e ajuda sua assistente na carreira... e tudo vai bem, até que a personalidade impecável de Lydia é posta em dúvida.

O novo trabalho de direção de Todd Field, após 15 anos de silêncio, tem uma joia principal e indiscutível: Cate Blanchett. Quanto ao resto, as opiniões podem divergir, porque 'Tár' é um filme irregular, tanto no ritmo quanto no desenvolvimento da trama. Logo no início, vemos os créditos finais; depois, ouvimos mais do que vemos quatro longos diálogos da personagem de Blanchett com diferentes pessoas — sobre arte, sobre a percepção da música, sobre a importância de compositores com vidas pessoais controversas. Verbalmente, e não por meio de ações, o diretor nos apresenta Lydia Tár, e essa apresentação, que dura cerca de 40 minutos, pode ser um verdadeiro teste para o espectador que não estiver disposto a aceitar a lentidão e a viscosidade da primeira parte.

Tár, Cate Blanchett

Em seguida, o filme gradualmente acelera: em fragmentos dispersos, que se alternam com cenas de ensaios da orquestra, descobrimos um pouco mais sobre eventos da vida pessoal de Lydia no passado e no presente, sobre seus relacionamentos com alguns músicos. E a imagem ideal inicial, meticulosamente construída nos primeiros 40 minutos, começa a rachar, pois tudo acaba não sendo o que o público (incluindo os espectadores do filme) via inicialmente.

Um único evento imprudente no passado desencadeia uma cascata de problemas que se acumulam, destruindo tudo o que foi construído com esforço e perseverança imensos. E então, a altamente intelectual e virtuosa compositora Lydia Tár, a primeira mulher maestrina na história da Orquestra de Berlim, perde cada vez mais sua humanidade, concorda com mentiras, acobertamentos, rebaixa seus princípios morais, que talvez nunca tivesse, ou que perdeu há muito tempo em sua busca por reconhecimento.

A aparente solidez do status e da reputação da personagem é ameaçada e se transforma em areia movediça, capaz de arrastá-la para o fundo. Junto com Lydia, descobrimos como o brilho exterior pode desaparecer rapidamente e quão frágil pode ser a linha entre a ascensão e a queda. E todas essas reviravoltas psicológicas e a mudança de ritmo narrativo, de lento para caótico, ocorrem ao som da bela e tensa música da vencedora do Oscar Hildur Guðnadóttir.

Tár, Cate Blanchett

À primeira vista, 'Tár' é uma declaração sobre vários fenômenos sociais que tomaram conta da sociedade moderna nos últimos cinco anos: a cultura do cancelamento e o movimento #MeToo (que não tem vínculo de gênero, como observa o diretor). Mas, se aprofundarmos, este filme é uma reflexão de Todd Field sobre a interpenetração do trabalho e da personalidade: onde está a linha que separa o seu eu real da imagem necessária para o trabalho? Como não perder a si mesmo e tudo o que é sincero e verdadeiro na difícil jornada até o topo do Olimpo? E o que se pode ignorar, fazer concessões, justificando com talento e genialidade, e o que é intolerável?

Em 'Tár', o talento de atuação de Cate Blanchett atinge um nível extraordinário: apesar de termos diante de nós uma personagem completamente fictícia, desejamos que a maestrina exista de verdade, tão viva e real ela parece na tela. Por este papel de Lydia Tár, não interpretado, mas verdadeiramente vivido, a atriz já recebeu a Copa Volpi no Festival de Veneza, o Globo de Ouro e uma indicação ao prêmio do Sindicato dos Atores dos EUA. E algumas publicações estrangeiras preveem a vitória da atriz no Oscar e, honestamente, apesar de todo o amor por Michelle Yeoh e Ana de Armas, entre todas as candidatas, Blanchett é a mais forte e a que mais merece o prêmio.

Tár, Cate Blanchett

Como 'Tár' se revela no final? Visualmente belo, uma declaração ponderada não apenas sobre a sociedade moderna, mas também sobre o ser humano na arte. Sim, é um filme imperfeito que conta a história de uma personalidade imperfeita, mas talentosa, Lydia Tár. Tanto a personagem quanto o filme têm pontos fortes e fracos. Mas o principal é que o filme faz pensar, pois não há apenas preto e branco.

Se você não está preparado para a viscosidade de 40 minutos com longos diálogos no início, não é fã de reflexões filosóficas sobre a arte e o papel do ser humano nela, basta colocar o filme no modo mudo, ligar as faixas da sua banda favorita e apreciar a magnífica Cate Blanchett. Talvez você não entenda todas as complexidades da trama, mas captará o conflito principal e a tragédia. Soa blasfemo, mas é melhor assim do que ficar sem 'Tár' completamente.